Receptores hormonais, HER2, estágio e características biológicas ajudam a definir a estratégia contra a doença; por isso, duas mulheres com o mesmo diagnóstico podem receber tratamentos completamente diferentes

Imagine duas mulheres que descobrem um câncer de mama, com tumores do mesmo tamanho. Uma pode começar um tratamento com comprimidos que bloqueiam a ação de hormônios. A outra pode receber um medicamento desenhado para atacar uma proteína específica das células doentes.
A explicação está no que os médicos descobrem depois do diagnóstico. Antes de decidir o tratamento, a equipe precisa investigar o tumor: se ele depende de hormônios para crescer, se produz proteína em excesso, em que estágio está e, em alguns casos, quais alterações o tumor carrega.
“Quando falamos em câncer de mama, estamos falando de doenças com características muito diferentes entre si. É por isso que duas pacientes com tumores do mesmo tamanho, por exemplo, podem ter tratamentos completamente distintos. O que existe por trás do diagnóstico, como a presença de receptores hormonais e a expressão de HER2, é determinante para a escolha terapêutica”, explica Breno Jeha, oncologista da Oncoclínicas.
O tema é relevante para um grande número de brasileiras. O câncer de mama é o tumor mais frequente entre as mulheres no país, sem contar os cânceres de pele não melanoma. Para cada ano do triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos.
Tumores que “se alimentam” de hormônios
Em parte dos casos, as células do tumor têm receptores para estrogênio e/ou progesterona, estruturas que funcionam como fechaduras nas quais os hormônios se encaixam para estimular o crescimento. Esses tumores são chamados de receptores hormonais positivos (RH+). Segundo o Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos (NCI), cerca de 80% dos cânceres de mama são assim.
Nesses casos, o pilar do tratamento costuma ser a terapia endócrina, ou hormonioterapia, que reduz a ação desses hormônios sobre o tumor. Isso não quer dizer que todas as pacientes recebam o mesmo tratamento. Estágio, grau de agressividade das células, comprometimento dos linfonodos (as “ínguas” da axila), menopausa e outras características também pesam na decisão.
Em alguns casos de câncer inicial RH+/HER2-, testes de expressão gênica, como o Oncotype DX, analisam a atividade de genes do tumor. O resultado ajuda a estimar o risco de a doença voltar e a decidir se a quimioterapia traria benefício extra. Diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) reconhecem o uso de alguns desses testes em situações específicas.
“Mesmo dentro de um grupo como o dos tumores hormônio-positivos, existe uma grande diversidade. Em algumas pacientes, a hormonioterapia pode ser suficiente como tratamento sistêmico; em outras, a quimioterapia ou outras terapias são necessárias. É a combinação das características do tumor e da paciente que nos permite individualizar essa decisão”, afirma Jeha.
HER2: a proteína que virou alvo
O HER2 é uma proteína envolvida na multiplicação das células. Quando o tumor tem cópias demais do gene HER2 ou produz a proteína em excesso, é classificado como HER2 positivo, o que ocorre em cerca de 15% a 20% dos cânceres de mama invasivos.
Descobrir esse marcador mudou a história do tratamento. Hoje há medicamentos que bloqueiam especificamente o HER2. Entre eles estão os anticorpos monoclonais, proteínas produzidas em laboratório que se ligam ao HER2, e os conjugados anticorpo-droga, que levam um medicamento potente direto às células-alvo.
O estudo DESTINY-Breast05 reforça como identificar o HER2 pode orientar o tratamento mesmo depois da cirurgia. Ele avaliou pacientes com câncer de mama HER2 positivo que receberam tratamento antes da cirurgia, mas que ainda apresentavam tumor invasivo e tinham maior risco de a doença voltar. Três anos depois, cerca de 92 em cada 100 pacientes tratadas com trastuzumabe deruxtecana estavam vivas e sem retorno de doença invasiva, versus cerca de 84 em cada 100 tratadas com trastuzumabe entansina (T-DM1). A escolha entre esses medicamentos também exige avaliar seus efeitos adversos e a situação de cada paciente..
“Hoje, identificar o HER2 é fundamental porque temos tratamentos direcionados a essa característica do tumor. É um dos exemplos mais claros de como a informação obtida na biópsia ou na cirurgia pode mudar diretamente a estratégia terapêutica”, explica o oncologista.
Triplo-negativo: sem os três alvos, outras armas
O câncer de mama triplo-negativo não tem receptores de estrogênio nem de progesterona e não apresenta excesso de HER2. Sem esses três alvos, os remédios hormonais e as terapias anti-HER2 não funcionam.
Isso não significa falta de opções. A quimioterapia segue como ferramenta importante, e a imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa do organismo a reconhecer e atacar o tumor, passou a fazer parte do tratamento em alguns casos.
No estudo KEYNOTE-522, mulheres com câncer triplo-negativo inicial (estágios II ou III) receberam quimioterapia associada ao pembrolizumabe antes da cirurgia e continuaram com o imunoterápico depois. Na análise final, publicada em 2024, cerca de 87 de cada 100 mulheres do grupo do pembrolizumabe estavam vivas após cinco anos (86,6%), contra cerca de 82 de cada 100 (81,7%) no grupo que fez apenas quimioterapia.
“O triplo-negativo é um exemplo de como a ausência de determinados marcadores também traz uma informação terapêutica. Como não há receptores hormonais nem HER2 para serem bloqueados, precisamos recorrer a outras estratégias, e hoje a imunoterapia representa uma dessas possibilidades em pacientes selecionadas”, diz Jeha.
HER2-low: quando “pouco” também importa
Nos últimos anos, ganhou espaço o conceito de HER2-low, ou HER2 baixo. Ele não é um novo subtipo clássico de câncer de mama. É uma categoria dentro dos tumores considerados HER2 negativos pelas classificações tradicionais: eles têm pouca proteína HER2, mas não zero.
Essa quantidade pequena passou a importar com o desenvolvimento de medicamentos capazes de entregar uma substância tóxica diretamente às células com níveis baixos de HER2. No estudo DESTINY-Breast04, publicado no New England Journal of Medicine, o trastuzumabe deruxtecana aumentou a sobrevida livre de progressão (o tempo em que a doença não avança) e a sobrevida global, em comparação com a quimioterapia, em pacientes com câncer metastático HER2-low já tratadas antes.
Mais recentemente, o DESTINY-Breast06 estendeu a investigação a pacientes com câncer metastático RH+ e HER2-low ou ultralow que já haviam passado por tratamento hormonal. O medicamento também garantiu mais tempo sem progressão da doença do que a quimioterapia.
“Esses avanços mostram que a classificação dos tumores está cada vez mais refinada. Não significa que todos os marcadores novos mudem imediatamente a conduta para todas as pacientes, mas que estamos conseguindo identificar características cada vez mais específicas da doença e, com isso, desenvolver tratamentos mais direcionados”, ressalta o médico.
O subtipo é importante, mas não decide sozinho
Os biomarcadores são fundamentais, mas nunca são analisados isoladamente. Tamanho do tumor, comprometimento dos linfonodos, grau de agressividade das células, presença de metástases, idade e condições clínicas da paciente também entram na conta.
Os exames que identificam esses marcadores também precisam ser bem feitos e bem interpretados. Por isso, as diretrizes da ASCO e do Colégio Americano de Patologistas recomendam avaliar receptores hormonais e HER2 em todos os tumores invasivos: os resultados têm implicações tanto para o prognóstico quanto para o tratamento.
“Não existe um tratamento para ‘o câncer de mama’ de maneira genérica. Existe o tratamento mais adequado para aquela doença, naquele estágio e para aquela paciente. Quanto mais conseguimos caracterizar biologicamente o tumor, maior é a nossa capacidade de escolher uma estratégia que faça sentido para aquela situação específica”, conclui Breno Jeha.
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co, um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil, oferece um modelo hiperespecializado e inovador voltado para toda a jornada oncológica do paciente. Presente em 136 unidades em 47 cidades, a companhia reúne um corpo clínico formado por mais de 1.750 médicos especializados na linha de cuidado do paciente oncológico. Com a missão de democratizar o acesso à oncologia de excelência, realizou cerca de 537 mil tratamentos nos últimos 12 meses. Com foco em pesquisa, tecnologia e inovação, a Oncoclínicas segue padrões internacionais de alta qualidade, integrando clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, potencializando o tratamento com medicina de precisão e genômica. A companhia mantém iniciativas globais, como a Boston Lighthouse Innovation, nos Estados Unidos. Integra ainda o índice IDIVERSA da B3, reforçando seu compromisso com a diversidade.
Saiba mais em: www.oncoclinicas.com.
