Caso no Hospital Fêmina, em Porto Alegre, evidencia limites terapêuticos, desafios assistenciais e importância dos protocolos de controle de infecção

A identificação da bactéria Acinetobacter baumannii em uma UTI Neonatal de Porto Alegre, associada ao óbito de um recém-nascido extremamente prematuro e à suspensão temporária de novas admissões no setor, levanta uma pergunta central para profissionais de saúde e para a população: o que, de fato, acontece quando uma superbactéria circula dentro de um hospital? A Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI) esclarece que esses episódios envolvem micro-organismos altamente resistentes, que encontram em pacientes vulneráveis e em ambientes de alta complexidade condições ideais para causar infecções graves.
No episódio, quatro pacientes testaram positivo entre 34 internados. A bactéria é reconhecida pela sua capacidade de resistência a múltiplos antibióticos, podendo, em alguns casos, ser classificada como pan-resistente, quando praticamente não há opções terapêuticas eficazes disponíveis. A causa final do óbito segue em investigação pelas autoridades de saúde, o que exige cautela na análise do desfecho clínico.
O médico infectologista e membro da Sociedade Gaúcha de Infectologia, Alessandro Pasqualotto, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que situações como essa expõem um dos maiores desafios da medicina contemporânea.
“Em situações extremas, a gente até tenta lançar mão de tudo o que está disponível, mas, muitas vezes, não há opções eficazes para reverter o quadro e devolver a vida do paciente. Em uma UTI neonatal, por exemplo, uma bactéria pode persistir por semanas no ambiente. Quando há infecção, as alternativas são limitadas. Em alguns casos, tenta-se abordagem cirúrgica, como a retirada de um foco infeccioso, por exemplo um abscesso. Mas, muitas vezes, estamos diante de um cenário de escassez terapêutica. Chega-se a combinar antibióticos sem garantia de eficácia, baseando-se em testes laboratoriais que nem sempre se traduzem em resposta no organismo humano. É um desafio científico enorme.”
Segundo o especialista, essas bactérias se disseminam com mais facilidade em ambientes críticos, onde há grande circulação de pacientes com imunidade reduzida e uso frequente de dispositivos invasivos. “Essas bactérias resistentes se disseminam com facilidade, especialmente em ambientes críticos. Por isso, medidas básicas como a higienização das mãos entre um paciente e outro são fundamentais. Além disso, há um problema estrutural: o uso excessivo de antibióticos, tanto no ambiente hospitalar quanto na comunidade. Esses medicamentos acabam sendo descartados e chegando à água, ampliando a exposição das bactérias e favorecendo o desenvolvimento de resistência.”
A SGI destaca que o fechamento temporário de uma unidade, como ocorreu no caso, é uma medida técnica prevista em protocolos de controle de infecção hospitalar. A ação busca interromper a cadeia de transmissão, revisar processos assistenciais, intensificar a higienização e garantir a segurança de pacientes e equipes.
Outro aspecto importante é a diferença entre colonização e infecção. Pacientes podem portar a bactéria sem apresentar sintomas, mas, em condições de maior fragilidade, como no caso de recém-nascidos prematuros, a evolução para infecção pode ocorrer de forma rápida e grave. O uso de cateteres, sondas e outros dispositivos facilita a entrada desses micro-organismos no organismo.
A resistência antimicrobiana, segundo a entidade, é hoje um dos principais desafios da saúde global, agravado pelo uso inadequado de antibióticos, especialmente após a pandemia, quando houve aumento significativo de prescrições sem confirmação de infecção bacteriana.
Nesse cenário, a orientação é clara: o uso de antibióticos deve ser criterioso, baseado em diagnóstico preciso e, sempre que possível, guiado pela identificação do agente causador. Protocolos rigorosos de controle de infecção e práticas seguras seguem sendo fundamentais para reduzir riscos e proteger vidas.
Bactérias resistentes entram no centro do debate científico no 7º InfectoTchê
O tema das bactérias extensamente resistentes será um dos destaques do 7º InfectoTchê, promovido pela Sociedade Gaúcha de Infectologia (SGI), que ocorre nos dias 22 e 23 de maio de 2026, no Hotel Hilton Porto Alegre, reunindo especialistas nacionais e internacionais para discutir os principais desafios contemporâneos da Infectologia. A programação inclui painéis específicos voltados ao manejo clínico, à epidemiologia e às estratégias de prevenção relacionadas a micro-organismos multirresistentes, com foco em situações críticas como as vivenciadas em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva. O objetivo é qualificar a tomada de decisão dos profissionais de saúde diante de cenários de alta complexidade assistencial, ampliando o debate científico e o impacto direto na segurança do paciente.
Redação: Marcelo Matusiak
