A pandemia do suicídio no Brasil e no mundo – um alerta para todos nós


Quando entrou no hospital pela primeira vez depois da residência, o médico cirurgião-geral Jean Rafael, hoje um dos mais renomados palestrantes brasileiros sobre Gerenciamento do Estresse e autor do livro “A Ciência da Gratidão – Como prevenir as doenças da mente e aplicar o gerenciamento de estresse”, se lembra de ter sentido palpitar em seu coração um misto de empolgação e insegurança, pois agora não existia mais a figura do preceptor central na formação médica, visto como aquele que direciona, inspira e dá segurança a cada um dos doutores recém-formados em busca do tão sonhado sucesso profissional.

“Eu me lembro que esperava sempre muito ansioso os meus primeiros casos de atendimento. Eram vítimas de todos os tipos de acidente, ora por arma de fogo, ora por facada ou acidente de trânsito. Às vezes me pediam avaliação para pacientes que atentaram contra a sua própria vida e isso sempre me deixava confuso e me questionando muito durante o plantão”, relembra Jean.

Jean afirma que, quando olha para trás, tem cada vez mais certeza que pouco (ou quase nada) treinou sobre suicídio na sua formação e muito menos sobre como lidar na linha de frente com o universo de quem, imerso em sua dor e sofrimento, chegava a este momento de tentar se matar. Segundo ele, foi preciso muito tempo e aprendizado, além da experiência de adoecer emocionalmente, para compreender a dor e a dimensão deste universo que só quem passa por ele sabe como é difícil, mas não impossível, superar.

“Hoje, lidar com fatores como preconceito, dificuldades na formação dos profissionais e ampliação das políticas públicas para o enfrentamento do suicídio passou a fazer parte do meu propósito existencial, já que na minha família tive um caso fatal que mobilizou não só a mim, que tive que cuidar deste parente no hospital, mas toda a família, que sofreu muito com o acontecido”, relembra.

O suicídio é um processo global e desde 2014 a OMS alerta o crescimento do problema – na época, a Organização Mundial da Saúde publicou um relatório de prevenção ao suicídio mostrando uma enorme preocupação com o problema, uma vez que já se desejava reduzir cerca de 10% dos casos até 2020 em todo o mundo. O Brasil foi em sentido contrário e registrou um aumento em cerca de 12% em suas taxas. “Isso acende um alerta para revermos muita coisa diante de uma questão onde os números falam por si só”, explica o médico:

· mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos ­­­

·  a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo

·  o suicídio é a segunda principal causa de morte para pessoas de idade entre 15 e 29 anos de idade no mundo todo

Como educador em Saúde, há 4 anos Jean ampliou sua prática se dedicando ainda mais a palestras sobre o tema em escolas públicas e particulares, auxiliando também na implantação do CVV de Arapiraca (AL) e criando o evento “Vale a pena viver”, que em 2020 ocorre online sob a temática “O que eu pude aprender em 2020 com a pandemia?”.

Jean alerta, ainda que as taxas de suicídio são mais altas em homens e mulheres com 70 anos ou mais. Entre os motivos causadores, destaque para episódios de discriminação, sensação de isolamento, abuso sexual, violência e relações conflituosas. Os fatores individuais incluem, ainda, transtornos mentais, uso prejudicial de álcool, problemas financeiros, dificuldade de lidar com perdas, dor crônica e histórico familiar de suicídio. “As estratégias para combater estes fatores de risco se dividem em ações de prevenção universais para aumentar o acesso da população à saúde, promoção da saúde mental reduzindo o uso prejudicial de álcool e a limitação de acesso a meios de suicídio. Para Jean, a prevenção também pode ser fortalecida encorajando fatores de proteção, como relacionamentos pessoais fortes, além de um determinado sistema de crenças pessoais e algumas estratégias positivas de enfrentamento do problema.

Sobre Jean Rafael

O palestrante Jean Rafael é médico cirurgião geral com residência médica pelo Hospital Universitário de Alagoas Professor Alberto Antunes. É professor do curso de Medicina da Ufal – Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca e mestre coordenador da disciplina Saúde, Ciência e Espiritualidade. É pós-graduado em Ensino na Saúde pelo Hospital Sírio Libanês, em Auditoria de Sistemas de Saúde pela Faculdade Estácio de Sá do Rio de Janeiro e em Psicoterapia Transpessoal pelo Núcleo de Expansão da Consciência LUMEM. Possui certificação em Gerenciamento do Stress (ISMA – BR) e é treinador comportamental formado pelo IFT. Foi ganhador do Melhor Projeto de Recursos Humanos da Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas em 2017. É autor do livro “A ciência da gratidão – Como prevenir as doenças da mente e aplicar o gerenciamento do estresse” (Literare Books International – 2019).

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