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O que acontece com seus Bitcoins se algo acontecer com você?

Instabilidade global amplia preocupação com herança digital e leva investidores brasileiros a buscar soluções de custódia mais seguras

Créditos: Divulgação

Brasil, 3 de junho de 2026 – A escalada das tensões geopolíticas em 2026 reacendeu o debate global sobre segurança patrimonial, continuidade de negócios e proteção de ativos digitais. Em meio ao aumento das incertezas internacionais, cresce também a preocupação com a chamada “herança digital”: o risco de patrimônios em Bitcoin (BTC) e Ethereum (ETH) se tornarem inacessíveis em casos de morte, incapacidade, crises sistêmicas ou falhas de custódia.

O tema ganhou força à medida que cresce a adoção de criptoativos no mundo e no Brasil, especialmente do Bitcoin. Dados recentes do relatório Global Crypto Adoption Index 2026, da TRM Labs, colocam o Brasil na quinta posição global em adoção de criptoativos no varejo, refletindo o aumento do interesse de investidores pessoas físicas nesse mercado. Com isso, especialistas alertam para a necessidade de planejamento sucessório e de mecanismos de proteção patrimonial voltados aos ativos digitais. A preocupação envolve principalmente recursos armazenados em exchanges estrangeiras, estruturas sem proteção regulatória local e a ausência de processos que garantam a continuidade patrimonial em situações de emergência.

Segundo Cleverson Pereira, Head Educacional da OnilX, a discussão sobre segurança digital evoluiu e hoje envolve não apenas proteção tecnológica, mas também continuidade patrimonial, governança e segurança jurídica. Para ele, o amadurecimento do mercado de ativos digitais exige que investidores passem a tratar criptomoedas da mesma forma que outros bens patrimoniais, incluindo planejamento sucessório e estruturas adequadas de custódia.

“Segurança não é apenas esconder chaves; é garantir que o patrimônio seja transferível e legalmente protegido, não importa o cenário global. Em um ambiente de instabilidade internacional, conflitos geopolíticos e aumento dos riscos operacionais, cresce a necessidade de estruturas que assegurem acesso, rastreabilidade e continuidade desses ativos no longo prazo”, afirma Pereira.

O executivo destaca que muitos investidores ainda mantêm ativos digitais de forma centralizada em dispositivos pessoais, anotações privadas ou exchanges internacionais, sem qualquer organização sucessória ou mecanismo formal de recuperação de acesso. Segundo ele, essa falta de planejamento pode resultar em perda definitiva do patrimônio e gerar dificuldades jurídicas e operacionais para familiares em emergências.

“Em muitos casos, apenas uma pessoa possui acesso às senhas ou às carteiras digitais. Se houver um imprevisto, os ativos podem ficar inacessíveis para sempre. O mercado começa a entender que custódia também significa continuidade patrimonial. Não basta apenas possuir o ativo; é preciso garantir que ele possa ser acessado, protegido e transferido de forma segura para as próximas gerações”, explica o especialista.

Como proteger seu patrimônio digital 

Segundo o advogado especialista em Direito Civil Rafael Medeiros, do GMP G&C Advogados Associados, uma das formas mais importantes de reduzir o risco de perda de patrimônio digital é estruturar previamente um planejamento sucessório que contemple os criptoativos. Isso porque, diferentemente de ativos bancários tradicionais, muitas carteiras digitais dependem exclusivamente do conhecimento do titular sobre senhas, seed phrases, autenticações multifatoriais ou dispositivos específicos de acesso. “O grande problema, na prática, não costuma ser a inexistência do direito hereditário sobre os criptoativos, mas a impossibilidade técnica de acesso aos ativos após a morte ou incapacidade do titular”, detalha o advogado.

De acordo com o advogado, a recomendação envolve implementar mecanismos formais de governança patrimonial e sucessória, com organização segura das informações de acesso e definição prévia de procedimentos para situações emergenciais. Dependendo da estrutura e do volume patrimonial, podem ser utilizados instrumentos como testamentos, holdings familiares, protocolos de custódia compartilhada, estruturas de multiassinatura e documentação jurídica voltada especificamente para ativos digitais. “O testamento, por exemplo, pode disciplinar a destinação patrimonial e registrar a existência dos ativos sem necessariamente expor informações sensíveis. Já estruturas mais sofisticadas de planejamento patrimonial tendem a ser utilizadas em patrimônios digitais mais relevantes ou em operações ligadas ao ecossistema cripto”, destaca Medeiros.

O especialista ressalta ainda que depender exclusivamente da memória do titular, de dispositivos únicos ou de armazenamento informal aumenta significativamente o risco de perda permanente dos ativos. “Em patrimônio digital, segurança e sucessão precisam caminhar juntas. O grande desafio jurídico contemporâneo é equilibrar proteção patrimonial, privacidade e transmissibilidade sucessória de ativos altamente sensíveis”, completa o advogado.