Especialistas da Hapvida explicam como diálogo, rotina flexível e atividades simples ajudam a tornar o período mais criativo e equilibrado para as crianças

Durante as férias escolares, a mudança na rotina e o aumento do tempo livre costumam intensificar o uso de telas entre crianças. Por conta dos riscos do excesso de dispositivos eletrônicos, especialistas defendem uma abordagem mais construtiva, baseada no estímulo ao brincar, à criatividade e ao fortalecimento dos vínculos familiares.
De acordo com Fernanda Leandro de Souza Vasconcelos, psicóloga da Hapvida, a quebra brusca do planejamento diário interfere no comportamento infantil. “Uma rotina estabelecida oferece segurança e organização emocional. Com o tempo ocioso, os pequenos podem apresentar irritabilidade, agitação, regressões comportamentais, ansiedade ou até ficarem mais introspectivos”, explica.
Nesse contexto, o tédio, muitas vezes visto de forma negativa, pode assumir um papel importante no desenvolvimento. “É a oportunidade de a criança perceber e tolerar o vazio, trabalhar o tempo de espera, caminhar para a autorregulação e melhorar a frustração. A partir disso, surge a imaginação e o brincar espontâneo”, completa Fernanda.
Abertura para o diálogo
A psicóloga destaca que o diálogo costuma ser mais eficaz do que a imposição de regras rígidas. “Trabalhar com combinados e previsibilidade, como um quadro de rotina construído junto com a criança, ajuda a substituir o tempo ocioso por outras atividades, sem que a tela seja simplesmente proibida”, afirma.
Para ela, definir horários claros para o uso de dispositivos faz mais sentido quando os pequenos participam da decisão. Embora o uso de telas faça parte da infância atual, há sinais que merecem atenção.
“Quando seu filho deixa de se envolver em brincadeiras, apresenta grande irritabilidade ao perder o acesso aos dispositivos, baixa tolerância à frustração, dificuldades de comunicação e de interação, é importante observar”, alerta Fernanda.
Nesses casos, a orientação é acolher, explicar e oferecer alternativas acessíveis. “Brincar junto, cozinhar, dançar, usar o ‘faz de conta’, massinha ou caixas são recursos simples. O adulto precisa estar disponível para que a criança se sinta pertencente a essas atividades”, pontua.
Ela reforça que o tédio inicial é saudável e não deve ser imediatamente preenchido. “É desse espaço que nasce o impulso criativo”, ressalta.
Papel do brincar ativo nas férias
Segundo Palila Auad Matos dos Santos, terapeuta ocupacional da Hapvida, o foco das férias não deve ser “ocupar o tempo”, mas favorecer experiências significativas.
“Não é sobre excluir os dispositivos eletrônicos completamente, mas não os deixar ocupar o lugar do brincar, do corpo e da relação. Quando a criança vivencia experiências ricas fora das telas, o interesse por elas diminui naturalmente”, comenta.
Entre as estratégias mais eficazes estão atividades de vida diária transformadas em brincadeira, como cozinhar juntos, cuidar de plantas ou organizar brinquedos. “Essas propostas estimulam autonomia, coordenação motora e senso de pertencimento”, garante.
O brincar ativo também é essencial. “Circuitos com almofadas, pular corda, dançar ou jogos de equilíbrio ajudam a regular o corpo e as emoções, mesmo em espaços pequenos”, defende a especialista.
Palila ainda explica a importância do brincar livre e simbólico. “Caixas viram casas, panos viram capas e bonecos ganham histórias. Esse tipo de brincadeira desenvolve imaginação, linguagem e expressão emocional”, orienta.
Atividades sensoriais, como massinha, areia, água ou pintura com os dedos, também contribuem para a organização corporal e o engajamento prolongado.
Além disso, as brincadeiras fora de casa têm papel central durante as férias. “Parques, praças, quintais ou caminhadas oferecem estímulos que não podem ser reproduzidos em ambientes fechados. Subir, correr e se equilibrar fortalecem a coordenação motora e favorecem a interação social”, avisa.
Por isso, passeios simples, como ir à feira, à biblioteca, a uma sorveteria ou fazer um piquenique, também fortalecem vínculos e ampliam o repertório social dos pequenos.
Respeitar a idade faz diferença
Outro ponto fundamental, de acordo com Palila, é adequar as atividades à faixa etária. “Cada fase da infância apresenta habilidades específicas. Quando a proposta respeita a idade, a criança participa com prazer, sem frustração excessiva, e o brincar acontece de forma natural”, afirma.
Atividades muito difíceis tendem a desmotivar, enquanto as muito fáceis não oferecem desafio suficiente.
“Respeitar a idade não é limitar, mas propor desafios possíveis. Quando o adulto observa, adapta e acompanha, o filho se sente seguro para tentar algo novo”, reforça.
Para a terapeuta ocupacional, férias não precisam ser cheias de compromissos, mas ricas em experiências. “Às vezes, um parque no fim da tarde ou uma caminhada em família já transformam o dia”, conclui.
