
O acesso à internet no Brasil vive uma fase de expansão contínua. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua): TICs indicam que, nos últimos dois anos, mais 6,1 milhões de brasileiros passaram a se conectar, levando o índice de usuários para 89,1% da população com 10 anos ou mais em 2024.
A banda larga fixa está presente em 88,9% dos domicílios com internet, enquanto a banda larga móvel alcança 84,3%. Regiões Norte e Nordeste lideram a expansão recente, com crescimento de 18,2% e 17,2% respectivamente entre 2019 e 2024, segundo o IBGE.
Além disso, a internet brasileira está cada vez mais rápida. Entre abril e junho de 2025, o Brasil registrou velocidade média de 244,46 Mbps, segundo o Ranking Minha Conexão, crescimento de 20% em relação ao mesmo período de 2024. Mas velocidade não é tudo: para quem joga online ou trabalha em casa com videochamadas, existe um fator ainda mais importante, a latência.
Latência, também chamada de ping, é o tempo que um pacote de dados leva para ir do seu dispositivo até o servidor e voltar. Medido em milissegundos (ms), esse tempo de resposta pode fazer a diferença entre acertar ou errar um tiro no jogo, entre uma reunião fluida ou travada.
“Muita gente contrata um plano de 500 mega e continua tendo problemas nos jogos. Isso acontece porque olham só para a velocidade, mas não entendem que o ‘caminho’ que os dados percorrem pode causar instabilidade e aumento de ping”, explica o CEO da NoPing, Thomas Gandini.
Cabo ethernet: a escolha dos gamers profissionais
A conexão cabeada via ethernet continua sendo a preferida por jogadores profissionais. Segundo análise da nPerf, entre julho de 2024 e junho de 2025, a fibra óptica via cabo apresentou latência de apenas 14 ms (Vivo), contra 34 a 45 ms das redes móveis 5G das principais operadoras.
A vantagem do cabo não está apenas na velocidade bruta, mas na estabilidade. Enquanto o Wi-Fi está sujeito a interferências de paredes, dispositivos eletrônicos e até o micro-ondas da cozinha, o cabo oferece conexão direta, sem oscilações.
Para jogos competitivos, isso pode ser decisivo. “Em um jogos de tiro por exemplo, a diferença de 20 ou 30 milissegundos significa que você vê o adversário aparecer depois que ele já te viu. É praticamente impossível competir em alto nível sem conexão cabeada. No entanto, há uma desvantagem, a falta de mobilidade e necessidade de passar cabos pela casa e escritório”, complementa Gandini.
Victor Hugo Cebratelli, COO do Team Solid, reforça a importância da conexão cabeada no cenário competitivo: “Na nossa gaming house, todos os computadores são ligados via cabo ethernet. Não é questão de preferência, é requisito básico. Quando você está disputando prêmios de milhares de dólares, não pode arriscar perder uma partida por instabilidade de Wi-Fi”.
Wi-Fi: praticidade com ressalva
O Wi-Fi 5 GHz moderno consegue entregar velocidades altas, até 800 Mbps em condições ideais. “O problema é manter essa performance constante. Paredes, distância do roteador e número de dispositivos conectados afetam diretamente a qualidade”, completa o CEO da NoPing.
Em testes práticos reportados por usuários, a mesma conexão que entrega 250 Mbps via Wi-Fi 5 GHz pode cair para 80 Mbps via Wi-Fi 2.4 GHz e, pior, apresentar variações de ping (jitter) que causam o famoso “lag imprevisível”.
Para trabalho remoto com videochamadas no Zoom ou Teams, uma conexão Wi-Fi bem configurada, com roteador próximo e poucos obstáculos, pode atender bem. Mas para quem faz transmissões ao vivo (streaming na Twitch ou YouTube) ou joga de forma competitiva, as limitações aparecem.
“Uma dica interessante e prática para quem trabalha e joga em casa é posicionar o roteador em local central, sem paredes entre ele e seu dispositivo, e priorize a banda 5 GHz para atividades que exigem mais estabilidade”, ressalta Thomas.
“A gente testa muito isso com os jogadores. Mesmo em casas com Wi-Fi de última geração, quando fazemos treinos importantes ou classificatórias, sempre orientamos a usar cabo. O Wi-Fi pode funcionar bem 95% do tempo, mas aqueles 5% de instabilidade podem acontecer justamente no momento decisivo da partida”, complementa Cebratelli da Team Solid.
5G: alta velocidade, mas ainda instável para uso crítico
O 5G promete revolucionar a conectividade móvel, com velocidades que podem chegar a 10 Gbps e latência teórica de até 1 milissegundo. Na prática, os números são diferentes.
Segundo dados da nPerf coletados entre julho de 2024 e junho de 2025, o 5G no Brasil apresentou a velocidade média de download: 271 Mbps (Claro), 248 Mbps (Vivo) e 237 Mbps (TIM); e a latência média: 34 ms (Vivo), 41 ms (Claro) e 45 ms (TIM).
Embora sejam números expressivos, a latência do 5G ainda é superior à da fibra óptica cabeada (14 ms). Além disso, a tecnologia móvel sofre mais com variações de sinal causadas por obstáculos físicos, congestionamento da rede e distância das torres.
“O 5G é excelente para mobilidade. Se você precisa de internet rápida na rua, no transporte público ou viajando, é a melhor opção. Mas para uso fixo, em casa, a fibra ainda ganha em estabilidade”, afirma o CEO da NoPing. O 5G também exige infraestrutura, como celular compatível e cobertura adequada na região, algo que ainda não é realidade em boa parte do Brasil.
O drama invisível dos gamers: perda de pacotes
O Brasil tem 82,8% da população jogando games digitais, são mais de 170 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB) 2025. Desses, 82,4% já fizeram amizades online durante partidas e 71% se sentem mais motivados quando disputam contra outras pessoas. Mas há um inimigo silencioso prejudicando essa experiência: a perda de pacotes.
Perda de pacotes acontece quando parte dos dados enviados entre o computador do jogador e o servidor do jogo simplesmente não chega ao destino. O resultado é personagens que “se teleportam” na tela, comandos que não respondem, desconexões repentinas — e isso pode acontecer mesmo com alta velocidade contratada.
“Muita gente acha que é problema do jogo ou do computador, mas na verdade é a internet perdendo pedaços da informação no meio do caminho. Pode ter 1 Gbps de velocidade, mas se houver perda de pacotes, vai travar do mesmo jeito”, explica o especialista da NoPing.
Quando cada conexão é a melhor escolha
- Use cabo Ethernet se joga online de forma competitiva, trabalha com sistemas em tempo real, faz transmissões ao vivo ou usa desktop/console fixo.
- Utilize Wi-Fi se precisa de mobilidade dentro de casa, usa múltiplos dispositivos e faz videochamadas ocasionais, streaming e uso geral.
- Opte pelo 5G se precisa de internet em movimento, mora em área sem fibra óptica, usa principalmente smartphone ou não tem opção de cabeamento.
Especialistas recomendam uma abordagem híbrida: cabo para dispositivos fixos que exigem máxima performance, Wi-Fi para dispositivos móveis e uso geral, e 5G como backup ou para uso fora de casa.
“A melhor conexão é aquela que se adapta ao seu perfil de uso. Um gamer competitivo precisa de cabo. Uma família com vários dispositivos precisa de Wi-Fi robusto. Um profissional que viaja precisa de 5G. Não existe resposta única”, analisa Thomas.
