
Por Renato Asse, fundador da Comunidade Sem Codar*
A crença de que inteligência artificial “faz todo o trabalho” no desenvolvimento de software é um mito que cria mais frustração do que eficiência. A construção de três aplicativos (Vecbase, Vibe Planner e a migração do Blog da Comunidade Sem Codar) mostrou que sucesso no chamado vibe coding, programação assistida por IA para codar em tempo real, depende menos de tecnologia e mais de pensamento claro e estratégico. IA acelera, mas não substitui quem pensa, planeja e revisa o processo desde o início.
O desenvolvimento de software com apoio de inteligência artificial cresce de forma acelerada no mercado. Em 2025, análises baseadas na Stack Overflow 2025 Developer Survey mostraram que 84 % dos desenvolvedores já usam ou planejam usar ferramentas de codificação assistidas por essas tecnologias, com mais da metade fazendo isso no dia a dia, revelando esse tipo de recurso como parte da rotina de quem codifica, e não como novidade.
Entretanto, essa adoção massiva também carrega desafios: cerca de 25 % dos desenvolvedores relatam que pelo menos uma em cada cinco sugestões de código geradas por esses sistemas contém erros lógicos ou factuais, e quase metade do código produzido por esse tipo de ferramenta pode introduzir vulnerabilidades de segurança quando não é revisado adequadamente.
O Vecbase, por exemplo, só passou a funcionar conforme o esperado após três recomeços, justamente porque os comandos fornecidos à IA eram vagos e reativos, em vez de resultado de um planejamento estruturado. Dessa frustração surgiu o Vibe Planner, uma ferramenta criada para ajudar a clarificar requisitos antes mesmo de a primeira instrução ser digitada. Sem esse nível de clareza, a IA tende a gerar fragmentos de código desconexos, que aparentam funcionar à primeira vista, mas acabam exigindo retrabalho e correções posteriores.
Outro ponto comum de debate é a segurança. Há um certo alarmismo em torno da ideia de que apps gerados com IA são menos seguros. Na prática, ferramentas modernas de desenvolvimento já vêm com proteções integradas, como escaneamento automático e gestão de chaves sensíveis, o que reduz muitos riscos básicos. O problema real surge quando desenvolvedores pulam etapas, não leem alertas ou não ajustam configurações essenciais. Isso não é culpa da ferramenta, mas da falta de rigor na comunicação com ela.
O maior inimigo do vibe coding, porém, é a preguiça intelectual. Pular perguntas de clarificação, pedir múltiplas funcionalidades de uma vez ou não revisar instruções é um convite ao fracasso. Esses erros não são incomuns: pesquisas de mercado mostram que, apesar do uso crescente de IA, muitos desenvolvedores relutam em confiar plenamente na precisão das respostas e gastam tempo considerável depurando código em vez de validar seu raciocínio.
Alguns podem argumentar que exigir tanto cuidado retarda a produção e vai contra a promessa de agilidade que a IA oferece. Essa objeção perde força quando entendemos que agilidade sem direção cria dívida técnica e produtos frágeis. A diferença entre um protótipo impressionante e um software sustentável está no planejamento, na atenção aos detalhes e na qualidade da comunicação com a ferramenta.
Vibe coding não é uma fórmula mágica de substituição humana; é uma amplificação da nossa capacidade de pensar e construir. Planejar antes de executar, revisar com atenção e abandonar a preguiça ao definir instruções transforma IA em parceira de criação real, e não apenas um atalho ilusório.
*Renato Asse é fundador da Comunidade Sem Codar, a maior escola de No Code e IA da América Latina, com mais de 25 mil membros, já tendo implementado Agentes de Inteligência Artificial em empresas com 13 mil colaboradores.
