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Distúrbios do sono: o que são, como afetam a saúde e quando procurar ajuda

Distúrbios do sono: o que são, como afetam a saúde e quando procurar ajuda
foto: Freepik

Dormir é uma necessidade biológica fundamental. Ainda assim, milhões de pessoas enfrentam dificuldades para manter uma rotina de sono saudável. Os distúrbios do sono, muitas vezes subestimados, impactam diretamente o funcionamento do corpo e da mente e podem estar relacionados a doenças crônicas, alterações hormonais, redução da imunidade e prejuízos à saúde emocional e cognitiva.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 40% dos brasileiros sofrem com algum tipo de distúrbio do sono. Essa alta prevalência evidencia a importância de compreender o que são essas alterações, como elas afetam a saúde e quais caminhos buscar para promover um sono reparador.

O que são distúrbios do sono?

São condições clínicas que interferem na capacidade de iniciar, manter, regular ou restaurar o sono. Eles se manifestam de diferentes formas, desde dificuldade para adormecer até episódios de sonolência excessiva durante o dia, despertares frequentes à noite ou comportamentos anormais durante o sono.

Alguns dos distúrbios mais comuns incluem:

  • Insônia: dificuldade persistente em iniciar ou manter o sono, geralmente associada à ansiedade, estresse ou hábitos inadequados.
  • Apneia obstrutiva do sono: interrupções repetidas da respiração durante a noite, comumente ligadas ao ronco e à sonolência diurna.
  • Síndrome das pernas inquietas: desconforto nas pernas, acompanhado de uma necessidade incontrolável de movê-las, especialmente à noite.
  • Distúrbios do ritmo circadiano: alteração no relógio biológico, como ocorre com trabalhadores noturnos ou pessoas com jet lag frequente.
  • Sonambulismo, terrores noturnos e parassonias: comportamentos involuntários que ocorrem durante o sono, mais frequentes em crianças, mas também presentes em adultos.

Como os distúrbios do sono afetam a saúde?

Dormir mal uma noite ou outra pode parecer inofensivo. No entanto, quando os distúrbios do sono se tornam crônicos, os efeitos vão muito além do cansaço diurno. O sono é um momento essencial para a regeneração celular, o equilíbrio hormonal, o funcionamento cerebral e a regulação do sistema imunológico.

Veja alguns impactos comprovados:

1. Desempenho cognitivo e emocional

A falta de sono afeta a capacidade de concentração, memória e tomada de decisões. Pessoas com distúrbios do sono têm mais dificuldade para processar emoções e lidar com situações de estresse, o que aumenta o risco de ansiedade e depressão.

2. Sistema imunológico

Durante o sono, o organismo produz citocinas que são proteínas que combatem infecções e inflamações. A sua privação prejudica essa produção, tornando o corpo mais vulnerável a doenças.

3. Metabolismo e ganho de peso

Também podem alterar a regulação de hormônios relacionados à fome e saciedade, como a grelina e a leptina. Isso pode favorecer o aumento do apetite e a resistência à insulina, contribuindo para o desenvolvimento de obesidade e diabetes tipo 2.

4. Saúde cardiovascular

A fragmentação do sono está associada a alterações na pressão arterial, aumento da frequência cardíaca e maior risco de doenças cardiovasculares. A apneia do sono, por exemplo, é um fator de risco reconhecido para hipertensão e infarto.

5. Desequilíbrios hormonais

O sono é fundamental para a liberação de hormônios como o GH (hormônio do crescimento), cortisol e melatonina. A interrupção desse ciclo pode prejudicar o funcionamento endócrino, especialmente em idosos e pessoas com rotinas irregulares.

Quando buscar ajuda?

Nem toda noite mal dormida indica um distúrbio. Mas se as dificuldades persistirem por mais de três semanas, ou se houver prejuízos visíveis na disposição física, desempenho mental ou estabilidade emocional, é importante buscar apoio profissional.

Um clínico geral, neurologista ou especialista em medicina do sono pode solicitar exames como a polissonografia e avaliar causas clínicas ou comportamentais.

Além do diagnóstico médico, algumas estratégias complementares podem auxiliar na regulação do sono:

  • Higiene do sono: manter um horário regular para dormir e acordar, evitar uso de telas antes de dormir, não consumir cafeína no período noturno, e criar um ambiente propício ao descanso.
  • Atividades físicas regulares: praticar exercícios leves durante o dia pode contribuir, desde que não sejam feitos muito próximos da hora de dormir.
  • Intervenções nutricionais: avaliar deficiências de vitaminas e minerais que afetam o sono, como magnésio, vitamina D e complexo B.
  • Uso de recursos naturais: em alguns casos, sob orientação profissional, é possível considerar a suplementação com compostos que favorecem o sono fisiológico.

Um exemplo é a melatonina, hormônio naturalmente produzido pela glândula pineal, que atua na regulação do ritmo circadiano. Sua produção aumenta à noite, sinalizando ao corpo que é hora de dormir. Em situações de desequilíbrio, como jet lag, trabalho em turnos ou envelhecimento, a suplementação pode auxiliar na restauração do ciclo sono-vigília, reduzindo o tempo para adormecer e melhorando a qualidade geral do sono.

A importância da regulação do ritmo circadiano para a saúde

O ritmo circadiano é o ciclo biológico que organiza diversas funções do corpo ao longo de 24 horas, incluindo o sono. Sua regulação depende, principalmente, da exposição à luz natural, que sinaliza ao cérebro os momentos ideais para estar alerta ou descansar.

Quando esse ritmo se desorganiza, como em casos de turnos noturnos, uso excessivo de telas ou mudanças de fuso horário, o padrão de sono é afetado.

Para restaurar esse equilíbrio, é essencial manter horários regulares, reduzir estímulos luminosos à noite e criar um ambiente propício ao descanso. Em algumas situações, a orientação profissional pode incluir estratégias complementares, como a suplementação adequada.

Cuidar da qualidade do sono é investir em saúde preventiva, longevidade e bem-estar. Os seus distúrbios não devem ser normalizados nem tratados com soluções imediatistas. Identificar as causas, ajustar hábitos e, quando necessário, buscar suporte especializado é o caminho mais seguro e eficaz para noites realmente reparadoras.

Referências:

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