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Dia do Estudante: especialista alerta que IA acelera respostas, mas não substitui o cérebro no processo de aprendizagem

Com 90% das crianças e jovens recorrendo aos chats para estudar, a neurociência explica por que pensar continua sendo indispensável para aprender

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Especialistas alertam que a IA acelera o acesso à informação, mas não substitui os processos cerebrais responsáveis pela aprendizagem

Nunca foi tão fácil encontrar uma resposta para diversas perguntas. Depois do uso da inteligência artificial, em poucos segundos é possível construir textos, resolver exercícios, resumir livros e até elaborar redações completas. O que parecia um avanço tecnológico inevitável também acende um novo debate dentro da educação: afinal, se a inteligência artificial faz o trabalho intelectual pelo estudante, quem está aprendendo?

No Dia do Estudante, celebrado em 11 de agosto, a discussão ganha ainda mais relevância diante da rápida incorporação dessas ferramentas à rotina escolar. Estudo da Fundação Itaú mostra que 84% utilizam a IA para fins de estudo;  80% para resolução de atividades; e 90% recorrem à IA para pesquisar, buscar informações ou tirar dúvidas.

Embora a IA represente uma oportunidade para personalizar o ensino e ampliar o acesso à informação, especialistas alertam que ela não substitui o processo cognitivo necessário para que a aprendizagem aconteça de fato.

Segundo a Dra. Janaína Mourão, diretora pedagógica da IntraAct Brasil e especialista em aprendizagem baseada em neurociência, o maior risco não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada.

“A inteligência artificial representa uma das maiores oportunidades educacionais das últimas décadas, mas também um dos maiores riscos, dependendo da forma como é utilizada. Ela pode oferecer explicações personalizadas, ampliar repertório, auxiliar professores no planejamento e permitir que estudantes recebam feedback quase imediato. Tudo isso tem enorme potencial para melhorar a aprendizagem. O problema surge quando confundimos acesso à informação com aprendizagem”, explica.

De acordo com a especialista, o cérebro continua aprendendo hoje exatamente pelos mesmos mecanismos biológicos que sempre utilizou: esforço mental, recuperação de informações, resolução de problemas e estabelecimento de conexões entre conhecimentos. “A IA pode entregar respostas prontas, mas não pode edificar, no cérebro do estudante, as conexões neurais que só se formam durante o esforço de compreender, comparar, relacionar ideias, resolver problemas e recuperar informações da memória. Em outras palavras, ela acelera o acesso à informação, mas não substitui o processo cognitivo essencial para a aprendizagem”, pontua Janaína.

A falsa sensação de que se aprendeu

Na prática, recorrer constantemente à inteligência artificial para realizar tarefas pode produzir o efeito silencioso, que é a sensação de que o conteúdo foi aprendido quando, na realidade, ele apenas foi reconhecido. “Compreender um conteúdo não é simplesmente recebê-lo. É necessário processá-lo ativamente para que ele seja consolidado na memória de longo prazo. Da mesma forma que ninguém desenvolve força física assistindo outra pessoa levantar pesos, ninguém desenvolve pensamento apenas observando respostas prontas”, esclarece.

Segundo Janaína, esse fenômeno explica por que muitos estudantes conseguem acompanhar uma explicação produzida pela IA, mas encontram dificuldade quando precisam resolver um exercício sozinhos, explicar um conceito com suas próprias palavras ou aplicar aquele conhecimento em uma situação diferente. “O estudante acredita que sabe porque reconhece algo da explicação, quando a vê, contudo encontra dificuldade de explicar com as próprias palavras ou resolver um problema sozinho, utilizando aquele conteúdo. Ter a sensação de aprendizado não é o mesmo que aprender.”

O limite entre apoio e substituição

Para a especialista, a inteligência artificial pode ser uma importante aliada quando funciona como ferramenta de apoio ao raciocínio, e não como substituta dele. Ela cita exemplos positivos, como solicitar novas explicações sobre um tema, pedir exercícios complementares, receber perguntas desafiadoras ou revisar um texto produzido pelo próprio aluno. “O problema começa quando a inteligência artificial pesquisa, organiza, escreve, resolve e conclui praticamente tudo. Nesse caso, quem está aprendendo é a máquina, e não o estudante”, ressalta.

Para Janaína, existe um critério simples para avaliar se o uso da tecnologia está favorecendo ou prejudicando a aprendizagem. “Depois de utilizar a ferramenta, o estudante conseguiria explicar com as próprias palavras ou  resolver uma atividade semelhante sozinho? Se a resposta for sim, provavelmente a IA funcionou como apoio. Se a resposta for não, ela substituiu o processo de aprendizagem.”

Ela ressalta ainda que, especialmente nos anos iniciais, não há necessidade de utilização de inteligência artificial pelos alunos, já que, nessa fase, é fundamental desenvolver habilidades básicas de leitura, escrita e construção do conhecimento a partir de livros, observação, diálogo e interação humana.

O papel das famílias e das escolas

Diante desse cenário, Janaína defende que o desafio das escolas e das famílias não é impedir o uso da tecnologia, mas estabelecer restrições compatíveis com a idade, garantindo que não abram  mão do esforço intelectual necessário para aprender. “Pais e professores continuam tendo o mesmo papel: criar situações em que o estudante precise pensar. Existem etapas do desenvolvimento que não podem ser terceirizadas. A leitura fluente, a escrita competente e a construção de conhecimentos sólidos continuam sendo indispensáveis para que o cérebro possa realizar tarefas mais complexas, como argumentar, analisar, criar e resolver problemas.”

Ela também reforça que experiências humanas seguem sendo insubstituíveis no desenvolvimento infantil. “O contato com outro ser humano, permeado por confiança e afetividade, garante a aprendizagem significativa e uma formação integral. O uso de boas histórias, a observação do mundo real e  de obras de arte, bem como experimentos práticos,  continua sendo um dos caminhos mais eficazes para formar leitores, pensadores e seres humanos.”

Para a especialista, os profissionais da educação devem compreender que “o objetivo de educar é formar integralmente um ser humano, aumentando sua capacidade intelectual e suas competências sócio emocionais . Sendo assim, a  tecnologia deve ser utilizada como um meio que contribui para isso ”, conclui.

Sobre o IntraAct Brasil

Sediado em Brasília (DF), o IntraAct Brasil oferece um método de alfabetização fundamentado em neurociência cognitiva, desenvolvido a partir de 30 anos de experiência na Alemanha, para acelerar e tornar mais segura a aprendizagem da leitura e da escrita. Com aplicação em diversos contextos — da educação infantil à recomposição de aprendizagem em adolescentes e adultos — o método permite que 80% dos alunos sejam capazes de ler em 4 a 5 meses e que, ao final do primeiro ano, até 80% da turma esteja alfabetizada. O IntraAct Brasil fornece kit didático completo, formação de professores e acompanhamento técnico contínuo, sendo compatível com as diretrizes da BNCC e adaptável a diferentes perfis de alunos e redes de ensino. Atualmente, mais de 44 mil estudantes de redes públicas municipais e 4.328 professores de oito estados brasileiros (SC, MG, DF, PR, MA, GO, SP e MT) já foram impactados pela metodologia.

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