Estudo inédito com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) demonstra a eficácia da combinação de medicamentos e destaca a importância de ampliar o acesso à estratégia na rede pública de saúde

O número de mortes potencialmente evitáveis entre mulheres em tratamento contra o câncer de mama HER2-positivo, um dos subtipos mais agressivos da doença, pode ser reduzido de forma significativa se as pacientes assistidas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) tiverem acesso a uma estratégia pré-operatória que combina quimioterapia e as drogas T-DM1 e pertuzumabe. Os bons resultados deste tratamento são demonstrados em um estudo brasileiro que avaliou 22.432 pacientes. Coordenada pelo mastologista, André Mattar, tesoureiro da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a pesquisa também associa o impacto clínico positivo à viabilidade econômica da terapia na rede pública de saúde brasileira.
O estudo inédito “Impacto das terapias anti-HER2 nas mortes potencialmente evitáveis por câncer de mama HER2-positivo em estágios II e III no sistema público de saúde brasileiro” acaba de ser publicado na The Breast, revista afiliada à Sociedade Australiana de Doenças da Mama (ASBD), Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO) e ao Grupo de Oncologia da Mama de Hong Kong (HKBOG). Conduzida por André Mattar, a investigação tem contribuições dos pesquisadores Francisco Pimentel Cavalcante, Nelson F. Correa-Netto, Iago Silveira, Eduardo Baldassin Pavanel, Cintia S. Kurokawa La Scala e Patrícia Klarmann Ziegelmann.
Mesmo em estágios iniciais, o subtipo HER2-positivo é considerado clinicamente agressivo e ocorre em cerca de 15% a 30% de todos os cânceres de mama diagnosticados, uma prevalência também observada no Brasil. Em comparação com o tipo luminal, tumor que costuma apresentar receptores hormonais positivos, ou seja, cresce estimulado por hormônios como estrogênio e progesterona, o HER2-positivo, segundo estudos, demonstra uma sobrevida global 5 anos menor para as pacientes diagnosticadas com o subtipo. No entanto, com a introdução de novas terapias direcionadas ao HER2-positivo, melhoras significativas vêm sendo observadas em estágios iniciais e também metastáticos.
Com dados nacionais do DATASUS, o estudo avaliou 22.432 pacientes com câncer de mama HER2-positivo em estágios II e III. Em um período de 8 anos, a pesquisa projetou uma média de óbitos evitáveis a partir de três tratamentos. No pré-operatório, mulheres submetidas à quimioterapia com administração do medicamento trastuzumabe, estratégia padrão atual do SUS, a média projetada de mortes foi de 3.606. No segundo cenário, onde foi incorporada a droga T-DM1, disponível na rede pública de saúde, a média chegou a 2.672. Na terceira estratégia, regime padrão-ouro, com a inclusão de pertuzumabe, medicamento ainda não oferecido pelo SUS, e T-DM1, a média de óbitos alcançou 2.390.

De acordo com André Mattar, a incorporação de T-DM1 ao tratamento representou 934 mortes a menos. “Na adoção completa da estratégia padrão-ouro foram 1.216 óbitos a menos, ou uma redução relativa de 33,7%”, explica.
Considerando a abrangência da cobertura do SUS a mais de 160 milhões de pessoas, número que corresponde a 75% da população brasileira que depende exclusivamente da rede pública para diagnóstico e tratamento, o mastologista da SBM ressalta, com base no estudo, a importância de ampliar o acesso das pacientes com câncer de mama inicial HER2-positivo às medicações que podem representar melhores prognósticos.
Apesar da recomendação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) para a incorporação do T-DM1 adjuvante em setembro de 2022, o medicamento só foi disponibilizado a pacientes do SUS em outubro de 2025. O pertuzumabe perioperatório ainda hoje está indisponível na rede pública, tendo sido negado pela Conitec por duas oportunidades.
O impacto clínico positivo, demonstrado no estudo, também se associa à viabilidade econômica das terapias para tratamento de HER2-positivo. Mattar destaca em um estudo brasileiro que o T-DM1 adjuvante é custo-efetivo em comparação com o trastuzumabe para o tratamento da doença residual após terapia neoadjuvante, tanto no contexto dos Estados Unidos quanto do Brasil.
Da mesma forma, ressalta o mastologista da SBM, o bloqueio duplo de HER2-positivo baseado em pertuzumabe mostra-se economicamente viável, particularmente para pacientes com linfonodos positivos e de alto risco. “Evidentemente, são necessárias avaliações adicionais de custo-efetividade, mas no contexto neoadjuvante, análises de compensação de custos projetaram economias em longo prazo para o sistema de saúde brasileiro, com uma redução líquida de R$ 69,3 milhões em 5 anos”, diz.
Para André Mattar, expandir a disponibilidade de estratégias anti-HER2-positivo significa ampliar as chances de sobrevida das pacientes que passam por tratamento de câncer de mama. “Além de reduzir a mortalidade de forma significativa entre mulheres assistidas pelo SUS, esse acesso pode diminuir disparidades quando se consideram os serviços e medicamentos já disponíveis na saúde suplementar, que contempla os planos de saúde”, conclui.
