Por Carlos Henrique Junior

Na última semana de outubro, longe dos holofotes, os 27 estados e o Distrito Federal tomaram uma decisão que vai alcançar todos os brasileiros em 2027, inclusive quem não tem carro.
Reunidos no Confaz, o conselho que junta as secretarias de Fazenda de todo o país, os estados aprovaram o reajuste do ICMS sobre os combustíveis. A partir de 1º de fevereiro de 2027, o imposto da gasolina sobe de R$ 1,57 para R$ 1,64 por litro. O do diesel, de R$ 1,17 para R$ 1,30. O do gás de cozinha, de R$ 1,47 para R$ 1,54 por quilo.
Antes de qualquer indignação, um esclarecimento importante: não é decisão da Petrobras nem do governo federal. É uma correção anual feita pelos estados, prevista em lei desde 2022, quando o ICMS dos combustíveis deixou de ser um percentual sobre o preço e passou a ser um valor fixo em reais por litro, igual em todo o Brasil. Como o valor é fixo, a lei determina que ele seja revisado uma vez por ano, acompanhando os preços médios apurados pela ANP. Combustível subiu na média? O imposto é corrigido para cima. É o terceiro ano seguido de alta: desde 2023, o acumulado já passa de 30%.
O impacto direto: a conta de padaria
Aqui não há mistério. O aumento da gasolina é de 7 centavos por litro. Um tanque médio tem 50 litros. Logo: R$ 3,50 a mais por tanque cheio, só de imposto.
“Ah, mas R$ 3,50 é pouco.” É, e é exatamente por isso que esse tipo de aumento passa despercebido. Quem abastece uma vez por semana pagará cerca de R$ 180 a mais em imposto ao longo do ano. Multiplique por milhões de motoristas e entenda por que os combustíveis são uma das maiores fontes de arrecadação dos estados.
Vale o registro: hoje, os tributos federais e estaduais já somam cerca de R$ 2,25 por litro de gasolina, na faixa de um terço do preço final na bomba. O ICMS é a maior fatia.
O impacto indireto: onde mora o problema de verdade
O número que merece atenção não é o da gasolina. É o do diesel: alta de 11,1% no imposto, ou seja, mais que o dobro da gasolina, em percentual.
E por que isso importa para quem nunca abasteceu um caminhão? Porque no Brasil, quase tudo que consumimos anda sobre rodas. O arroz, o remédio, o material de construção, a encomenda do e-commerce… tudo passa por um caminhão movido a diesel.
A matemática do custo indireto é implacável: diesel mais caro → frete mais caro → produto mais caro na gôndola. Um caminhão que abastece 500 litros pagará R$ 65 a mais por tanque, só de imposto. Esse custo não fica no posto, ele viaja pela cadeia logística até chegar ao carrinho do supermercado.
Em outras palavras: quem não tem carro também vai pagar essa conta. Só que diluída, invisível e dentro do preço de tudo.
Carlos Henrique Junior é advogado e economista com foco em criptoativos, além disso é Strategic Advisor da Freex Corretora de Câmbio.
