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Se a IA consegue recriar um software, por que ainda pagar pelo original?

Por Thiago R. de Souza

Homem sorridente com os braços cruzados, usando camisa azul escura, persianas brancas atrás e planta ao fundo

A inteligência artificial está reduzindo uma das principais barreiras da indústria de software: a dificuldade de desenvolver programas complexos. Ferramentas capazes de analisar sistemas e reproduzir funcionalidades por meio de engenharia reversa ou reconstrução de comportamento levantam uma questão que vai além da tecnologia: se um programa comercial pode ser recriado por uma IA, o que justifica continuar pagando pelo original?

Durante décadas, parte do mercado se apoiou na proteção do código-fonte, conjunto de instruções desenvolvido por profissionais e mantido sob controle das empresas. Em softwares de código fechado, como Windows e Photoshop, o usuário recebe o programa pronto, mas não tem acesso à sua estrutura interna. Já nos sistemas de código aberto, como Linux, Firefox e PostgreSQL, o código pode ser consultado, modificado e, conforme a licença, redistribuído. Isso, porém, não significa que o software seja necessariamente gratuito ou que não existam regras para sua utilização.

Com os avanços da IA, a reprodução de funcionalidades ganhou novas possibilidades, e uma delas é a engenharia reversa tradicional, na qual arquivos executáveis são analisados e descompilados para compreender seu funcionamento. A inteligência artificial acelera esse processo ao facilitar a interpretação de códigos de máquina, tarefa que antes poderia exigir semanas de trabalho especializado. Outra possibilidade é a reconstrução por comportamento, na qual são observados elementos como telas, entradas e saídas, documentação e interfaces de comunicação entre sistemas (APIs). A partir dessas informações, a IA pode auxiliar no desenvolvimento de um novo programa com funcionalidades semelhantes, sem necessariamente acessar o código-fonte original.

Essa capacidade, entretanto, ainda encontra limitações importantes, já que em sistemas complexos, como ERPs (softwares de gestão empresarial) e programas de engenharia, a IA pode reproduzir interfaces e parte significativa da lógica, mas enfrenta dificuldades nos detalhes que garantem a confiabilidade da operação. Além disso, existem restrições jurídicas relacionadas a licenças, direitos de propriedade intelectual e patentes, que precisam ser consideradas independentemente de quem desenvolveu o novo código.

O valor de um software vai além do código

Embora a IA facilite a criação de programas, o valor de um software não está apenas em seu código-fonte. Suporte técnico, correção de vulnerabilidades, estabilidade, compatibilidade com outros sistemas, integrações e certificações exigidas por setores regulados também fazem parte do produto. O modelo da Red Hat ilustra essa lógica. Mesmo trabalhando com tecnologias de código aberto, a empresa comercializa assinaturas e serviços pelos quais organizações pagam em busca de suporte, previsibilidade e responsabilidade operacional.

Isso também explica por que um software recriado por IA, ainda que apresente funcionalidades semelhantes às do original, pode representar riscos para quem o utiliza. Sem auditoria adequada, o sistema pode conter vulnerabilidades desconhecidas e não contar com uma estrutura responsável por corrigi-las. Há ainda riscos jurídicos caso sejam identificadas violações de direitos de propriedade intelectual. Segundo o relatório GenAI Code Security, da Veracode, mais de 100 modelos testados apresentaram inseguranças em 45% do código gerado por IA, e a atualização de 2026 mostrou que o número praticamente não melhorou.

A confiabilidade é outro ponto crítico, pois mesmo que um programa reproduza quase integralmente o comportamento do original, pequenas diferenças podem provocar falhas em cálculos fiscais, processamento de arquivos ou situações excepcionais. A ausência de manutenção também pode comprometer seu funcionamento após atualizações de sistemas operacionais.

No ambiente corporativo, esses problemas ganham proporções maiores, especialmente diante de exigências de segurança, auditoria, conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e certificações setoriais.

Uma indústria em transformação

O avanço da IA não significa necessariamente o fim da indústria de software, mas coloca em risco modelos de negócio cujo principal diferencial é a dificuldade de desenvolver determinadas funcionalidades. Ferramentas simples, aplicações de nicho e serviços por assinatura que oferecem poucos recursos exclusivos estão mais expostas à concorrência de soluções recriadas internamente pelas empresas.

Por outro lado, fabricantes que oferecem serviços gerenciados, suporte especializado, hospedagem ou versões corporativas com recursos adicionais podem continuar gerando receita, mesmo em modelos baseados em código aberto. Nesse cenário, o valor deixa de estar concentrado na exclusividade do código e passa a depender cada vez mais de dados, integração, distribuição, confiança e capacidade operacional.

A transformação também alcança os profissionais de tecnologia. Atividades repetitivas de programação tendem a perder valor relativo, enquanto competências relacionadas à arquitetura de sistemas, segurança, infraestrutura, análise crítica e compreensão das necessidades do negócio ganham importância.

Por isso, a indústria não deveria questionar se a IA consegue copiar um programa, mas por que alguém continuaria pagando pelo original. Se a única resposta for a dificuldade de reproduzir seu código, o modelo de negócio já enfrenta um problema. Afinal, economizar em licenças pode parecer vantajoso no primeiro momento, mas ficar sem suporte ou enfrentar uma falha em um sistema crítico pode custar muito mais. Ou seja, o verdadeiro diferencial competitivo tende a estar menos ligado à capacidade de escrever código e mais na garantia de que ele funcione e seja seguro.

Para encerrar, deixo um importante questionamento para as organizações: a inteligência artificial está ameaçando a indústria de software ou apenas obrigando as empresas a repensarem o que vendem?

Thiago R. de Souza é Senior Cloud/DevOps Engineer com mais de nove anos de experiência em infraestrutura corporativa, AWS Community Builder e detentor de múltiplas certificações AWS nos níveis Professional e Specialty.

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