Pular para o conteúdo

Um paciente, diagnósticos diferentes: por que ainda é tão difícil diagnosticar transtornos psiquiátricos?

Estudo brasileiro aponta sub-reconhecimento do transtorno bipolar na atenção primária e especialista alerta para os desafios de diferenciar sintomas e identificar corretamente as condições psiquiátricas

Mãos segurando caneta e escrevendo em prancheta; ao fundo pessoa sentada desfocada

Uma pessoa procura atendimento médico por apresentar tristeza persistente, ansiedade, alterações no sono ou mudanças de comportamento. Recebe uma hipótese diagnóstica e inicia um tratamento. Meses ou anos depois, com a evolução dos sintomas ou o surgimento de novas informações sobre seu histórico, o diagnóstico pode ser revisto. Na psiquiatria, chegar a uma conclusão diagnóstica nem sempre é simples — e o mesmo paciente pode receber interpretações diferentes ao longo do tempo.

Um estudo realizado no Brasil com 720 pacientes atendidos em três centros de atenção primária ajuda a dimensionar esse desafio. Os pesquisadores identificaram resultado positivo para transtorno bipolar em 7,6% dos participantes por meio de um instrumento de rastreamento. No entanto, apenas dois dos pacientes identificados dessa forma haviam sido reconhecidos como portadores do transtorno pelos médicos generalistas. O trabalho apontou o sub-reconhecimento do transtorno bipolar na atenção primária brasileira.

O dado chama atenção para uma questão que vai além do diagnóstico de bipolaridade: como diferenciar transtornos que podem apresentar sintomas semelhantes e reconhecer uma condição quando ela ainda não se manifesta de maneira claramente identificável?

Para Nassir Ghaemi, psiquiatra, pesquisador e especialista em psicofarmacologia, parte da dificuldade está nas características do próprio diagnóstico psiquiátrico. Ao contrário de muitas áreas da medicina, nas quais exames laboratoriais ou de imagem podem contribuir diretamente para confirmar uma doença, a psiquiatria depende em grande medida da história do paciente, da observação dos sintomas e da evolução do quadro.

“Na psiquiatria, um sintoma isolado raramente é suficiente para estabelecer um diagnóstico. É preciso entender sua duração, intensidade, contexto e evolução, além de observar como ele se relaciona com os demais sintomas. Pessoas diferentes podem apresentar manifestações semelhantes e ter condições distintas”, explica Ghaemi.

Essa complexidade também ajuda a entender por que um diagnóstico pode ser revisto ao longo do tempo. Uma pessoa inicialmente avaliada durante um episódio depressivo, por exemplo, pode apresentar posteriormente manifestações que levem o profissional a considerar outra hipótese diagnóstica.

A discussão ganha relevância em um momento de maior atenção à saúde mental no Brasil.

Para Ghaemi, porém, ampliar o diagnóstico não significa necessariamente apenas identificar mais pessoas. Também é preciso discutir a qualidade e a validade das categorias utilizadas para classificar os transtornos psiquiátricos.

“Um diagnóstico psiquiátrico não deveria ser apenas o nome dado a um conjunto de sintomas. Precisamos saber se estamos identificando uma doença real, se conseguimos diferenciá-la de outras condições e se essa classificação ajuda de fato o paciente. Quando confundimos sintomas com doenças, podemos criar categorias que parecem precisas, mas que não necessariamente representam o que está acontecendo com aquela pessoa”, resume Nassir Ghaemi.

 

Feed principal

Últimas notícias

Carregando mais notícias…