Julio Luchmann aborda falsas certezas, técnicas de memorização e o papel da repetição na mudança de hábitos

Ter certeza de uma lembrança não garante que todos os seus detalhes estejam corretos. Uma conversa pode ganhar palavras que não foram ditas, uma história de família pode incorporar informações ao longo dos anos e duas pessoas podem sair do mesmo acontecimento com versões diferentes sobre o que viveram. A memória permite recuperar experiências, mas esse processo está sujeito a interferências. Compreender seu funcionamento ajuda a lidar com divergências e a repensar a maneira como aprendemos.
O professor de neurociência aplicada e especialista em fitoterapia Julio Cesar Luchmann participou do podcast “Achismos”, apresentado por Maurício Meirelles, onde explicou que as lembranças têm caráter reconstrutivo e que estratégias de associação podem ajudar na memorização. O especialista aproxima a neurociência de uma dificuldade cotidiana: distinguir aquilo que aconteceu da interpretação que construímos sobre o acontecimento.
Essa discussão encontra respaldo nas pesquisas sobre memória construtiva. Em artigo publicado na revista American Psychologist, Daniel Schacter, pesquisador da Universidade Harvard, analisa como mecanismos que permitem combinar informações e imaginar situações futuras também podem produzir distorções nas lembranças. A flexibilidade da memória participa de atividades como planejamento e resolução de problemas, embora abra espaço para confusões entre o que foi vivido e o que foi imaginado.
“A gente acha que o nosso cérebro é como se fosse uma câmera que vai gravando tudo. Na verdade, o nosso cérebro é um belo de um roteirista. Ele pega a história que ele está vendo, cria uma versão interessante para ele e aí registra”, explica Julio.
A imagem do roteirista ajuda a entender por que uma recordação pode preservar o sentido geral de uma experiência e, ainda assim, apresentar imprecisões. Lembrar de uma discussão, por exemplo, não significa recuperar uma transcrição fiel de cada frase. A pessoa pode se recordar de ter sido contrariada, mas ter dificuldade para separar as palavras efetivamente pronunciadas das conclusões que tirou naquele momento.
Essa distinção tem consequências nas relações pessoais e no trabalho. Quando versões entram em conflito, insistir apenas na própria certeza pode impedir uma apuração mais cuidadosa. Consultar uma mensagem, retomar um registro feito na ocasião ou perguntar o que a outra pessoa entendeu oferece referências adicionais para esclarecer a situação. Reconhecer os limites da lembrança permite revisar uma interpretação sem descartar toda a experiência vivida.
Julio também chama atenção para o modo como histórias são recontadas. Um relato familiar repetido em diferentes encontros pode incorporar detalhes e associações posteriores. Para quem ouve ou conta, distinguir a origem de cada informação nem sempre é simples. Por isso, a familiaridade com uma narrativa merece ser acompanhada de uma pergunta: o que foi observado diretamente e o que chegou por outros relatos?
O que uma lista de objetos revela sobre o aprendizado
Memorizar uma lista de objetos permite observar, na prática, a diferença entre receber informações e criar referências para recuperá-las. Uma das estratégias ensinadas por Julio consiste em associar números e palavras a imagens mentais inusitadas. Assim, cada elemento passa a ter uma pista que ajuda a localizá-lo na memória.
Um dos exemplos utilizados pelo professor consiste em imaginar uma aranha com um microfone em sua teia. A cena cria uma ligação entre a palavra usada como referência e o objeto que precisa ser lembrado. Ao construir outras associações, é possível organizar uma sequência de itens e recorrer às imagens para tentar recuperá-los em diferentes ordens.
A técnica evidencia uma diferença importante para quem estuda: ter contato com uma informação e conseguir recuperá-la depois são tarefas distintas. Um conteúdo pode parecer claro durante a explicação e, mais tarde, ser difícil de reconstruir sem ajuda. O exercício apresentado por Julio oferece pistas deliberadas para essa recuperação, em vez de deixar os elementos da lista desconectados.
Para experimentar a proposta, é possível começar com poucos itens e criar uma imagem específica para cada associação. Depois, tentar lembrar sem consultar o material e conferir o resultado. Em conteúdos mais complexos, a associação precisa respeitar o significado do que está sendo aprendido. Uma imagem pode ajudar a lembrar um termo, mas compreender um conceito também exige reconhecer suas relações e saber explicá-lo.
“Quando precisamos memorizar uma informação, podemos criar caminhos para encontrá-la depois. Associar uma palavra a uma imagem ou relacionar um conteúdo novo a algo que já conhecemos ajuda a construir essas referências. Na hora de estudar, vale tentar explicar o assunto sem olhar o material e perceber onde ainda existem lacunas. Isso permite direcionar melhor a prática e trabalhar aquilo que ainda precisa ser compreendido”, explica Julio.
O valor desse recurso está em oferecer uma estratégia que pode ser praticada e ajustada conforme a tarefa. Ao conferir quais itens foram recuperados e quais ficaram de fora, o estudante consegue identificar associações que precisam ser revistas. O desempenho em uma atividade específica, porém, não equivale a uma avaliação da capacidade geral de memória.
Mudar hábitos exige mais do que contar os dias
A mesma atenção ao processo se aplica à mudança de hábitos. Julio questiona a promessa de que 21 dias seriam suficientes para tornar qualquer comportamento automático. A expectativa de uma mudança com prazo definido pode ser atraente, mas ignora diferenças entre as pessoas e entre as atividades que elas procuram incorporar à rotina.
Um estudo de Phillippa Lally e colaboradores, publicado no European Journal of Social Psychology, acompanhou a repetição de comportamentos cotidianos e encontrou ampla variação nas estimativas de tempo para se aproximar do nível máximo de automaticidade: de 18 a 254 dias. Esses números descrevem a variação observada no modelo do estudo, sem estabelecer um prazo obrigatório para a formação de qualquer hábito.
Para o leitor, a questão prática é avaliar como o comportamento será repetido. “Ler mais” expressa uma intenção, mas ainda deixa indefinidos o momento e as condições para começar. Reservar alguns minutos após uma atividade recorrente e manter o livro acessível torna a proposta mais concreta. O mesmo raciocínio pode orientar a organização de uma rotina de estudo: escolher o conteúdo, definir quando retomá-lo e observar quais obstáculos dificultam a continuidade.
Essa perspectiva também permite interpretar o esforço com mais cuidado. Precisar se lembrar de realizar uma atividade após algumas semanas não significa, por si só, que a tentativa fracassou. O comportamento pode continuar exigindo atenção, e sua incorporação depende das condições em que é praticado. Ajustar uma meta à rotina real oferece uma base mais útil do que cobrar uma mudança automática em uma data predeterminada.
“Para mudar um hábito, precisamos olhar para as condições em que aquele comportamento acontece. Se a intenção é estudar com mais frequência, por exemplo, é preciso reservar um momento possível e organizar o ambiente para essa atividade. A repetição precisa encontrar espaço na vida real. Quando a pessoa entende isso, consegue ajustar a rotina e acompanhar o próprio progresso sem depender da expectativa de que tudo se tornará automático em poucos dias”, afirma o professor.
Compreender esses mecanismos amplia as possibilidades de agir sobre o próprio aprendizado. Conferir uma certeza antes de defendê-la pode esclarecer um conflito. Organizar referências para um conteúdo facilita a tarefa de retomá-lo, enquanto criar condições para repetir uma atividade torna uma intenção mais concreta. A aplicação desse conhecimento alcança situações comuns em casa, nos estudos e no trabalho.
Esses temas estão entre os assuntos abordados por Julio no episódio #440 do Achismos, com Maurício Meirelles. O professor também compartilha conteúdos em seu canal no YouTube e no Instagram.
Sobre Julio Cesar Luchmann
Julio Cesar Luchmann é professor, pesquisador, escritor e empreendedor, com atuação em naturopatia, óleos essenciais e saúde intestinal. Graduado em Filosofia e Nutrição, é mestre em Educação pela PUC-PR e reúne especializações em fitoterapia, nutrição clínica e funcional, além de modulação intestinal. Fundador da FitoEssência, desenvolve conteúdos educativos sobre recursos naturais e hábitos de saúde, aproximando temas técnicos do cotidiano por meio de aulas, publicações e canais digitais.
