Educadores detalham como as disciplinas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia são cobradas no exame

Composta por 45 questões aplicadas no primeiro domingo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias exige dos estudantes uma reflexão crítica e integrada sobre a sociedade. Longe de cobrar a mera memorização de datas, nomes de pensadores ou tabelas estáticas, o exame avalia a capacidade do candidato de interpretar documentos, analisar gráficos, cartogramas e textos acadêmicos, conectando processos históricos e teorias sociais aos dilemas do mundo contemporâneo.
A seguir, educadores explicam como cada disciplina que compõe a área (História, Geografia, Filosofia e Sociologia) é cobrada, apontam os conteúdos de maior incidência e compartilham orientações práticas para direcionar os estudos na reta final de preparação. Para alcançar uma excelente pontuação, o estudante precisa compreender as particularidades e as intersecções de cada disciplina.
HISTÓRIA
A disciplina de História costuma responder por 10 a 15 questões do caderno de Ciências Humanas, destacando-se pela abordagem contextualizada e interdisciplinar. A prova valoriza a capacidade de análise documental e a compreensão dos grandes processos sociais, econômicos e políticos da humanidade.
Segundo Glenda Cândido, professora de História da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), o exame exige raciocínio crítico. “As questões não cobram datas decoradas ou fatos isolados. O exame convida o estudante a analisar fontes históricas, como trechos de documentos, cartas, imagens, charges e trechos de obras historiográficas, relacionando o passado às transformações da sociedade atual e à construção da cidadania.”
Entre os temas mais recorrentes na prova de História, a docente destaca:
Brasil Colonial e Império: processo de colonização, escravidão e herança afro-brasileira, Primeiro e Segundo Reinados, além dos movimentos de emancipação;
Brasil República: Primeira República, Era Vargas, processo de urbanização e industrialização, e a Ditadura Militar;
História Geral: Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), Idade Média, Grandes Navegações, Revolução Industrial, Fascismo, Nazismo, Guerras Mundiais e Guerra Fria;
Patrimônio e Diversidade: História afro-brasileira, história dos povos indígenas e a preservação do patrimônio histórico-cultural.
Para se dar bem na disciplina, Glenda recomenda treinar a leitura atenta do comando das questões acompanhadas de textos e imagens de apoio. “Entender o contexto em que o documento foi produzido e qual processo histórico ele representa é a chave para eliminar as alternativas incorretas.”
GEOGRAFIA
A Geografia está presente no Enem em aproximadamente 14 a 16 questões da prova. De acordo com Rogério Piccinin, docente da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), a disciplina é apresentada na prova como uma ciência que conecta os aspectos físicos do planeta às dinâmicas humanas, sociais e econômicas.
“O exame exige a leitura crítica de linguagens cartográficas e a compreensão dos impactos socioambientais”. As questões são, em geral, contextualizadas a partir de situações-problema, textos, mapas, gráficos e outros recursos, demandando do candidato habilidades de interpretação, análise e articulação de diferentes informações. “O candidato precisa ter uma visão integrada do espaço, não apenas a simples memorização de nomes de relevos e climas. O estudante deve entender os processos: ao analisar um fenômeno climático ou ambiental, por exemplo, o exame cobra a relação desse evento com o planejamento urbano, o uso do solo e as políticas públicas socioambientais.”
Entre os assuntos de Geografia com maior incidência no exame, o professor elenca:
Questões ambientais e sustentabilidade: mudanças climáticas, desmatamento, impactos da ação humana nos biomas brasileiros, gestão de recursos hídricos e matrizes energéticas;
Geografia agrária: uso da terra no Brasil, modernização da agricultura, agronegócio, agroecologia e conflitos fundiários;
Urbanização e demografia: crescimento das cidades, segregação socioespacial, mobilidade urbana, transição demográfica e fluxos migratórios;
Cartografia e Geografia física: leitura de mapas, escalas, domínios morfoclimáticos, solos e dinamismos de relevo e clima.
Como estratégia de estudo, Piccinin orienta acompanhar relatórios técnicos e notícias sobre eventos socioambientais e geopolíticos recentes. “Relacionar notícias atuais aos conceitos teóricos estudados em sala de aula ajuda a construir o repertório exigido pela prova.”
FILOSOFIA
Presente na prova com cerca de 5 a 6 questões, a Filosofia no Enem conecta grandes conceitos da tradição filosófica a problemas éticos e políticos contemporâneos. O exame exige interpretação textual consistente e o domínio do campo conceitual dos principais pensadores.
De acordo com Caio Leite, professor do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), as perguntas da disciplina são pautadas na articulação de ideias: “O Enem não pede que o aluno decore frases célebres. O enunciado apresenta uma situação-problema ou um fragmento de texto clássico ou moderno, e exige que o candidato reconheça o argumento do autor e identifique como aquela teoria se aplica à ética, à política ou ao conhecimento.”
Os tópicos e correntes mais cobrados em Filosofia incluem, segundo Leite:
Filosofia Política e Cidadania: conceitos de Estado, poder, democracia e liberdade em autores como Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e Hannah Arendt. Vale lembrar, por exemplo, que conceitos como estado de natureza são transversais para Hobbes, Locke e Rousseau, sendo frequentemente cobrados nas provas. Outro tipo de questão emergente nas avaliações do ENEM são textos comparando o conceito de Estado, poder e forma de governo, trazendo textos dos próprios autores clássicos ou de comentaristas e estudiosos dos clássicos.
Ética e Justiça: moral, virtude e dever nas perspectivas da Filosofia Antiga, de Immanuel Kant e do Utilitarismo. Kant, por exemplo, é um excelente referencial teórico para os temas de ética, justiça, como também quando discute sobre a maioridade do ser humano – para ele, o sujeito só torna-se autônomo quando entende seu papel de representatividade no mundo a partir das ações que podem ser tidas como modelos de comportamento por todas as pessoas.
Teoria do Conhecimento: Racionalismo, Empirismo, Filosofia Contemporânea e os limites da razão humana; e a disputa entre Descartes e Bacon – o ser humano é uma tábula rasa na qual a razão será construída ou as experiências são definidoras do conhecimento?
Existencialismo e Filosofia Moderna: reflexões sobre a condição humana, finitude, linguagem e crítica à modernidade em pensadores como Nietzsche e Sartre. Esse último, em especial, sempre merece destaque com os conceitos de ser-em-si e ser-para-si; e sua obra clássica, A Náusea, cuja discussão ainda se faz presente nos nossos dias.
Leite dá conselhos para um bom desempenho: “Familiarize-se com a linguagem dos textos filosóficos. Ao resolver questões anteriores, busque identificar a tese central do filósofo no texto de apoio e isole o conceito principal solicitado pelo enunciado.”
SOCIOLOGIA
Representada por cerca de 4 a 5 questões a cada edição, a Sociologia cobra o domínio de conceitos específicos para analisar fenômenos sociais, estrutura de poder e dinâmicas culturais da realidade brasileira e global.
Para João Gabriel Pelegrini, professor de Sociologia e Filosofia do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP), a disciplina exige articulação entre teoria e prática: “A Sociologia no Enem pede que o participante analise a realidade com distanciamento crítico. É preciso usar as teorias dos pensadores clássicos e contemporâneos para interpretar temas atuais como desigualdade social, diversidade, mundo do trabalho e os impactos da tecnologia na comunicação coletiva.”
João Gabriel lista os temas de Sociologia mais recorrentes no Enem:
Cultura e Identidade: diversidade cultural, patrimônio, etnocentrismo, alteridade e dinâmicas da cultura brasileira;
Trabalho e Organização Social: transformações no mundo do trabalho, relações de produção, informalidade, Taylorismo, Fordismo e reestruturação produtiva;
Estratificação e Desigualdade Social: relações de classe, raça, etnia, gênero e os mecanismos de exclusão e mobilidade social;
Poder, Estado e Movimentos Sociais: cidadania, direitos humanos, democracia, formas de controle social e a atuação dos movimentos sociais organizados.
Para gabaritar Sociologia, Pelegrini recomenda apropriar-se dos conceitos teóricos de autores clássicos e intérpretes do Brasil. “Além de fundamentais para responder às questões objetivas, essas teorias oferecem um excelente repertório sociocultural para ser utilizado na elaboração da redação”, finaliza.
O ENEM
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi instituído em 1998 e tornou-se a principal porta de entrada para a universidade no Brasil. A prova permite o acesso a programas públicos educacionais como o Prouni (Programa Universidade para Todos), Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e Fies (Fundo de Financiamento Estudantil); além de muitas universidades privadas, inclusive no exterior, usarem os resultados do exame em substituição aos vestibulares tradicionais.
O Enem é aplicado em dois domingos seguidos em locais de aplicação por todos as regiões do território nacional. Em 2026, as provas acontecem em 8 e 15 de novembro. Foram registrados para esta edição 5.055.818 de inscritos, alta de 5,08% em relação a 2025, e maior número de participantes confirmados desde 2020.
No primeiro dia, os candidatos farão as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (45 questões de Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira/Inglês ou Espanhol, Artes e Educação Física), Ciências Humanas e suas Tecnologias (45 questões de História, Geografia, Filosofia e Sociologia) e a Redação. No segundo dia, é a vez das provas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (45 questões de Biologia, Química e Física) e Matemática e suas Tecnologias (45 questões de Matemática).
Podem participar do Enem pessoas que estejam cursando (como “treineiros”), que já concluíram, ou que estejam concluindo o Ensino Médio. É possível ainda usar o resultado do Enem para obter o certificado de conclusão dos estudos, contanto que o participante tenha 18 anos completos na data da primeira prova, e alcançar ao menos 450 pontos em cada área do conhecimento e 500 pontos na redação.
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