Com mais pessoas envelhecendo e vivendo sozinhas, sensores, automação e sistemas de emergência começam a ser pensados para preservar autonomia e aumentar a segurança dentro de casa

O Brasil está envelhecendo rapidamente e uma transformação paralela começa a chamar atenção: cada vez mais pessoas chegam à terceira idade vivendo sozinhas. O cenário cria um novo desafio para famílias, sistemas de saúde e até para a maneira como as residências são projetadas.
Entre 2000 e 2023, a parcela de brasileiros com 60 anos ou mais quase dobrou, passando de 8,7% para 15,6%. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é que, em 2070, aproximadamente 37,8% da população brasileira esteja nessa faixa etária.
Ao mesmo tempo, dados do Censo 2022 mostram que 28,7% das pessoas com 60 anos ou mais que eram responsáveis pelo domicílio viviam em unidades unipessoais. Saída dos filhos de casa, divórcio e viuvez estão entre os fatores associados a essa mudança.
Casas começam a fazer parte da rede de proteção
O encontro dessas duas tendências abre espaço para um novo conceito de moradia: residências que não sejam apenas fisicamente adaptadas ao envelhecimento, mas que também consigam identificar situações de risco e acionar ajuda.
É nesse campo que o especialista em desenvolvimento estratégico de negócios, gestão e inovação Lucas Silva trabalha no desenvolvimento de um modelo de residência monitorada para idosos que vivem sozinhos.
A proposta integra automação residencial, monitoramento e mecanismos de resposta a emergências.
“É uma casa toda monitorada, voltada para o idoso que mora sozinho, sem enfermeiro, sem cuidador”, explica.
Uma queda poderia acionar familiares e emergência
No modelo em desenvolvimento, uma eventual queda poderia ser identificada pelo sistema e iniciar uma sequência de ações previamente configuradas, como alertar pessoas próximas, comunicar familiares e solicitar atendimento de emergência.
Também está prevista a integração de dispositivos pessoais aos sistemas de automação da residência.
A preocupação é relevante. Segundo dados citados da Organização Mundial da Saúde (OMS), as quedas são a segunda principal causa de mortes por lesões não intencionais no mundo. Cerca de 684 mil pessoas morrem anualmente em decorrência delas, e os adultos acima dos 60 anos concentram o maior número de quedas fatais.
Outros 37,3 milhões de episódios por ano apresentam gravidade suficiente para exigir atendimento médico.

Casa inteligente vai além de acender luzes
A automação residencial normalmente é associada a recursos de conforto, como controle de iluminação, climatização e equipamentos. Com o envelhecimento da população, porém, essas tecnologias podem ganhar uma função relacionada diretamente à segurança e à autonomia.
Sensores e sistemas integrados podem ajudar a identificar situações anormais justamente quando não há outra pessoa dentro do imóvel para perceber o problema.
Isso não elimina as adaptações tradicionais. Barras de apoio, pisos menos escorregadios, redução de degraus e ambientes com boa circulação continuam importantes.
A tecnologia acrescenta uma nova camada a essas medidas: a possibilidade de detectar uma emergência e iniciar uma resposta.
Móveis também precisam acompanhar o envelhecimento
A adaptação das residências passa também pelo mobiliário. Para Laércio Marchioni Filho, empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, uma casa preparada para acompanhar o envelhecimento deve considerar circulação, ergonomia, facilidade de acesso e altura de armários e superfícies usadas diariamente.
“Um móvel pode ser perfeitamente funcional hoje e se tornar uma dificuldade conforme a mobilidade do morador muda. Quando o projeto considera o envelhecimento desde o início, é possível pensar em soluções que facilitem o acesso e preservem a autonomia dentro da própria casa”, explica.
Tecnologia pode ajudar sem retirar a independência
Um dos principais desafios é encontrar equilíbrio entre proteção e autonomia. Morar sozinho não significa necessariamente que a pessoa idosa perdeu a capacidade de conduzir sua própria rotina.
A proposta das residências monitoradas é justamente oferecer uma rede capaz de agir diante de uma emergência sem transformar o imóvel em um ambiente de vigilância permanente que retire o controle do morador.
“Tudo precisa estar integrado em um sistema de automação para prestar o socorro urgente”, afirma Lucas Silva.
Privacidade e segurança dos dados também preocupam
A expansão desse tipo de tecnologia traz questões que precisarão ser consideradas. Entre elas estão privacidade, segurança dos dados, confiabilidade dos sensores, falhas de conexão, custos de instalação e os limites das decisões que podem ser automatizadas.
Esses pontos deverão ganhar importância à medida que a população brasileira envelhece e novos modelos familiares se tornam mais comuns.
Se as projeções do IBGE se confirmarem, mais de um terço da população brasileira terá 60 anos ou mais em 2070. O envelhecimento, portanto, deverá transformar não apenas saúde, previdência e assistência social, mas também a maneira como casas, edifícios e cidades são projetados.
