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Retirar o glúten da dieta sem necessidade pode mascarar doenças e causar deficiência nutricional

Especialistas do Hospital Sírio-Libanês explicam que não existe apenas um tipo de intolerância à proteína e que a confirmação exige avaliação médica.

Mulher segurando e cheirando um pão grande em padaria com prateleira de pães ao fundo

Estudos mostram que cerca de 10% da população mundial relata sintomas e 40% deles já optaram por deixar de consumir glúten, mesmo antes de ter um diagnóstico confirmado

São Paulo, outubro de 2026 – Popularizadas por muitos influenciadores nas redes sociais, as dietas sem glúten viraram moda e levaram muita gente a concluir que é mais saudável deixar de consumir pães, massas e outros produtos com a proteína. Uma revisão internacional de 25 estudos (1) realizados em 16 países, com 49 mil participantes, mostrou que cerca de 10% da população mundial acredita ter sensibilidade ao glúten e 40% já aboliu o glúten do cardápio.

Mas fazer isso por conta própria e sem orientação médica pode mascarar sintomas, dificultar a identificação de qual condição está realmente causando problemas, atrasar tratamentos e prejudicar a saúde.

“O primeiro ponto que temos que esclarecer é que não existe uma única doença denominada intolerância ao glúten, e sim três condições relacionadas a ele: doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca”, diz Flora M. D’Andréa Marcolino, reumatologista e coordenadora do Centro de Pesquisa Clínica na área de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês. “Embora alguns sintomas possam se confundir, elas têm mecanismos diferentes e, consequentemente, exigem formas distintas de diagnóstico e tratamento.”

Flora explica que a doença celíaca é autoimune e desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas, com sintomas como diarreia crônica ou recorrente, perda de peso e cansaço, mas também manifestações menos diretamente associadas ao intestino, como anemia, aftas, alterações na pele, osteopenia e osteoporose. “

Na alergia ao trigo, ocorre uma reação às proteínas presentes nesse cereal, e não necessariamente ao glúten, com sinais como urticária, coceira, inchaço, vômitos e problemas respiratórios. Já a sensibilidade ao glúten não celíaca pode estar associada a distensão e dor abdominal, gases, alterações intestinais, cansaço e, eventualmente, dores musculares ou articulares.”

Essa diferença entre as condições ajuda a explicar por que a avaliação especializada deve preceder a mudança alimentar.

Na doença celíaca, a investigação pode envolver exames de sangue para a identificação de anticorpos específicos e, dependendo do caso, endoscopia com biópsia do intestino delgado. Na alergia ao trigo, são utilizados testes específicos para identificar a reação alérgica. Já a sensibilidade ao glúten não celíaca não conta atualmente com um exame específico, tendo seu diagnóstico confirmado após descartadas outras causas.

Flora complementa que apenas a doença celíaca exige exclusão total do glúten. “Um ensaio clínico (2) mostrou que mesmo doses mínimas de glúten já podem ativar o sistema imunológico em celíacos. Então aqui a recomendação é mesmo não consumir. Nos demais casos, a retirada deve ser orientada por médico ou nutricionista.”

Cláudia Goldenstein Schainberg, coordenadora do Núcleo de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que a retirada prévia do glúten pode reduzir a resposta imunológica, diminuindo a presença dos anticorpos que poderiam sinalizar a doença. “Também altera a mucosa do intestino, levando muitas vezes a resultados falso-negativos. Outro desafio é que vários sintomas atribuídos ao glúten não são específicos. Fadiga, inchaço, desconforto abdominal e dores articulares, por exemplo, podem aparecer em condições tão diversas quanto síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares, anemia, alterações da tireoide, distúrbios do sono, estresse e doenças reumatológicas. Além disso, outros componentes do trigo podem estar envolvidos, entre eles os frutanos, um tipo de carboidrato fermentável.”

Cláudia alerta ainda que outra consequência da dieta sem glúten sem indicação médica é o impacto na saúde nutricional. “A pessoa perde nutrientes essenciais, como fibras alimentares, ferro e vitaminas do complexo B, já que os produtos substitutos costumam ser feitos com amidos refinados e não passam pelo enriquecimento obrigatório das farinhas tradicionais. Isso compromete a saúde intestinal, reduz a saciedade e, frequentemente, aumenta o consumo de gorduras, açúcares e sódio, que são adicionados pela indústria para compensar a falta de textura e sabor da proteína original.”

Cinco Fake News do glúten

1. O glúten é inflamatório para todo mundo.

Não há nenhuma comprovação científica de que o glúten cause inflamação em pessoas saudáveis. Ele só desencadeia uma resposta inflamatória e imunológica em quem tem predisposição e condições médicas específicas.

2. Dieta sem glúten ajuda a emagrecer.

O glúten é uma proteína, não um carboidrato, e não tem ligação direta com o ganho ou perda de peso. Quem emagrece ao tirar o glúten geralmente perde peso porque reduziu o consumo geral de calorias.

3. Alimentos sem glúten são mais saudáveis.

Ao contrário, eles costumam ser altamente refinados, possuir menos fibras e nutrientes, e podem conter mais açúcar, sódio e gorduras saturadas para compensar a falta de textura.

4. Sentir a barriga inchada após comer um pão ou bolo prova que tenho intolerância ao glúten.

O inchaço e a produção de gases podem acontecer por outros motivos. O trigo contém carboidratos fermentáveis que causam distensão abdominal em muitas pessoas, como quem tem a síndrome do intestino irritável, sem que isso seja uma reação à proteína do glúten. Além disso, comer rápido demais ou ingerir alimentos muito gordurosos podem gerar os mesmos sintomas.

5. A doença celíaca sempre causa sintomas, como dores de estômago ou diarreia.

Existe a doença celíaca silenciosa, em que a pessoa come glúten e não sente nada, mas a proteína inflama o intestino da mesma forma. Por isso, exames de sangue preventivos são indicados para grupos de risco, como parentes de primeiro grau de celíacos, portadores de diabetes tipo 1 ou doenças autoimunes da tireoide (Hashimoto e Graves) e outras condições autoimunes.

Referências:
(1) Global prevalence of self-reported non-coeliac gluten and wheat sensitivity: a systematic review and meta-analysis. Autores: Mohamed G. Shiha, Francesca Manza, Oscar G. Figueroa-Salcido, Noé Ontiveros, Giacomo Caio, Claire L. Jansson-Knodell, Alberto Rubio-Tapia, Imran Aziz, David S. Sanders. Revista: Gut. Ano: Publicado online em outubro de 2025; versão impressa em março de 2026. Disponível em https://gut.bmj.com/content/75/3/502 (2) A Randomized Double-Blind, Placebo-Controlled Dose-Response Study to Assess the Gluten Threshold Dose in Celiac Disease. Autores: A. James M. Daveson, Emma Craig, Alina Vitak, Robert S. Ware, Jennifer Schafer, Anuj Sehgal, Utpal Bose, Michelle L. Colgrave, Melinda Y. Hardy, Jason A. Tye-Din, Robert P. Anderson. Revista: Gastroenterology. Ano: 2026. Volume/Páginas: 171:285–297. Disponível em https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(26)00264-7/fulltext

Sobre o Sírio-Libanês

A Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês, instituição filantrópica que completou 100 anos em 2021, atua diariamente para oferecer e compartilhar com a sociedade uma assistência médico-hospitalar de excelência, com atendimento humanizado e individualizado em mais de 60 especialidades. Desde 2007, é reconhecida pela Joint Commission International (JCI), principal órgão mundial em qualidade e segurança hospitalar, e é a única instituição no Brasil a possuir também a acreditação da JCI em Atenção Primária à Saúde.

Por meio da Faculdade Sírio-Libanês, contribui para a formação de profissionais de saúde éticos e preparados para atuar com base em boas práticas, além de fomentar o desenvolvimento científico com estudos e pesquisas nacionais e internacionais. A instituição oferece graduação, pós-graduação lato sensu e stricto sensu, residências médicas e multiprofissionais, cursos de atualização, estágios, seminários e reuniões científicas.

O Sírio-Libanês foi pioneiro na criação de programas de Saúde Populacional, que reúnem empresas, operadoras e equipes de Atenção Primária no cuidado contínuo e qualificado, apoiando a gestão do benefício do plano de saúde e promovendo qualidade de vida e produtividade. Atualmente, está presente com dois hospitais e cinco unidades em São Paulo e Brasília.

Saiba mais em nosso site: hospitalsiriolibanes.org.br

 

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