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Plano Safra amplia crédito para energia, mas produtor precisa fazer conta antes de investir em geração própria

Com novas possibilidades de financiamento para geração e armazenamento, especialista alerta que produzir a própria energia nem sempre é a opção mais econômica para a propriedade rural

Vista aérea de propriedade rural com vários telhados com painéis solares, cercada por lavouras e estradas de terra

O Plano Safra 2026/2027 ampliou o espaço da energia entre as decisões de investimento do produtor rural. Além de financiar infraestrutura tradicional, como armazenagem, irrigação, máquinas e modernização das propriedades, o novo ciclo de crédito prevê recursos para sistemas de geração de energia renovável e soluções de armazenamento, criando mais alternativas para propriedades que buscam reduzir custos e aumentar sua segurança energética.

Para a agricultura empresarial, o Plano Safra disponibiliza R$ 525,1 bilhões em crédito no ciclo 2026/2027. Desse total, R$ 140,2 bilhões são destinados a investimentos. Entre as mudanças previstas na regulamentação estão a possibilidade de financiar sistemas de geração e distribuição de energia renovável e soluções de armazenamento de energia elétrica para consumo próprio, desde que compatíveis com a demanda da atividade produtiva da propriedade.

A ampliação do crédito, porém, traz uma nova pergunta para dentro da fazenda: diante da possibilidade de financiar uma estrutura própria, vale mais a pena produzir energia ou continuar comprando eletricidade da rede e buscando alternativas de contratação?

Segundo Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, não existe uma única resposta. A decisão depende de uma combinação de fatores que passa pelo perfil de consumo da propriedade, sazonalidade da produção, demanda de energia ao longo do dia, disponibilidade de capital, condições de financiamento e prazo esperado para o retorno do investimento.

“Ter acesso a uma linha de crédito torna o projeto viável financeiramente, mas não significa que ele seja necessariamente a melhor decisão econômica para aquela propriedade. Antes de investir, o produtor precisa entender quanto consome, em quais horários, como esse consumo varia ao longo do ano e quais outras alternativas existem para reduzir o custo da energia”, explica Sozzi.

Esse cálculo tende a ser ainda mais relevante em atividades nas quais a eletricidade está diretamente ligada à produtividade. Irrigação, bombeamento, refrigeração, armazenagem, secagem de grãos, produção de leite, aves e suínos são exemplos de operações em que mudanças na demanda energética acompanham ciclos produtivos, condições climáticas e períodos de safra.

Uma propriedade com grande consumo durante o dia e demanda relativamente previsível, por exemplo, pode apresentar condições mais favoráveis para determinadas formas de geração própria. Em outros casos, a sazonalidade elevada, o perfil dos equipamentos ou a própria estrutura tarifária podem fazer com que a economia potencial não seja suficiente para justificar a imobilização de capital em um projeto de longo prazo.

A conta também precisa considerar o custo de oportunidade. Recursos direcionados a uma usina de geração própria deixam de ser utilizados na compra de máquinas, ampliação da produção, irrigação, armazenagem ou outras melhorias que também podem elevar a produtividade da fazenda.

“Energia compete por investimento com todas as outras necessidades da propriedade. Por isso, a análise correta não é apenas quanto a fazenda economizaria na conta de luz, mas qual retorno aquele capital gera quando comparado a outros projetos que o produtor poderia executar”, afirma o executivo.

Para propriedades com maior demanda, outra possibilidade é avaliar alternativas de contratação de energia, inclusive no mercado livre quando houver enquadramento e viabilidade econômica. Nesse modelo, em vez de investir em ativos próprios de geração, o consumidor pode negociar condições comerciais para o fornecimento, mantendo o capital disponível para outras frentes do negócio.

A entrada das soluções de armazenamento entre os itens contemplados pelo crédito rural adiciona uma nova variável a essa análise. Os sistemas podem ajudar a administrar a disponibilidade de energia ao longo do dia e aumentar a autonomia de determinadas operações, mas também adicionam investimento e exigem avaliação do perfil de utilização para que o benefício econômico justifique o custo.

Na avaliação de Sozzi, a mudança mais importante é que energia começa a ocupar, dentro da gestão rural, uma posição semelhante à de outros insumos estratégicos. “Durante muito tempo, a energia foi tratada como uma conta que chegava todos os meses e precisava ser paga. Quando o produtor passa a comparar geração própria, armazenamento, contratação e eficiência, ela deixa de ser simplesmente uma despesa e passa a ser uma decisão de gestão”, diz.

O Plano Safra 2026/2027 reforça esse movimento ao colocar recursos de crédito à disposição de projetos energéticos. Para o produtor, entretanto, a existência do financiamento deve ser o início da análise, e não o argumento final para a decisão.

“Solar, biomassa, armazenamento ou compra de energia não são soluções melhores ou piores isoladamente. A melhor estratégia é aquela que conversa com a operação da fazenda, oferece previsibilidade e entrega o melhor resultado econômico ao longo do tempo”, conclui Sozzi.

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