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Senac Barretos

Rompimento da barragem deixou sequelas físicas e mentais na população de Brumadinho

Na área da saúde mental, a previsão é de que, na próxima década, os fortes efeitos negativos causados pela tragédia ainda façam parte da realidade vivida pela população


No Dia Nacional da Saúde (5 de agosto), a população de Brumadinho (MG) não teve motivos para comemorar. Após três anos e meio do rompimento da barragem de rejeitos, as consequências da tragédia na saúde dos moradores da cidade permanecem muito presentes. Para os próximos anos, há prognósticos preocupantes. Na área da saúde mental, a previsão é de que, nos próximos dez anos, os fortes efeitos negativos desencadeados pela tragédia-crime ainda façam parte da realidade vivida pela população, segundo o coordenador clínico da equipe de saúde mental do município de Brumadinho, o psicólogo Rodrigo Chaves Nogueira.

“Hoje, o nosso entendimento é de que o impacto [na saúde mental] ainda é muito forte e que, nos próximos dez anos, ainda estará [muito forte]”, afirmou Nogueira. Os problemas de saúde mental, como depressão em adultos e crianças, ansiedade e transtornos psíquicos mais graves, são percebidos nas rotinas dos serviços de saúde. Segundo o psicólogo, a tragédia, ocorrida em 25 de janeiro de 2019, ainda está presente no “dia a dia” da população, o que gera consequências negativas no emocional de moradores da cidade.

“A rotina da cidade não é mais a mesma após a tragédia-crime. Hoje, Brumadinho não é mais uma ‘pequena e pacata cidade’. O que aconteceu impacta enormemente a vida dessas pessoas”, afirmou Nogueira. Vários casos de desenvolvimento de doenças entre familiares de vítimas do rompimento da barragem têm sido relatados pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM). Segundo a diretoria da AVABRUM, a saúde de familiares ficou mais frágil, resultando em casos de depressão, diabetes, colesterol alto, hipertensão, câncer, derrame cerebral etc. De acordo com a AVABRUM, familiares têm enfrentado quadros agudos de tristeza, mas rejeitam a possibilidade de ir a médicos por medo da morte.

Segundo relatos da associação, muitos pais de vítimas tiveram seus quadros de saúde agravados em decorrência de fatores emocionais e faleceram. A AVABRUM é idealizadora do Projeto Legado de Brumadinho, que implementa ações para estabelecer uma nova mentalidade na sociedade sobre a importância das políticas de saúde e de segurança no trabalho. Para a AVABRUM, é preciso valorizar a vida nos ambientes de trabalho, principalmente na área de mineração.

Segundo Nogueira, os estudos da área de saúde demonstram que, em “situações de exposição” a eventos “extremos”, como o que ocorreu com a ruptura da barragem, “há uma grande alteração na vida das pessoas, do ponto de vista social, emocional e cultural”. “No caso de Brumadinho, as famílias não tiveram possibilidade de fazer seus rituais de despedida de seus parentes que morreram. Ocorreram velórios, mas sem corpos”, afirmou o psicólogo. De acordo com ele, a falta de uma “despedida” em velórios e enterros nos padrões culturais de uma população pode provocar impactos na saúde mental de determinadas pessoas, o que pode levá-las a precisar de atendimento especializado.

Nogueira afirmou que, depois da tragédia, as equipes de profissionais dos serviços municipais de saúde mental prepararam-se para um aumento na demanda por atendimentos nesta área. Ele relatou medidas que foram tomadas para garantir a ampliação da capacidade dos serviços. “Nós transformamos o CAPS 1 — Centro de Atendimento Psicossocial — em CAPS2, que tem uma equipe maior e recebe mais recursos. Além disso, credenciamos o CAPS infantojuvenil e criamos 3 equipes intermediárias de atendimento formadas por médicos, psicólogos e terapeutas ocupacionais. São equipes volantes que atuam nas Unidades Básicas de Saúde [UBS]. Sabíamos que a demanda iria aumentar e realmente aumentou em todas as áreas”, declarou Nogueira. Ele acrescentou que a pandemia e as enchentes do início do ano tornaram o quadro de saúde mental ainda mais desafiador.

Segundo a médica do município Laysa Barbosa de Oliveira, que é responsável técnica dos médicos municipais da atenção primária, a literatura mundial de saúde aponta que, em casos de grandes tragédias, há riscos de surgimento de transtornos de estresse pós-traumático tardios (TEPT) em populações afetadas por estes eventos. De acordo com ela, o TEPT, que é uma doença psiquiátrica, pode elevar as chances de indivíduos desenvolverem doenças secundárias, como comorbidades crônicas inflamatórias não transmissíveis – hipertensão, diabetes, doenças autoimunes etc.

Diante desses riscos, a médica idealizou o Projeto Exposição, da Prefeitura de Brumadinho, para um rastreamento clínico das condições de saúde dos moradores da cidade após a ruptura da barragem. O objetivo do projeto, que já está na segunda fase de desenvolvimento, é a realização de levantamentos da incidência e prevalência de doenças para, em seguida, promover as mudanças necessárias nos serviços de saúde (preventiva e primária). “O rastreamento da saúde da população é fundamental para a oferta de melhores tratamentos”, disse Laysa.

Ela afirmou que o projeto é “dinâmico”, pois, “a medida em que os dados são levantados, os serviços de saúde podem ser reorganizados, em paralelo ao rastreamento”. Ela esclareceu que a análise dos dados coletados está sendo realizada de uma forma muito criteriosa.

Segundo a médica, a secretaria municipal de Saúde também vai utilizar dados de uma pesquisa coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Minas e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre as condições de vida, saúde e trabalho da população de Brumadinho depois da tragédia. Encomendado pelo Ministério da Saúde, o estudo está investigando, entre vários aspectos, o perfil de exposição a metais por moradores da cidade, além de uma avaliação sobre saúde mental.
A primeira etapa da pesquisa foi divulgada no início de julho e revelou uma concentração elevada de metais, como arsênio, manganês, cádmio, mercúrio e chumbo, em crianças, adolescentes e adultos de Brumadinho. Laysa, porém, é cautelosa ao avaliar os dados. “A gente não pode estabelecer um nexo causal entre a exposição a metais pesados e o surgimento de doenças, porque a gente não tem uma análise anterior ao rompimento da barragem”, declarou a médica.

Projeto Legado de Brumadinho é realizado com recursos destinados pelo Comitê Gestor do Dano Moral Coletivo pago a título de indenização social pelo rompimento da Barragem em Brumadinho em 25/01/2019, que ceifou 272 vidas.

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