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Descompasso hormonal desafia a saúde da mulher moderna no Brasil

Mais ativas economicamente e vivendo mais, brasileiras enfrentam aumento de distúrbios hormonais, como a Síndrome dos Ovários Policísticos, em um cenário que combina mudanças sociais, sobrecarga e impactos metabólicos

Isabela Simionatto é ginecologista e obstetra

Campinas, SP: A mulher brasileira nunca esteve tão presente no mercado de trabalho, tão ativa socialmente e com maior expectativa de vida, mas esse avanço vem acompanhado de um alerta crescente: o corpo feminino não evoluiu no mesmo ritmo das transformações sociais e o resultado tem sido um aumento significativo de alterações hormonais ao longo da vida. Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia mostram que a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das principais desordens hormonais femininas, atinge cerca de 6% a 16% das mulheres em idade reprodutiva. Segundo a entidade, a condição, que vai muito além da fertilidade, está associada a alterações metabólicas, resistência à insulina, ganho de peso, irregularidade menstrual e maior risco cardiovascular.

Esse cenário se insere em um contexto mais amplo de mudanças no perfil da população feminina, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, por meio da Pesquisa Nacional de Saúde, as mulheres brasileiras vivem mais do que os homens e têm participação crescente na força de trabalho, muitas vezes acumulando múltiplas jornadas, profissionais, domésticas e familiares. Para a ginecologista e obstetra Ana Carolina Massarotto, esse novo estilo de vida tem impacto direto sobre o eixo hormonal, o organismo feminino responde de forma muito sensível a fatores como estresse crônico, privação de sono, alimentação inadequada e sedentarismo. “O que vemos hoje é um aumento de quadros de desregulação hormonal que começam cada vez mais cedo e se estendem por toda a vida reprodutiva e além. A SOP é um exemplo emblemático desse desequilíbrio, embora tenha componente genético, sua manifestação está fortemente ligada ao estilo de vida contemporâneo, a resistência à insulina, frequentemente associada ao consumo de alimentos ultraprocessados e à baixa atividade física, é um dos principais gatilhos para o desenvolvimento da síndrome”, explica.

De acordo com a ginecologista e obstetra Isabela Simionatto, o problema é muitas vezes subdiagnosticado ou tratado de forma isolada. A SOP não é apenas uma questão ginecológica, ela envolve metabolismo, saúde cardiovascular e até saúde mental. “Muitas pacientes chegam ao consultório focadas apenas na irregularidade menstrual ou dificuldade para engravidar, mas o impacto é muito mais amplo e de longo prazo. Além disso, o chamado descompasso hormonal também se manifesta em outras fases da vida. Mulheres entre 35 e 45 anos já relatam sintomas típicos do climatério, como alterações de humor, fadiga e queda de libido, muitas vezes confundidos com consequências da rotina intensa”, conta a médica.

A sobrecarga feminina é um fator central nesse processo, ainda segundo dados da PNS, mulheres dedicam, em média, mais horas semanais a tarefas domésticas e cuidados com outras pessoas, mesmo quando inseridas no mercado de trabalho. Esse acúmulo contribui para níveis elevados de estresse, um dos principais desreguladores do eixo hormonal. “Existe uma expectativa social de que a mulher dê conta de tudo e isso cobra um preço biológico, o corpo entra em estado de alerta constante, o que interfere diretamente na produção hormonal e pode desencadear ou agravar diversas condições clínicas”, reforça Ana Carolina.

Diante desse cenário, especialistas defendem uma mudança de abordagem na saúde da mulher, com foco em prevenção e acompanhamento contínuo e não apenas em momentos pontuais, como tentativas de gestação ou chegada da menopausa. É fundamental olhar para a saúde hormonal de forma integrada e ao longo de toda a vida, considerando não apenas sintomas, mas também o contexto social, emocional e metabólico de cada mulher.

 

Sobre as médicas:

 

Ana Carolina Massarotto: médica graduada pela Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, CRM Ginecologista e Obstetra pelo Hospital e Maternidade Celso Pierro da PUC-Campinas, especializada em endoscopia ginecológica pelo Hospital das Clínicas – USP, em Ribeirão Preto. Mestre em Ciências e Saúde pela PUC-Campinas, com a dissertação “Radioterapia parcial e acelerada de mama utilizando braquiterapia de alta taxa de dose para pacientes com estádio inicial de câncer de mama: análise uni-institucional.

 

Ana Carolina Massarotto

Ginecologista e Obstetra

CRM 140.915

RQE 85.445

@draanacarolinamassarotto

 

Isabela Simionatto: médica graduada pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, CRM 162.975. Ginecologista e Obstetra pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, especializada em Medicina Fetal. É titulada pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

Isabela Simionatto

Ginecologista e Obstetra

CRM 162.975

RQE 76.990

@dra.isabelasimionatto