
Nos últimos anos, novas tecnologias ampliaram os recursos disponíveis para a perícia criminal, desde análises de DNA em amostras muito pequenas ou degradadas até a preservação digital de cenas de crime por meio de tecnologias 3D. Entretanto, a perita criminal nos Estados Unidos, Karine Vieira de Castro Quadros, alerta que não basta contar somente com ferramentas mais avançadas: é necessário combiná-las com método científico, interpretação das evidências e pensamento crítico.
Especialista em Ciências Forenses com concentração em Biologia Molecular Forense, Karine Quadros aponta a análise de DNA como um dos principais avanços. “Atualmente, é possível analisar amostras muito pequenas e até degradadas graças à alta sensibilidade das técnicas disponíveis. Isso exige mais cuidado com a manipulação das evidências por conta do risco de contaminação”, explica.
Scanners 3D, fotografias de alta resolução, drones e sistemas de mapeamento também vêm ampliando as possibilidades de documentação das cenas de crime. Segundo a especialista, a tecnologia 3D é particularmente interessante, porque permite preservar digitalmente uma cena e voltar a analisá-la posteriormente como se o profissional estivesse novamente no local. A Inteligência Artificial também pode auxiliar na análise de grandes volumes de imagens e vídeos, comparação de padrões, organização de dados e avaliação de documentos e informações digitais, embora sua adoção varie entre as agências. Karine ressalta, porém, que qualquer resultado produzido por IA precisa ser verificável, analisado por um profissional e interpretado dentro do contexto do caso. Outro ponto de atenção envolve a proteção das informações sensíveis utilizadas por essas ferramentas, diante dos riscos relacionados ao armazenamento, vazamento ou corrupção dos dados.
Os rastros digitais deixados por celulares, relógios inteligentes e veículos conectados também ganharam importância nas investigações. Compará-los a uma espécie de nova “impressão digital” faz sentido até certo ponto, segundo a especialista. Enquanto uma impressão digital possui características únicas e específicas, os rastros digitais variam conforme o dispositivo, aplicativo e a maneira como as informações foram registradas. Um celular pode fornecer dados de localização, mensagens, fotografias e histórico de chamadas, enquanto relógios inteligentes podem registrar atividades e localização, e veículos podem armazenar informações relacionadas ao funcionamento e uso do carro. “O grande valor está na análise do conjunto desses vestígios. Muitas vezes, uma informação isolada não significa muito, mas várias fontes ajudam a construir o quebra-cabeça e uma sequência de acontecimentos”, explica.
O avanço tecnológico também traz o risco de criar uma falsa sensação de certeza. “O fato de uma tecnologia conseguir produzir um resultado não significa automaticamente que aquele resultado seja suficiente para sustentar uma determinada conclusão”, afirma Karine Quadros. Para diferenciar um resultado tecnicamente possível de uma conclusão cientificamente segura, o perito precisa considerar a qualidade da amostra, as limitações do método, possíveis explicações alternativas e o contexto em que a evidência foi encontrada. Segundo ela, reconhecer essas limitações não enfraquece o trabalho pericial, mas faz parte de uma análise tecnicamente responsável.

Outro desafio crescente está nos conteúdos artificialmente criados ou manipulados de maneira cada vez mais convincente, como as deepfakes. Se antes uma das principais preocupações relacionadas às evidências digitais era saber se determinado arquivo havia sido alterado ou preservado corretamente, agora também é necessário considerar a possibilidade de o próprio conteúdo ter sido artificialmente produzido. Por esse motivo, um vídeo ou uma gravação não pode ser considerada automaticamente autêntica apenas por estar registrada. A perícia digital tende a depender cada vez mais da análise de metadados, origem dos arquivos, cadeia de custódia, características técnicas e outras informações capazes de auxiliar na avaliação de autenticidade.
Para os próximos anos, Karine Quadros acredita que ferramentas de IA para grandes conjuntos de dados, a combinação de imagens 3D com realidade virtual e aumentada e a integração de diferentes fontes de evidência digital poderão ganhar espaço na reconstrução de acontecimentos. Antes de entrarem definitivamente na rotina pericial, porém, essas tecnologias precisam avançar e, principalmente, passar por validação científica.
“A tecnologia pode auxiliar no registro de uma cena com uma precisão impressionante, analisar milhões de dados e encontrar padrões que seriam difíceis para uma pessoa identificar. Mas alguém ainda precisa formular as perguntas certas e entender o significado daquele resultado dentro do caso”, pontua. “Não vejo a tecnologia como substituta do perito, mas como uma importante ferramenta que poderá tornar o trabalho mais preciso e eficiente. A responsabilidade pela interpretação científica da evidência continua sendo humana”, completa.
Para a especialista, tão importante quanto compreender o que uma nova tecnologia consegue fazer é conhecer aquilo que ela não consegue. Ferramentas sofisticadas ainda precisam ser validadas, ter suas limitações conhecidas e ser utilizadas dentro de protocolos adequados. “De nada adianta utilizar a tecnologia mais avançada se você não sabe exatamente como ela funciona. É preciso utilizá-la da maneira mais adequada para responder às perguntas que a evidência realmente permite responder”, conclui Karine Quadros.
