Horas em pé, longos períodos sentado ou uma rotina sem pausas podem contribuir para desconfortos nos membros inferiores; especialista em fisioterapia vascular orienta sobre o que observar

Passar o dia inteiro em pé. Ficar horas sentado diante do computador. Dirigir por longos períodos. Trabalhar em um balcão, em um consultório, em uma loja ou circulando entre diferentes ambientes.
Embora sejam rotinas completamente diferentes, muitas profissões têm algo em comum: pouco tempo para parar, mudar de posição e prestar atenção ao próprio corpo.
No fim do expediente, sintomas como pernas pesadas, cansaço, desconforto e inchaço podem aparecer. E, muitas vezes, são encarados simplesmente como consequência de um dia de trabalho.
Mas até que ponto esse desconforto é esperado e quando ele merece investigação?
Para Gabriela Tosta, fisioterapeuta com cerca de 20 anos de atuação clínica e experiência dedicada à fisioterapia vascular, a resposta não está apenas na profissão, mas na combinação entre rotina, tempo em uma mesma posição, movimentação, histórico individual e características de cada pessoa.
“Não podemos dizer que determinada profissão vai necessariamente causar um problema vascular. O que precisamos observar é como aquela rotina interfere no corpo e, principalmente, se os sintomas são frequentes, persistentes ou estão mudando”, explica.
Em pé ou sentado: existe uma posição pior?
Uma das dúvidas mais comuns é se trabalhar em pé seria pior do que trabalhar sentado.
Segundo a especialista, o problema não deve ser reduzido simplesmente à escolha entre ficar sentado ou em pé. Permanecer por muito tempo em uma mesma posição, sem movimentação adequada, pode favorecer desconfortos nos membros inferiores.
Por isso, a rotina profissional precisa considerar oportunidades de movimento e mudança de posição.
Um vendedor que passa horas em pé, por exemplo, tem uma realidade diferente de um profissional de escritório que permanece sentado diante do computador. Um motorista passa boa parte do expediente sentado, enquanto um profissional de saúde pode alternar entre caminhar, permanecer em pé e ficar parado durante determinados procedimentos.
São situações diferentes, mas todas podem exigir atenção à saúde das pernas.
Quais sintomas não devem ser simplesmente ignorados?
Alguns desconfortos podem aparecer depois de um dia intenso e não necessariamente indicam uma doença. Porém, quando os sintomas se tornam frequentes ou começam a interferir na rotina, vale buscar avaliação.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
- peso ou cansaço frequente nas pernas;
- inchaço recorrente;
- dor ou desconforto persistente;
- surgimento ou piora de varizes;
- alterações na pele;
- sintomas que estão ficando mais intensos;
- mudanças no padrão habitual dos sintomas.
“A frequência e a evolução são informações importantes. Uma pessoa que sempre termina o dia com as pernas cansadas precisa observar se isso está estável ou se existe uma mudança acontecendo”, explica Gabriela.
O que pode ser feito durante o trabalho?
A orientação não é transformar o ambiente profissional em uma academia, mas encontrar pequenas oportunidades de movimento dentro da realidade de cada profissão.
Sempre que possível, fazer pequenas pausas, caminhar alguns minutos, mudar de posição e movimentar pés e tornozelos são estratégias simples que podem ser incorporadas à rotina.
Também é importante manter uma hidratação adequada e evitar passar períodos prolongados na mesma posição quando houver possibilidade de alternância.
Mas a especialista reforça: essas medidas são orientações gerais e não substituem uma avaliação individual quando existem sintomas persistentes.
Quando o sinal de alerta exige atenção imediata?
Nem todo inchaço nas pernas tem a mesma causa.
Inchaço súbito, especialmente quando ocorre em apenas uma perna, dor importante, alteração de cor ou temperatura do membro ou falta de ar associada são sinais que não devem ser atribuídos automaticamente à rotina profissional.
Nessas situações, é necessária avaliação presencial. Diante de sintomas intensos ou súbitos, a orientação é procurar atendimento médico de urgência.
O “inchaço do fim do dia” pode virar uma questão de saúde?
Para Gabriela, justamente por ser um sintoma comum, o inchaço pode acabar sendo banalizado.
A proposta é estimular as pessoas a conhecerem melhor o próprio corpo e entenderem que informação não significa diagnóstico.
“É importante que as pessoas não entrem em uma busca por diagnóstico através das redes sociais. O conteúdo pode ajudar a reconhecer um sinal e entender que talvez seja necessário procurar ajuda, mas a causa precisa ser investigada individualmente”, afirma.
Quem está mais exposto?
A atenção é especialmente importante para trabalhadores que passam muitas horas:
- em pé: vendedores, professores, cabeleireiros, profissionais de cozinha, seguranças e profissionais de saúde;
- sentados: trabalhadores de escritório, motoristas, profissionais que trabalham ao computador e pessoas que passam longos períodos dirigindo;
- alternando entre posições: profissionais de saúde, dentistas, comerciantes e trabalhadores de diferentes setores de atendimento.
A questão, segundo Gabriela, não é criar uma lista de profissões “perigosas”, mas chamar atenção para um comportamento que atravessa diferentes áreas: passar muitas horas trabalhando sem conseguir prestar atenção aos sinais do corpo.
Sobre Gabriela Tosta
Gabriela Tosta é fisioterapeuta, com especialização e prática dedicada à fisioterapia vascular, com ênfase em lipedema e linfedema. Possui cerca de 20 anos de atuação clínica e experiência estimada de 48 mil pacientes atendidos ao longo da carreira. Também participa de congressos e eventos de referência e atua na educação de pacientes e na formação continuada de fisioterapeutas.
