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Quem paga a conta quando o governo se endivida?

Com inflação pressionando o orçamento e incertezas fiscais para 2027, especialista explica como dólar, Bitcoin e outras alternativas podem ajudar a diversificar o patrimônio e preservar o poder de compra

Pessoa calculando despesas com calculadora, folhas, cédulas em reais, moedas e laptop com gráfico

A dívida pública pode parecer um problema distante da rotina dos brasileiros, mas seus efeitos podem chegar diretamente ao bolso. Quando aumentam as preocupações com as contas do governo, juros, câmbio e expectativas de inflação podem ser afetados, comprometendo o poder de compra e o desempenho dos investimentos.

O impacto não se limita aos grandes patrimônios. Trabalhadores assalariados, famílias de classe média e empresários também podem sentir as consequências, especialmente quando a renda não acompanha a alta dos preços.

Segundo Julio Carelli, CSO e cofundador da Formadores de Mercado, a principal preocupação deve ser a preservação do valor real do dinheiro. “Muita gente olha apenas para quanto tem guardado, mas esquece de avaliar o que esse dinheiro consegue comprar. Se o patrimônio cresce menos que a inflação, existe uma perda de poder de compra, mesmo que o saldo da conta esteja aumentando. É por isso que acompanhar a economia e diversificar os investimentos deixou de ser uma preocupação exclusiva de quem possui grandes fortunas”, explica.

Os dados mostram a importância dessa discussão. Segundo o Tesouro Nacional, o Governo Central acumulou déficit primário de R$94,9 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, diante de R$ 85,9 bilhões no mesmo período de 2025. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a inflação oficial avançou 0,82% em setembro, acumulando 4,58% em 12 meses. Embora a inflação não seja determinada exclusivamente pelas contas públicas, uma deterioração fiscal persistente pode aumentar a pressão sobre juros, câmbio e expectativas de preços.

Como saber se o patrimônio está perdendo valor?

O primeiro sinal é a diferença entre o crescimento da renda ou dos investimentos e a inflação. Quando o custo de vida aumenta mais rapidamente que o salário, a família perde capacidade de consumo. Para a classe média, o efeito também aparece no encarecimento do crédito, nas parcelas de financiamentos e na dificuldade de manter a poupança.

Entre empresários e investidores de maior patrimônio, os riscos incluem a desvalorização de determinados ativos, o aumento do custo de financiamento e a concentração de recursos na economia brasileira. Uma pessoa pode possuir imóveis, empresas e aplicações diferentes e, ainda assim, estar sujeita aos mesmos fatores econômicos.

O comportamento da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), as expectativas de inflação, os juros de longo prazo e a cotação do dólar são alguns dos indicadores que merecem atenção. Nenhum deles, isoladamente, determina uma crise, mas sua evolução conjunta ajuda a identificar mudanças nas condições econômicas.

“Não precisamos esperar uma crise para perceber que o dinheiro está perdendo valor. Se as despesas aumentam mais rápido que a renda, se os investimentos não conseguem superar a inflação ou se todo o patrimônio depende da mesma economia, já existem motivos para rever o planejamento”, alerta Carelli.

Dólar, Bitcoin e DeFi podem ajudar na diversificação?

Entre as alternativas para reduzir a concentração patrimonial no Brasil estão investimentos internacionais, exposição ao dólar, Bitcoin e soluções de finanças descentralizadas, conhecidas como DeFi. Esses instrumentos ocupam posições importantes na estratégia defendida pela Formadores de Mercado, mas possuem funções e riscos diferentes.

O dólar pode ajudar a diversificar a exposição cambial e reduzir a dependência exclusiva do real. Entretanto, comprar moeda estrangeira não garante rentabilidade nem proteção integral contra a inflação. O investidor também pode avaliar ativos internacionais que ofereçam exposição a empresas e economias de outros países.

O Bitcoin, por sua vez, funciona em uma rede descentralizada e possui uma oferta máxima estabelecida em seu protocolo. Essas características permitem considerá-lo em estratégias de diversificação de longo prazo, embora sua volatilidade possa provocar perdas expressivas, inclusive durante períodos de instabilidade econômica.

As soluções em DeFi utilizam a tecnologia blockchain para oferecer serviços financeiros como empréstimos, trocas de ativos e outras operações sem a intermediação bancária tradicional. Elas podem ampliar as possibilidades de gestão de ativos digitais, mas envolvem riscos de falhas tecnológicas, perda de recursos, liquidez e custódia.

“Não se trata de trocar todos os investimentos tradicionais por dólar ou Bitcoin. O objetivo é construir uma estratégia em que diferentes ativos cumpram funções complementares. O dólar pode reduzir a concentração cambial, o Bitcoin oferece uma exposição fora do sistema monetário tradicional e as soluções em DeFi abrem possibilidades de utilização do patrimônio digital. Mas cada escolha precisa respeitar o perfil e a capacidade de risco do investidor”, explica Carelli.

O que fazer agora para proteger o dinheiro em 2027?

A preparação começa pela organização financeira. Para quem recebe salário e ainda não possui investimentos, reduzir dívidas caras, controlar despesas e formar uma reserva de emergência são medidas prioritárias. Essa reserva deve permanecer em aplicações de baixo risco e fácil acesso, sem exposição à volatilidade de ativos como Bitcoin.

Quem já possui recursos investidos pode avaliar se a rentabilidade supera a inflação depois dos impostos e custos. Também é importante verificar se o patrimônio está excessivamente concentrado em uma moeda, empresa, setor ou país.

Investidores com maior capacidade financeira podem estudar uma diversificação gradual, incluindo aplicações ligadas à inflação, investimentos internacionais, dólar e uma eventual parcela em ativos digitais. A escolha deve considerar objetivos, prazos, liquidez, tributação e riscos de perda. No caso de DeFi, é necessário compreender os protocolos e seus mecanismos de segurança antes de realizar operações.

O planejamento para 2027 ganha relevância diante das expectativas econômicas. Segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 13 de outubro de 2026, o mercado projetava inflação de 4,3% e taxa Selic de 12% ao ano para o fim de 2027. São estimativas sujeitas a mudanças e não representam uma previsão de crise.

Para Carelli, a principal decisão é não deixar a proteção patrimonial para quando as dificuldades aparecerem. “Quem ganha um salário precisa cuidar do poder de compra. Quem tem uma empresa precisa proteger o capital construído. E quem já acumulou patrimônio precisa evitar que toda a riqueza fique exposta aos mesmos riscos. O planejamento deve começar agora, com diversificação, liquidez e conhecimento sobre os investimentos, para que 2027 não dependa de uma única aposta econômica”, conclui.

Sobre Julio Carelli

Julio Carelli é CSO e cofundador da Formadores de Mercado. Graduado em Engenharia Civil, atua no desenvolvimento de estratégias voltadas a investimentos em criptoativos, diversificação e proteção patrimonial, com atenção à preservação do poder de compra e à autonomia do investidor sobre os próprios ativos. Seu trabalho também envolve a estruturação de estratégias para investidores que buscam exposição ao mercado de ativos digitais sem abrir mão da autocustódia.

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Sobre a Formadores de Mercado

A Formadores de Mercado é uma empresa especializada em análise e estruturação de estratégias de investimentos, com atuação em temas como macroeconomia, geopolítica, mercado internacional e ativos digitais. A companhia desenvolve estratégias voltadas à diversificação e à gestão patrimonial, sem realizar a custódia dos recursos dos clientes. Seu trabalho é baseado em análises técnicas que combinam fundamentos econômicos, comportamento de mercado e leitura de diferentes classes de ativos.

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