Urologista alerta que dificuldade para urinar e aumento da frequência urinária não estão necessariamente presentes nas fases iniciais; avaliação individualizada é importante para identificar quem precisa avançar na investigação

A ausência de dificuldade para urinar, dor ou qualquer outra alteração urinária pode transmitir uma falsa sensação de segurança em relação à saúde da próstata. O problema é que o câncer de próstata pode se desenvolver silenciosamente e, em muitos casos, não provocar sintomas em suas fases iniciais.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), muitos pacientes com câncer de próstata não apresentam sintomas. Quando eles surgem, podem ser semelhantes aos provocados pelo crescimento benigno da próstata, como dificuldade para urinar e necessidade de ir ao banheiro mais vezes durante o dia ou à noite.
Para o urologista Alberto Tomé, esse é um dos pontos que mais precisam ser esclarecidos entre os homens. “Existe uma tendência de associar a saúde da próstata apenas ao funcionamento urinário. O paciente está urinando normalmente, não sente dor e acredita que não há motivo para procurar avaliação. Mas o câncer de próstata pode estar presente mesmo sem provocar sintomas, principalmente no início”, explica.
O cenário ganha relevância diante da incidência da doença no país. A estimativa mais recente do INCA aponta 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Excluindo os tumores de pele não melanoma, a próstata responde por 30,5% dos novos casos de câncer estimados entre os homens.
Outro ponto que pode gerar confusão é que alterações urinárias não significam, necessariamente, câncer. Com o avanço da idade, é comum ocorrer o aumento benigno da próstata, conhecido como hiperplasia prostática benigna (HPB), condição que pode provocar jato urinário mais fraco, dificuldade para iniciar a micção e aumento da frequência urinária.
“Nem todo homem com sintomas urinários tem câncer e nem todo homem com câncer apresenta sintomas. Por isso, não podemos utilizar apenas a presença ou ausência dessas alterações como parâmetro”, afirma Alberto Tomé.
A avaliação deve considerar fatores como idade, histórico familiar, condições clínicas e achados dos exames. O PSA, medido por exame de sangue, e o toque retal podem fazer parte dessa avaliação, e resultados suspeitos podem levar à necessidade de exames complementares.
O INCA ressalta que a decisão sobre exames de rastreamento deve considerar seus possíveis benefícios e riscos e ser discutida entre o homem e o profissional de saúde. Já diante de sinais, sintomas ou alterações suspeitas, a investigação diagnóstica é fundamental.
Quando os primeiros exames levantam suspeita, o objetivo passa a ser identificar com maior precisão se existem áreas suspeitas na próstata e avaliar a necessidade de biópsia.
Entre as tecnologias disponíveis atualmente está o micro-ultrassom de alta resolução, que utiliza frequência de 29 MHz e permite visualizar a próstata em tempo real com elevado nível de detalhamento. A tecnologia pode auxiliar na identificação de regiões suspeitas e no direcionamento da coleta de fragmentos durante a biópsia, quando o procedimento é indicado.
Alberto Tomé foi pioneiro na utilização do micro-ultrassom no interior do Paraná e utiliza a tecnologia na investigação de casos selecionados.
“A evolução dos métodos de imagem permite tornar a investigação cada vez mais direcionada. O objetivo não é realizar mais procedimentos, mas identificar quais pacientes realmente precisam avançar para uma biópsia e, quando ela é necessária, buscar as áreas que apresentam maior suspeita”, explica o urologista.
O diagnóstico definitivo do câncer de próstata é realizado por meio da análise do tecido obtido na biópsia. De acordo com o INCA, a indicação do procedimento considera informações como PSA, toque retal e possíveis achados suspeitos nos exames de imagem.
Para o especialista, a principal orientação é não esperar o organismo necessariamente dar sinais para começar a discutir a saúde da próstata.
“Quando falamos de câncer, ausência de sintomas não deve ser interpretada automaticamente como ausência de doença. A avaliação precisa ser individualizada e baseada no risco de cada paciente”, conclui Alberto Tomé.
Saiba mais: @dr.albertotome
