Apresentado na sessão plenária da ASCO 2026, o estudo RASolute-302 mostrou resultados que podem redefinir o tratamento de pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratado e reforçou o potencial terapêutico da família RAS, um alvo molecular presente também em tumores de pulmão, colorretal e outros cânceres

Mais de 35 mil profissionais de saúde e pesquisadores participaram da edição de 2026 da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada entre os dias 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos. Considerado o principal congresso de oncologia clínica do mundo, o encontro reuniu mais de 8.700 resumos científicos e apresentou resultados que devem influenciar a prática médica nos próximos anos.
Na avaliação do urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e da Medicina Genômica da BP, a principal mensagem da ASCO 2026 foi o avanço de uma Oncologia cada vez mais orientada pela biologia dos tumores, pela medicina de precisão e pela participação ativa dos pacientes nas decisões sobre seus tratamentos.
Entre os trabalhos apresentados na sessão plenária, reservada aos estudos considerados mais capazes de modificar a prática clínica, um dos destaques foi o RASolute-302. O estudo avaliou o daraxonrasibe, um inibidor oral da família RAS administrado uma vez ao dia, em pacientes com adenocarcinoma ductal de pâncreas metastático previamente tratado. O trabalho mostrou redução de 60% no risco de morte em comparação com a quimioterapia e aumento da sobrevida dos pacientes de 6,7 para 13,2 meses.
O resultado chama atenção não apenas pelos números observados em uma das neoplasias mais agressivas da oncologia, mas também pelo alvo molecular envolvido. Durante décadas, as alterações da família RAS foram consideradas praticamente impossíveis de serem bloqueadas por medicamentos. Por isso, o impacto do estudo vai além do câncer de pâncreas. “É a primeira terapia-alvo oral com benefício robusto em uma doença tão agressiva como o câncer de pâncreas. Tão importante quanto dobrar a sobrevida na população do estudo é o fato de uma terapia funcionar em um alvo antes ‘indrogável’ e que está fortemente presente em outros tipos de câncer”, afirma Gustavo Guimarães.
A relevância dessa observação está no fato de que alterações envolvendo a família RAS também são encontradas em tumores colorretais, pulmonares e de vias biliares, entre outros. Embora o estudo tenha sido realizado exclusivamente em pacientes com câncer de pâncreas, seus resultados fortalecem a estratégia de desenvolver medicamentos capazes de atuar em diferentes tumores que compartilham a mesma alteração molecular.
Os estudos que podem mudar a prática clínica – Se o RASolute-302 representou a validação de um alvo considerado durante décadas inalcançável, outros estudos apresentados na plenária apontaram para uma tendência complementar: tratar mais quem realmente precisa e evitar tratamentos desnecessários quando não há benefício esperado.
Essa lógica ficou evidente no estudo OPTIMA, realizado com 4.429 pacientes com câncer de mama inicial, receptor hormonal positivo e HER2-negativo. O trabalho utilizou o teste genômico Prosigna, baseado na análise da expressão de 50 genes, para auxiliar a decisão sobre a necessidade ou não de quimioterapia. Os resultados mostraram que cerca de 68% das pacientes apresentavam baixo risco genômico e puderam receber apenas hormonioterapia, mantendo taxas de sobrevida livre de recorrência em cinco anos semelhantes às observadas entre aquelas tratadas com quimioterapia.
Para Gustavo Guimarães, o principal mérito do estudo está justamente na capacidade de evitar tratamentos potencialmente tóxicos em pacientes que não devem se beneficiar deles. “O teste genômico pode desintensificar com segurança o tratamento mesmo em pacientes tradicionalmente encaminhadas à quimioterapia, evitando que sejam expostas à toxicidade de uma terapia que, para o perfil delas, não seria eficaz”, diz.
Segundo o especialista, trabalhos como o OPTIMA refletem uma mudança importante na forma como as decisões terapêuticas são tomadas. Em vez de seguir apenas critérios clínicos tradicionais, a oncologia passa a incorporar cada vez mais informações biológicas do tumor para personalizar o tratamento. “Dizer a uma paciente que ela pode evitar a quimioterapia com segurança transforma uma conduta antes imposta em uma decisão genuinamente compartilhada, sustentada por evidência”, afirma.
No câncer de pulmão, outro destaque foi o estudo LIBRETTO-432. O trabalho avaliou o uso adjuvante do selpercatinibe em pacientes submetidos à cirurgia para câncer de pulmão de não pequenas células com fusão de RET. Os resultados mostraram redução de aproximadamente 83% no risco de recorrência ou morte em comparação com placebo.
Na mesma área, o estudo HARMONi-6 apresentou resultados positivos com o ivonescimabe em pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado, ampliando as possibilidades terapêuticas baseadas em imunoterapia. “É mais um importante trabalho que reforça o teste de biomarcadores, oferecido de forma abrangente, mesmo em doença inicial e amplia o arsenal de imunoterapia de nova geração”, afirma Gustavo Guimarães.
Também na sessão plenária, o estudo PROTEUS avaliou a inclusão da apalutamida ao tratamento hormonal realizado antes e depois da cirurgia para retirada da próstata em pacientes com tumores localizados de alto risco, ou seja, ainda restritos à região da próstata, mas com maior risco de retorno ou disseminação da doença. Os resultados mostraram aumento das respostas ao tratamento e redução do risco de surgimento de metástases ou morte. Já o estudo SARC041 trouxe uma nova opção para pacientes com lipossarcoma desdiferenciado, um tipo raro de câncer dos tecidos moles que historicamente conta com poucas alternativas terapêuticas, demonstrando benefício com o uso do medicamento abemaciclibe.
“Os trabalhos apresentados reforçam uma tendência cada vez mais presente na oncologia que é a de oferecer tratamentos mais intensivos quando há evidências consistentes de benefício e, ao mesmo tempo, evitar terapias desnecessárias em pacientes que provavelmente não terão ganho relevante com elas”, analisa Guimarães.
A oncologia guiada pela biologia do tumor – Além dos resultados específicos de cada estudo, a ASCO 2026 consolidou tendências que vêm se fortalecendo nos últimos anos. Entre elas está a transição de uma Oncologia baseada predominantemente no órgão de origem do tumor para uma abordagem cada vez mais orientada pelas características biológicas da doença. A ASCO mostra que os testes genômicos, perfilagem molecular e biomarcadores tornam-se ferramentas centrais para definir estratégias terapêuticas.
Os estudos apresentados mostraram que decisões sobre uso de quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia dependem cada vez mais da identificação de alterações específicas presentes no tumor. Essa mudança permite direcionar tratamentos para pacientes com maior probabilidade de benefício e reduzir a exposição a toxicidades desnecessárias.
Outra tendência destacada ao longo do congresso foi a expansão de terapias-alvo e imunoterapias para fases mais precoces da doença. Medicamentos inicialmente utilizados em cenários avançados passam a ser avaliados antes da cirurgia ou após procedimentos com intenção curativa, com o objetivo de aumentar as chances de controle prolongado e, potencialmente, de cura. Também ganharam espaço discussões sobre inteligência artificial, patologia digital, análise de grandes bases de dados e perfilagem multiômica, tecnologias que vêm sendo incorporadas gradualmente aos processos de diagnóstico, estratificação de risco e planejamento terapêutico.
A questão da equidade no acesso à inovação também apareceu de forma recorrente nas discussões da ASCO. Especialistas debateram estratégias para ampliar o acesso a diagnósticos de precisão e novas terapias em países de média e baixa renda, além dos desafios relacionados à formação de profissionais e ao aumento da incidência de câncer em populações mais jovens.
O paciente no centro da decisão – Se a medicina de precisão foi um dos principais temas científicos da ASCO 2026, a participação dos pacientes nas decisões terapêuticas também foi um dos temas centrais do congresso sob a perspectiva assistencial. “Mais do que um conjunto de resultados, a ASCO 2026 reforçou que a decisão terapêutica tende a ser cada vez mais compartilhada, com o paciente como participante ativo e não apenas receptor do tratamento”, afirma Gustavo Guimarães.
Ainda segundo o especialista, essa mudança pode ser observada em diferentes frentes. Uma delas é o fortalecimento de iniciativas de advocacy e participação de pacientes dentro do próprio congresso. Outra é a crescente valorização de desfechos relacionados à qualidade de vida e à tolerabilidade dos tratamentos. A discussão, complementa Guimarães, parte do reconhecimento de que os objetivos dos médicos nem sempre são idênticos aos objetivos dos pacientes. Enquanto o profissional pode priorizar ganhos de sobrevida, muitas pessoas valorizam igualmente aspectos relacionados ao bem-estar, à autonomia e à capacidade de manter suas atividades cotidianas. Nesse contexto, compreender preferências individuais, condições clínicas associadas e expectativas pessoais passa a ser parte fundamental da construção das estratégias terapêuticas.
Outro tema debatido durante o encontro foi a importância da comunicação aberta entre pacientes e equipes de saúde. Especialistas destacaram que alguns pacientes deixam de relatar sintomas por receio de interromper tratamentos ou perder acesso a determinadas terapias, o que pode comprometer o cuidado. Na avaliação de Gustavo Guimarães, que esteve presente na ASCO, a mensagem final do evento é que a inovação em oncologia não está apenas no desenvolvimento de novos medicamentos, mas também na forma como as decisões são tomadas. Para ele, os resultados apresentados em Chicago mostram que a oncologia caminha para um modelo em que a compreensão da biologia do tumor, o uso racional das tecnologias disponíveis e a participação ativa dos pacientes se tornam elementos inseparáveis.
Sobre o IUCR
O Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR, criado em 2013, é especializado na prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação do paciente com câncer. A equipe médica é formada por profissionais altamente especializados em uro-oncologia, cirurgia oncológica e oncologia clínica, sob a liderança do cirurgião oncológico Dr. Gustavo Guimarães, que possui mais de 20 anos de atuação e dedicação à assistência do paciente, ao ensino e à pesquisa científica nessa área. Guimarães desenvolveu ampla experiência em tecnologias e procedimentos minimamente invasivos como cirurgia laparoscópica, ultrassom focalizado de alta intensidade-HIFU e cirurgia robótica, tendo desenvolvido um consistente Programa de Consultoria e Capacitação sobre Cirurgia Robótica para Instituições de saúde em todo o país, que engloba a implantação, o desenvolvimento das diversas técnicas cirúrgicas e a capacitação das equipes.
