Cinco pessoas viraram rés em Monte Alto; investigação cita sedação, retirada de 48 ml por animal e risco de morte por hipovolemia

Uma investigação da Polícia Civil revelou detalhes de um esquema de coleta clandestina e comercialização de sangue de gatos no interior de São Paulo. Segundo os autos, tutores recebiam R$ 50 por animal, enquanto bolsas com aproximadamente 50 ml de sangue seriam revendidas por valores entre R$ 500 e R$ 800.
O caso ocorreu em Monte Alto (SP) e avançou para uma nova ação penal. A Justiça recebeu, em 10 de setembro, denúncia apresentada pelo Ministério Público contra cinco pessoas. Três delas respondem, nesta ação, por maus-tratos contra seis gatos e associação criminosa. Outras duas são acusadas de associação criminosa, enquanto as imputações de maus-tratos atribuídas a elas são tratadas em outro processo.
De R$ 50 por gato a até R$ 800 pela bolsa
De acordo com a investigação, pessoas eram procuradas para disponibilizar gatos para as coletas em troca de pagamento. Um dos depoimentos anexados ao inquérito aponta que cada tutor recebia R$ 50 por animal levado ao procedimento.
O sangue retirado dos gatos, por outro lado, teria valor muito maior na etapa seguinte. A apuração menciona a revenda de bolsas de cerca de 50 ml por valores entre R$ 500 e R$ 800.
A Polícia Civil também identificou pagamentos relacionados à captação e ao transporte dos animais. Entre os registros citados no inquérito aparecem diária de R$ 180, auxílio de R$ 25 para alimentação, transferência via PIX de R$ 1.080 e pagamento de R$ 400 a uma intermediária que atuava em Monte Alto.
Gatos teriam sido sedados antes da retirada do sangue
Segundo a apuração policial, os animais eram sedados com medicamentos antes da coleta. Os autos citam o uso de quetamina e dexmedetomidina.
A retirada de sangue teria sido realizada por um estudante que, na época, cursava o segundo ano de Medicina Veterinária na modalidade a distância. A investigação aponta a coleta de aproximadamente 48 ml de sangue por gato, posteriormente divididos em seringas identificadas com o nome do animal e de sua tutora.
Na abordagem que deu origem ao caso, agentes encontraram materiais utilizados em procedimentos veterinários, além de recipientes com sangue e animais sedados.
Denúncia atual trata formalmente de seis gatos
Um ponto importante do processo é a diferença entre os animais que aparecem na acusação formal e outros números mencionados durante a investigação.
A denúncia recebida pela Justiça nesta segunda fase trata de maus-tratos contra seis gatos. Entretanto, depoimentos e mensagens analisados pela Polícia Civil mencionam quantidades maiores.
Segundo a investigação, no dia da abordagem já teria ocorrido coleta de sangue de 28 animais. Em uma viagem anterior a Monte Alto, o número citado é de 38 gatos. Uma mensagem de setembro de 2025 também faria referência a uma encomenda envolvendo 25 animais.
Esses números fazem parte dos elementos reunidos no inquérito e não devem ser confundidos com a quantidade de gatos incluída formalmente na acusação desta ação penal.
Laudos apontaram risco de hipovolemia
Laudos veterinários anexados ao inquérito indicaram, segundo a investigação, que alguns animais estavam abaixo do peso, desnutridos e sujeitos a risco de morte por hipovolemia, condição caracterizada pela redução do volume de sangue circulante no organismo.
O Instituto de Criminalística, porém, informou não dispor de metodologia validada para identificação animal em parte da análise realizada. Por isso, os resultados periciais precisam ser interpretados dentro dos limites técnicos registrados no próprio processo.
Doação de sangue animal é importante, mas exige controle veterinário
A doação de sangue de cães e gatos é utilizada normalmente na medicina veterinária e pode salvar animais em cirurgias, acidentes, intoxicações e outras situações de emergência. O problema investigado em Monte Alto envolve as condições em que as coletas teriam ocorrido e a forma como o material teria sido obtido e comercializado.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP) orienta que gatos doadores passem por avaliação clínica e exames antes do procedimento. Entre os critérios citados pelo órgão estão peso mínimo adequado, boas condições de saúde, vacinação e controle de parasitas em dia, além de exames para doenças que podem ser transmitidas pelo sangue.
O Conselho também informa que bancos de sangue veterinários devem possuir registro junto ao CRMV e contar com médico-veterinário responsável técnico.
Cinco pessoas viraram rés
A nova denúncia foi apresentada pelo Ministério Público em setembro e recebida pela Justiça no dia 10. Com a decisão, cinco investigados passaram formalmente à condição de réus.
O recebimento da denúncia não significa condenação. As acusações e as provas ainda serão analisadas ao longo do processo, e os réus têm direito à defesa.
Reportagens da Folha de S.Paulo e da CNN Brasil informaram que, até as respectivas publicações, as defesas de parte dos acusados ainda não haviam sido localizadas. O caso tramita na 2ª Vara de Monte Alto.
Em casos envolvendo maus-tratos contra cães ou gatos, a legislação brasileira prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda do animal. Já o crime de associação criminosa prevê pena de um a três anos de reclusão.
Como o caso começou
A investigação teve início em outubro de 2025, depois que um anúncio divulgado pelo WhatsApp oferecia dinheiro a tutores que disponibilizassem gatos para coleta de sangue.
A denúncia levou agentes até uma residência em Monte Alto, onde foram encontrados seis gatos sedados e materiais utilizados nos procedimentos. A partir das apreensões, dos depoimentos, da análise de celulares e de documentos financeiros, a Polícia Civil ampliou a apuração e identificou possíveis conexões com outras cidades do interior paulista.
Segundo a Polícia Civil, a investigação reuniu elementos sobre atuação em municípios como Monte Alto, São José do Rio Preto, Mirassol e Catanduva.
Fontes consultadas:
- g1 Ribeirão Preto e Franca – 19/09/2026
- CNN Brasil – 14/09/2026
- Folha de S.Paulo – 16/09/2026
- CRMV-SP – orientação sobre doação de sangue de cães e gatos
- CRMV-SP – bancos de sangue veterinários e critérios para doadores
- Presidência da República – Lei nº 14.064/2020
- Presidência da República – Código Penal, art. 288
