O que a saudade nos ensina sobre o amor? Neste dia, as lembranças de quem partiu nos convidam a valorizar os vínculos e cultivar os afetos enquanto há tempo

por Deborah Dubner
Já dizia a canção que “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi.” Sentir saudade não costuma ser fácil. Pode ser uma dor profunda ou discreta, nostálgica ou cortante. Está sempre conectada ao passado, à memória de algo precioso que perdemos e gostaríamos de preservar. A saudade também pode nos remeter a um sentimento de falta, de vazio, como um buraco que não sabemos como preencher. Algumas perdas deixam perguntas sem respostas, conversas interrompidas, conflitos não resolvidos. Outras provocam uma dor tão intensa que as boas lembranças demoram a encontrar espaço.
Não existe uma única maneira de viver o luto, nem um prazo determinado para deixar de sofrer. No entanto, a saudade tem outras camadas. Pode ser agridoce, oferecer conforto e uma sensação de proximidade com quem partiu. É também uma expressão do amor e dos momentos preciosos compartilhados. Quando uma pessoa querida parte, de certa forma, ela pode continuar até mais presente do que antes.
Para muitas pessoas, Finados é um dia de visitar cemitérios, levar flores, fazer orações ou simplesmente recordar pessoas queridas. Para outras, é uma data difícil, que desperta a dor da ausência. Cada pessoa encontra sua própria maneira de conviver com a saudade.
Sentimos falta da voz, do aconchego, do humor, da segurança que aquela pessoa transmitia. Sentimos falta do sorriso, das horas de conversa, da companhia insubstituível. Os gatilhos para a saudade podem ser muitos: uma música, um cheiro, uma foto, uma comida. Todos os sentidos acordam para uma lembrança. O corpo sabe. Por alguns instantes, o tempo encurta a distância entre o passado e o presente. A saudade faz a ponte entre a ausência e a presença.
Viver o amor
Eu tinha uma amiga muito querida, de 80 anos. Nós ríamos muito e eu aprendia com ela sobre envelhecer com sabedoria. Ela tinha uma família longeva e achava que viveria até os 100 anos. Um dia, ela recebeu um diagnóstico de câncer e o resultado não foi nada bom.
Nos seus últimos meses, eu tomei a decisão de visitá-la com frequência. Passava algumas tardes por semana em seu apartamento, conversando, tomando chá, ouvindo suas histórias e, muitas vezes, sofrendo ao ver sua dor. Uma vez, ela me perguntou por que eu ia tanto visitá-la. E eu respondi com clareza: “Porque é isso que quero fazer.”
O que eu fiz foi algo muito simples: eu escolhi aproveitar a sua companhia enquanto ela ainda estava aqui. Cada momento juntas, cada conversa, a convivência com suas filhas e netas, as histórias que eu não sabia. A intensidade emocional que vivi nesse período me surpreendeu. Quando ela partiu, apesar da saudade, eu estava nutrida desse amor. E esse sentimento permanece até hoje, muitos anos depois da sua partida.
A saudade também nos revela algo sobre a complexidade das emoções humanas. Podemos sentir tristeza pela ausência e, ao mesmo tempo, alegria ao recordar um momento vivido. Podemos chorar e sorrir diante da mesma lembrança. Podemos sentir falta de alguém e experimentar uma profunda gratidão por termos compartilhado parte da vida com essa pessoa. Não precisamos escolher entre a tristeza e a gratidão, entre a dor da perda e a alegria das lembranças. Há espaço para tudo isso na experiência humana.
Os vínculos humanos não são eternos, mas são preciosos. Neste Dia de Finados, podemos lembrar com carinho daqueles que já partiram, acolhendo a tristeza que sua ausência provoca. Mas também podemos olhar para as pessoas que continuam ao nosso lado e escolher cultivar o amor enquanto há tempo. Viver até morrer é o grande convite.
Deborah Dubner é psicóloga formada pela PUC-SP, escritora, palestrante TEDx e especialista em Psicologia Positiva, Neurociência e Ciência da Felicidade. Professora de pós-graduação da PUC Paraná nas áreas de Motivação e Resiliência, é autora de sete livros sobre autoconsciência, desenvolvimento humano e Psicologia. Também é coautora de Caminhando de mãos dadas à distância, escrito com uma amiga para contar a história de uma amizade de 40 anos que segue se reinventando. Desenvolve cursos, grupos e vivências presenciais e on-line que aproximam os conhecimentos da Psicologia da vida cotidiana, com foco no bem-estar e na construção de relações mais conscientes.
