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Anúncios na internet podem abrir caminho para espionagem sem clique

Investigação internacional identifica mais de 76 milhões de lances publicitários associados ao Brasil e revela como criminosos podem explorar a navegação para atingir empresas e executivos

Tela de computador com alertas de cibersegurança representando ataques de ransomware
Ataques de ransomware atingem maior volume dos últimos 12 meses em julho – Julho registrou 955 vítimas de ransomware identificadas pelo monitoramento do Ransomware.live, segundo dados divulgados pela Cohesity. Imagem ilustrativa.

O Brasil apareceu entre os principais países alcançados por uma operação internacional que utilizava anúncios digitais para facilitar ataques de espionagem. Segundo investigação do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, divulgada em 15 de outubro, foram registrados mais de 76 milhões de lances para exibição de propagandas associadas à operação AdFection em endereços de internet brasileiros entre março e junho de 2026, colocando o país na quarta posição entre 161 nações analisadas.

O levantamento revelou uma técnica capaz de infectar celulares e computadores sem que a vítima precise clicar em links ou baixar arquivos. Embora tenham sido identificadas exibições desses anúncios em redes governamentais brasileiras, não foram confirmadas infecções no país.

Para Hesron Hori, especialista em segurança da informação, sócio e diretor de Risk Assessment da Under Protection, empresa especializada em cibersegurança e continuidade operacional, o caso expõe uma dificuldade para as organizações: funcionários podem ser vítimas de tentativas de invasão mesmo quando seguem as recomendações tradicionais de segurança. “Não clicar em links desconhecidos continua sendo importante, mas já não é suficiente. O problema é que uma pessoa pode acessar um site legítimo, sem fazer nada aparentemente arriscado, e ainda assim ter seu dispositivo exposto a uma tentativa de ataque”, explica.

A investigação identificou uma operação envolvendo a empresa israelense Discover-Tech, que utilizava mecanismos de publicidade digital para identificar usuários e direcionar ataques. Os pesquisadores também encontraram evidências de infecção em dispositivos da rede de comunicação Al Jazeera por um software espião associado à Candiru, companhia israelense especializada nesse tipo de tecnologia.

Como uma propaganda pode se transformar em ataque

O mecanismo começa antes mesmo de um anúncio aparecer na tela. Quando alguém acessa um site ou aplicativo, plataformas de publicidade realizam leilões automatizados para definir quais propagandas serão exibidas. Nesse processo, informações sobre o dispositivo e sua conexão podem ser compartilhadas com participantes da disputa.

Segundo o Citizen Lab, a operação explorava essa estrutura para identificar possíveis alvos e direcionar conteúdos capazes de explorar vulnerabilidades nos aparelhos. Dependendo das falhas presentes, o código malicioso poderia ser executado sem qualquer interação da vítima, característica dos chamados ataques sem clique, ou zero-click.

O levantamento também encontrou registros de anúncios associados à operação em redes governamentais brasileiras, empresas de tecnologia e organizações internacionais. Os pesquisadores, porém, não identificaram infecções confirmadas no Brasil. A presença dessas propagandas indica que a infraestrutura alcançou determinados ambientes, mas não comprova que eles foram comprometidos.

O risco ganha outra dimensão quando o equipamento pertence a uma empresa. Computadores e celulares corporativos concentram acessos a sistemas financeiros, documentos estratégicos, e-mails e plataformas internas. Uma invasão bem-sucedida pode abrir caminho para espionagem e coleta de informações confidenciais.

“Um ataque desse tipo muda a forma como precisamos olhar para a exposição das empresas. Não basta avaliar o comportamento do funcionário. É necessário entender quais dispositivos estão vulneráveis, que informações podem ser acessadas por eles e se existem mecanismos capazes de identificar uma invasão”, afirma Hori.

O que muda na proteção das empresas

O episódio coloca em discussão os limites de medidas de segurança baseadas apenas na prevenção de golpes conhecidos. Treinamentos contra phishing, por exemplo, continuam necessários, mas não impedem a exploração de uma vulnerabilidade quando o ataque dispensa a participação do usuário.

Entre as recomendações do Citizen Lab estão o uso de bloqueadores de publicidade e rastreamento, além da atualização de navegadores e sistemas operacionais. Nas empresas, essas medidas podem ser complementadas por controles de navegação, proteção dos dispositivos e monitoramento de conexões suspeitas.

Hori ressalta que a identificação de riscos deve considerar também a capacidade de resposta da organização. Isso inclui conhecer os equipamentos utilizados, revisar permissões de acesso, acompanhar atividades fora do padrão e estabelecer procedimentos para investigar possíveis comprometimentos.

“Uma empresa pode ter antivírus, firewall e diferentes ferramentas de proteção e ainda assim não perceber uma atividade maliciosa. A segurança depende também da capacidade de identificar comportamentos anormais e agir rapidamente para evitar que um incidente se transforme em um problema maior”, destaca.

Quais empresas precisam redobrar a atenção

Embora qualquer organização conectada à internet esteja sujeita a tentativas de ataque, Hori recomenda atenção especial às empresas que concentram dados financeiros, informações pessoais e documentos confidenciais. Bancos, instituições de saúde, escritórios jurídicos, companhias de tecnologia e órgãos públicos estão entre os setores que exigem controles rigorosos, devido à sensibilidade das informações que administram.

Para Hori, o primeiro passo é descobrir onde estão as fragilidades antes que elas sejam exploradas. Essa é uma das frentes de atuação da Under Protection, que utiliza a metodologia NG LISA para avaliar riscos relacionados a pessoas, processos e tecnologia. A análise permite identificar vulnerabilidades, estabelecer prioridades e orientar investimentos em segurança de acordo com o impacto potencial sobre o negócio.

“O empresário precisa saber se sua estrutura é capaz de perceber um ataque e responder a ele, mesmo quando não houve nenhum comportamento suspeito do funcionário. É esse nível de visibilidade que ajuda a reduzir o risco de uma invasão comprometer informações, operações e resultados”, conclui Hori.

Sobre Hesron Hori

Hesron Hori é sócio e diretor de Risk Assessment da Under Protection, especialista em gestão de riscos corporativos e segurança da informação. Atua há mais de uma década na avaliação de vulnerabilidades, governança digital e continuidade operacional, apoiando empresas na identificação e mitigação de riscos que afetam resultados, operações e reputação.

Formado em Segurança da Informação, possui MBA em Administração, Finanças e Geração de Valor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Sua atuação integra tecnologia e estratégia de negócios, com foco em normas internacionais e boas práticas de segurança aplicadas ao ambiente corporativo.

Para mais informações, acesse linkedin.

Sobre a Under Protection

Com mais de 25 anos de atuação, a Under Protection é especializada em cibersegurança e continuidade operacional. Criadora das metodologias LISA e NG LISA, combina monitoramento em tempo real, resposta imediata e análise integrada de pessoas, processos e tecnologia. Atua com planos priorizados e clareza executiva para proteger ambientes digitais com eficiência e resiliência.

A empresa também opera um centro de operações de segurança (NG SOC) que monitora ambientes 24/7, processando eventos em tempo real e executando ações automatizadas para contenção de ameaças. Com presença nacional e atuação em diversos setores, a Under Protection é reconhecida por sua abordagem estratégica e capacidade de adaptação às necessidades específicas de cada organização.

Para mais informações, acesse o site underprotection.

Fonte de pesquisa

https://citizenlab.ca/research/how-discover-tech-turned-targeted-ads-into-a-pipeline-for-spyware/

https://citizenlab.ca/research/exposing-adfection-executive-summary/

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