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Mitos ainda afastam brasileiros da prevenção contra o câncer

Novos dados do INCA reforçam a urgência do diagnóstico precoce e do enfrentamento de crenças que adiam o cuidado

Dr. Carlos Fruet – Oncologista

Mesmo com os avanços da medicina e o maior acesso a informação, mitos ainda afastam grande parte da população da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer. O alerta se intensificou com dados recentes divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), que estimam 781 mil novos casos da doença por ano no Brasil no triênio 2026–2028, número que representa um aumento de aproximadamente 10,9% em relação à estimativa anterior, de 704 mil casos anuais para o período de 2023 a 2025.

“Não sinto nada”

Na prática, muitos tipos de câncer se desenvolvem de forma silenciosa, o que significa que a ausência de sintomas não indica, necessariamente, que a pessoa esteja saudável. Tumores de mama, próstata, intestino e tireoide, por exemplo, podem evoluir lentamente por anos antes de provocar sinais evidentes. “Grande parte dos diagnósticos acontecem justamente nos exames de rotina, quando o paciente não sente nada. Esperar os sintomas pode significar perder o melhor momento para o tratamento”, explica o oncologista Carlos Fruet.

Mitos ainda afastam brasileiros da prevenção contra o câncer
foto: Freepik

“Sou jovem”

“A idade deixou de ser um fator de proteção”, alerta Fruet. Acreditar que o câncer é uma doença restrita aos idosos é um mito recorrente. Os dados recentes, porém, contrariam essa percepção. Segundo o Painel Oncologia, do DataSUS, o número de diagnósticos entre pessoas de 18 a 50 anos cresceu 284% entre 2013 e 2024, chegando a 174,9 mil novos casos anuais, o que tem mudado o perfil da doença no país.

“Maus hábitos adquiridos precocemente, como tabagismo, consumo de álcool, alimentação baseada em ultraprocessados, obesidade e sedentarismo, têm impacto direto nesse cenário.”, continua o médico.

“Não tenho histórico familiar”

A ausência de casos na família também costuma gerar uma falsa sensação de segurança. Dados do INCA indicam que apenas de 5% a 10% dos casos de câncer têm origem hereditária. “O histórico familiar aumenta o risco, mas não tê-lo não significa estar imune. O câncer pode surgir influenciado por fatores como os hábitos de vida”, afirma o médico.

“Depois eu vejo”

A rotina corrida faz com que os exames preventivos fiquem em segundo plano, o que contribui para diagnósticos tardios. Nesse contexto, os hábitos saudáveis ganham ainda mais importância.

“Exame sempre acha problema”

O receio de descobrir alterações ainda afasta muitas pessoas dos consultórios, mas a lógica deve ser justamente o oposto. Quanto mais cedo uma doença é identificada, maiores são as chances de tratamento eficaz e menos agressivo. “A detecção precoce amplia significativamente as chances de um desfecho positivo e de tratamentos menos invasivos”, finaliza Fruet.