O medo paralisante que impede o tratamento das doenças crônicas em tempos de Covid-19

por Andréa Ladislau, doutora em psicanálise
Andréa Ladislau (foto: Pedro Costa)

O universo da saúde no Brasil e no mundo passa por transformações muito peculiares em tempos de pandemia. Com praticamente três meses de isolamento social e ainda vivendo dias de incertezas e atualizações constantes dos cuidados e protocolos para se evitar a contaminação pelo Coronavírus, um outro inimigo vem se destacando entre a população: o medo paralisante.

Um medo que hoje impede pacientes de doenças crônicas, em tratamento contínuo antes da pandemia, de darem continuidade ao acompanhamento médico de rotina. Diabetes, hipertensão, obesidades e cardiopatias ganham destaque pela necessidade do controle adequado que, em função do medo extremo do contágio, provocou a paralisação e modificação do dia a dia de algumas pessoas.

Relatos dos especialistas demonstram que esse cenário é muito sério, pois sinais de agravamento de certas doenças estão sendo negligenciados. Um exemplo são os casos dos Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) que são considerados pela  Organização Mundial de Saúde (OMS) como a segunda maior causa de mortes no mundo. Uma doença extremamente grave, que exige que a busca pelo diagnóstico e tratamento seja feita com a maior brevidade, pois cerca de 1,9 milhões de neurônios podem morrer por minuto em caso de um ataque. E se o socorro não vier a tempo, seguindo os protocolos médicos específicos, o paciente pode vir a apresentar sequelas e demências irreversíveis.

Porém, por medo de buscar um estabelecimento de saúde e correr o risco de se contaminar com o Covid-19, os sintomas estão sendo ignorados e muitas pessoas chegam a morte por não serem socorridas a tempo. Situação parecida também vem ocorrendo com os casos de pacientes diagnosticados com dengue ou com diversos tipos de cardiopatas.

Essa fobia, caracterizada por pensamentos negativos e uma sensação de terror à exposição extrema ao vírus, faz com que o paciente alimente uma tendência a se esquivar do que é temido – omitindo muitas vezes dos familiares e amigos dores, sensações e sintomas graves, e comprometendo de forma profunda sua saúde. Um medo incômodo que possui bases psicológicas e fisiológicas, afetando o equilíbrio mental e a sobrevivência do paciente.

Aprender a administrar e controlar esse medo, tomando os cuidados necessários e seguindo as orientações de prevenção de contágio do Coronavírus, é um grande desafio para a atualidade. O que não se pode permitir é que a resposta adaptativa mental necessária, que deve ser benéfica, aliada à continuidade dos tratamentos de saúde do indivíduo, produza uma tempestade química de mudanças psíquicas e fisiológicas no organismo – a ponto de bloquear a capacidade mental do entendimento de que é necessário continuar a viver. O estresse paralisante deve ser eliminado para não alimentar o pânico e não transformar o ser em um refém de seus próprios anseios.

É muito importante não interromper os tratamentos continuados e também não deixar de sinalizar ou buscar ajuda de um médico quando perceber que algo está errado. É compreensível o sumiço dos hospitais e dos consultórios, mas as doenças são tão perigosas quanto o Covid-19. É claro e evidente que os cuidados para não se contaminar devem ser tomados e intensificados, pois a restrição de circulação permanece. Mas interromper um tratamento ou retardar um auxílio no aparecimento de um sintoma grave pode ser fatal. Entenda que emergências não podem ser ignoradas.

Enfim, psicologicamente falando, os problemas de saúde com risco de vida não podem ser potencializados pelo medo e pelo pânico. A busca por atendimento médico, em caso de necessidade, passa por uma questão de amor próprio e responsabilidade consigo mesmo – e não devem sofrer qualquer impedimento do cuidado, pois, em alguns casos, cada minuto é precioso para o sucesso do tratamento.

A necessidade da atenção médica regular não foi abolida pelo vírus. O que precisa ser abolido, ou pelo menos controlado, é o medo e a angústia que nos impede de seguir a vida. A adaptação a novos modelos de organização diária foi necessária para que possamos mitigar a curva de contágio. No entanto, devemos aprender a olhar para todas essas modificações com um senso de respeito a nós e ao próximo,  valorizando ainda mais nossa vida e promovendo a saúde mental e o equilíbrio físico adequado ao nosso bem-estar.

Andréa Ladislau (foto: Pedro Costa)

Dra. Andréa Ladislau
Psicanalista

Doutora em Psicanálise
Palestrante
Colunista
Academia Fluminense de Letras
Gestora em saúde
Repres. Intern. (USA) da University Miesperanza

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