
Rachel Genofre tinha apenas 9 anos quando foi morta em Curitiba, em 2008. O crime permaneceu sem solução por cerca de 11 anos, até que, em 2019, o Banco Nacional de Perfis Genéticos apontou uma coincidência entre o perfil genético obtido do vestígio preservado e o de um homem que já estava preso em São Paulo.
Para Karine Vieira de Castro Quadros, especialista em Ciências Forenses e perita criminal nos Estados Unidos, o caso ilustra não apenas o potencial das novas tecnologias na investigação de cold cases – casos que permanecem sem solução -, mas também a importância de preservar corretamente as evidências ao longo dos anos.
“O que pode parecer, no momento, um caso sem solução e sem respostas, pode se tornar justamente a peça que faltava para solucionar um crime anos depois, quando uma nova tecnologia estiver disponível”, afirma.
A especialista cita ainda o caso do Golden State Killer, que aconteceu entre 1970 e 1986, no qual o ex-policial Joseph DeAngelo foi responsável por homicídios, dezenas de estupros e roubos na Califórnia.
Sua identidade foi descoberta somente em 2018, após investigadores utilizarem genealogia genética investigativa para reconstruir uma árvore familiar e chegar a um possível suspeito, posteriormente confirmado por DNA.
Para Karine Quadros, casos como esses mostram que, muitas vezes, a evidência necessária já existe, mas a tecnologia disponível no momento do crime ainda não é capaz de extrair dela todas as respostas.
Entre os avanços que mais transformaram esse tipo de investigação está justamente a análise de DNA.
Atualmente, é possível obter informações de amostras muito pequenas ou degradadas que, no passado, poderiam ser consideradas inadequadas ou insuficientes para determinadas análises.
“Vale ressaltar que a tecnologia sozinha não resolve um caso. Ela tem que estar associada a uma boa investigação, interpretação científica adequada e uma revisão cuidadosa das evidências que foram preservadas durante décadas”, explica.
Quando o suspeito não está no banco criminal
A genealogia genética pode abrir outro caminho quando não há correspondência entre o perfil obtido da evidência e aqueles disponíveis em bancos criminais.
A partir de um perfil genético adequado e de marcadores utilizados para esse tipo de análise, informações podem ser comparadas com bases de dados de genealogia genética em busca de possíveis relações familiares.
Investigadores e genealogistas podem, então, reconstruir árvores familiares e eliminar pessoas que não correspondam a características conhecidas sobre o suspeito, como sexo, idade e localização.
Karine ressalta, porém, que o resultado funciona como pista investigativa.
“Não significa que a pessoa identificada automaticamente seja o autor do crime. A identificação precisa ser confirmada”, pontua.
A tecnologia depende da evidência
Em casos antigos, um dos maiores desafios é justamente a condição do material após décadas.
Dependendo de como foi coletado e armazenado, pode haver degradação, contaminação ou uma quantidade muito pequena de DNA disponível.
Além disso, uma mesma amostra pode ser suficiente para determinado exame e insuficiente para outra tecnologia.
Por isso, segundo Karine, preservar o máximo possível do material e escolher cuidadosamente a estratégia de análise são decisões fundamentais.
Além do DNA, avanços em análise de impressões digitais, reconstrução e comparação facial, imagens e vídeos, toxicologia e evidências digitais também permitem revisitar materiais coletados anos atrás com ferramentas que não existiam na época do crime.
O trabalho envolve integração entre polícia, laboratórios e, quando necessário, outras instituições capazes de realizar análises específicas.
Nesse processo, cadeia de custódia e documentação rigorosas são fundamentais para registrar todos os especialistas e instituições que tiveram contato com a evidência.
Para a perita criminal, é justamente aí que está uma das principais mensagens sobre o futuro dos cold cases: novas tecnologias ampliam as possibilidades de investigação, mas não substituem a qualidade do trabalho realizado desde a coleta.
“A tecnologia mais sofisticada do mundo continua dependendo da qualidade das evidências que chegaram ao laboratório”, conclui Karine Quadros.
