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Além da Velocidade: “fatiamento” do 5G recria internet para empresas

O Network Slicing surge como a grande virada para as necessidades críticas do setor B2B

Créditos: Divulgação

Uma revolução silenciosa está em curso na infraestrutura digital brasileira através do 5G Standalone (SA). Restrito ao ambiente corporativo (B2B), o Network Slicing começa a transformar a performance das empresas ao permitir a criação de “fatias” virtuais personalizadas sobre uma única rede física. Diferente das gerações anteriores, a conectividade deixa de ser um recurso genérico para se tornar um serviço moldável, garantindo que o hardware atenda a demandas específicas com alta eficiência.

No antigo cenário do 4G, todos os usuários dividiam o mesmo “espaço” de banda, independentemente de suas necessidades técnicas. Isso frequentemente causava lentidão em momentos de pico, mesmo quando o uso não exigia grandes volumes de dados. Com o fatiamento de rede, o 5G transforma a infraestrutura em um sistema flexível.

Na prática, uma empresa pode “alugar” uma fatia personalizada da operadora, atuando como uma rede privada que reduz custos de infraestrutura (CAPEX) e acelera o time-to-market.

A relevância global dessa tecnologia é confirmada por dados recentes do mercado. O relatório Ericsson Mobility Report (EMR) de novembro de 2025 estima que, até 2031, haverá 6,4 bilhões de usuários de 5G em todo o mundo. O estudo identificou 118 experimentos de network slicing conduzidos por 56 operadoras globais. Destes, 65 superaram a fase de prova de conceito e já se tornaram serviços comerciais ofertados por 33 grandes empresas de telecomunicações.

A grande vantagem competitiva do network slicing reside na previsibilidade e no isolamento total do tráfego de dados. Essa tecnologia garante que o consumo massivo de vídeos em 8K em uma área urbana não interfira, por exemplo, em uma cirurgia robótica que exige latência próxima de zero.

Pela primeira vez, operadoras podem assegurar contratualmente (SLAs) indicadores de performance extremos, como 1ms de latência e 99,999% de disponibilidade, níveis antes inalcançáveis em redes compartilhadas.

As aplicações práticas já desenham o futuro de diversos setores verticais da economia. Na Indústria 4.0, o fatiamento viabiliza robôs colaborativos e veículos autônomos (AGVs) com total segurança operacional. Na saúde, permite a telemedicina com resposta tátil em tempo real. Já em grandes eventos e estádios, é possível separar uma fatia para o público geral e outra exclusiva para transações financeiras e transmissões de TV, evitando gargalos de sinal mesmo com milhares de conexões.

Para entender visualmente o conceito, imagine o funcionamento de uma rodovia moderna. No 4G, celulares, carros inteligentes e sensores dividiam a mesma pista; se houvesse um congestionamento de vídeos no YouTube, até a ambulância ficava lenta.

No 5G, uma reportagem do portal Futurecom mostra que Network Slicing cria três faixas exclusivas: uma de alta velocidade para streaming (eMBB), uma de emergência com prioridade absoluta para missões críticas (URLLC) e uma terceira para milhões de dispositivos de IoT (mMTC).

Atualmente, o consumidor comum ainda adquire planos de internet baseados em volume de dados (GB). Isso ocorre porque a navegação padrão em redes sociais e vídeos opera bem no 5G comercial. O fatiamento, por sua vez, é desenhado para aplicações críticas que exigem isolamento de tráfego.

Contudo, o futuro aponta para a personalização extrema, onde o usuário poderá contratar um “gaming slice” para latência mínima em e-sports ou um “streaming slice” para downloads instantâneos.

Para as empresas, o network slicing abre as portas para que deixem de ser apenas consumidoras de conectividade e passem a ser provedoras de novos serviços digitais. Ao garantir fatias de rede com performance dedicada, companhias podem monetizar ofertas baseadas em “Conectividade como Serviço” (CaaS), criando pacotes premium para aplicações de nicho. Isso permite, por exemplo, que uma empresa de logística cobre mais por entregas monitoradas em tempo real com garantia de conexão ininterrupta.

Além da eficiência operacional, o fatiamento de rede estimula a criação de ecossistemas de inovação conjunta entre teles e verticais de indústria. Modelos de negócio baseados em compartilhamento de receita (revenue share) e cobranças por qualidade de serviço (SLA) devem se tornar o padrão, substituindo o simples faturamento por volume de dados.

No fim do dia, o network slicing não é apenas uma evolução técnica, mas a base de uma nova economia digital mais ágil, segura e altamente rentável.