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O estádio que o torcedor não vê: a engenharia digital por trás dos palcos da Copa de 2026

Créditos: Freepik

Por Carlos Costa, diretor técnico e comercial de Tekla no Brasil

No dia 24 de junho, quando a Seleção Brasileira entrar em campo no Hard Rock Stadium para enfrentar a Escócia, milhões de espectadores vão acompanhar o jogo sem perceber que o palco da partida foi reformado a partir de um modelo digital tridimensional preciso ao milímetro. A obra de US$ 500 milhões que adicionou ao estádio o dossel aberto e as quatro torres brancas características usou a tecnologia do Tekla Structures como ferramenta de modelagem estrutural e antes do primeiro corte de aço, todas as peças já existiam dentro de um modelo coordenado por engenheiros, fabricantes e montadores.

O caso não é isolado. Os estádios que recebem a Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México foram, em sua maioria, construídos ou reformados com BIM (Building Information Modeling) na base do projeto.

Coberturas, vãos livres e a complexidade que justifica o modelo

O SoFi Stadium, em Los Angeles, palco de Estados Unidos x Paraguai em 12 de junho, é o exemplo mais radical desse movimento. A cobertura translúcida do tipo indoor-outdoor, com 22 mil toneladas de aço e o videopainel circular Oculus suspenso sob ela, exigiu modelagem com tolerância de 10 milímetros em vãos de centenas de metros. Sem coordenação digital, esse nível de precisão não se sustenta, ou se sustenta ao custo de retrabalho que inviabiliza qualquer cronograma.

No Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, o desafio foi outro: a primeira cobertura retrátil em formato de oito pétalas, que se abre como o diafragma de uma câmera fotográfica. Sincronizar o movimento das peças, dimensionar cargas dinâmicas e garantir o encaixe milimétrico no fechamento exigiu um modelo único, compartilhado por engenheiros estruturais, fabricantes de aço, montadores e equipe de operação.

O AT&T Stadium, em Dallas, recebe três jogos com participação de seleções sul-americanas, incluindo Argentina x Áustria em 22 de junho. Sua marca registrada são os arcos-treliça de 1.225 pés (373 metros), segmentos fabricados em plantas industriais distintas e conectados em obra com a precisão que apenas modelagem digital permite.

Wembley como precedente

Essa não é uma prática recente. A reconstrução do Wembley Stadium, em Londres, com seus 90 mil assentos e o arco icônico de 133 metros de altura, foi entregue há quase duas décadas a partir de um modelo cuja malha principal contava com aproximadamente 2.500 pontos de interseção calculados com oito casas decimais de milímetro. As 215 mil toneladas de concreto e as 23 mil toneladas de aço da obra foram coordenadas por meio de um BIM consolidado a partir de 160 modelos de fase. O arco, fabricado em segmentos de 21 metros e 100 toneladas, foi montado em solo e içado por macaco hidráulico até a posição final, manobra que sem coordenação geométrica precisa em ambiente digital seria temerária.

Mais ao sul, em Perth, na Austrália, o Optus Stadium foi entregue três semanas adiantado em relação ao cronograma original. O fluxo de revisão estrutural baseado em modelo, desenvolvido para o projeto, reduziu cerca de 50% do tempo de checagem e retrabalho de engenharia.

O Brasil já passou por essa curva

A discussão sobre adoção de BIM no país costuma se concentrar nos prazos do Decreto Federal e em obras públicas de infraestrutura. O setor de arenas esportivas é um capítulo à parte e que pouca gente associa.

Pelo menos dez estádios brasileiros de classe mundial foram modelados em Tekla, segundo a Trimble. A Arena Amazônia, em Manaus, é o caso mais conhecido. Inaugurada em 2014, com 44.500 lugares e cobertura inspirada em cestas de palha indígenas, recebeu uma estrutura de 7.000 toneladas de aço cobrindo 23.000 m². A Martifer Construções alocou 50 profissionais ao projeto e modelagem, e cerca de 520 trabalhadores ao canteiro, e entregou a obra usando Tekla para coordenar vigas curvas que exigiam controle exato em mais de 20 pontos de coordenadas. O trabalho em um único modelo compartilhado gerou ganho de eficiência de 30%, e a customização via Open API rendeu mais 20% em produtividade.

A Arena da Baixada, em Curitiba, seguiu caminho semelhante. A Brafer Construções Metálicas modelou em Tekla a nova estrutura de aço, com 4.500 toneladas e treliças de 10 metros de altura por 4,5 de largura, capazes de vencer um vão livre de 200 metros sobre as arquibancadas.

São referências brasileiras que precedem boa parte dos estádios da Copa de 2026.

A direção do mercado

O que muda hoje, mais de uma década depois das obras de 2014, é o nível de detalhamento esperado. Modelagem estrutural com LOD elevado, fabricação assistida por modelo, clash detection semanal e coordenação em nuvem entre escritórios distintos viraram rotina em projetos de qualquer complexidade, de arenas multiuso a terminais aeroportuários, hospitais de grande porte e centros logísticos com longos vãos metálicos.

A consequência é direta para o engenheiro brasileiro: as ferramentas que viabilizaram coberturas retráteis, arcos de 373 metros e cronogramas três semanas adiantados em obras de bilhões de dólares estão disponíveis para escritórios de qualquer porte, com retorno mensurável em redução de retrabalho, prazo e desperdício de material.

Voltando ao Hard Rock

Quando Brasil e Escócia se enfrentarem em Miami, dezenas de milhares de torcedores no estádio, e os milhões em casa, verão o jogo. Não verão os arcos, as treliças, os meses de coordenação entre fabricantes e montadores. A boa engenharia some atrás do que viabiliza. O modelo digital é o que torna esse desaparecimento previsível, replicável e cada vez mais ao alcance de qualquer escritório de projeto.

Sobre a Trimble

A Trimble é uma empresa de tecnologia industrial que está transformando a maneira como o mundo trabalha, fornecendo soluções que permitem que nossos clientes prosperem. As principais tecnologias em posicionamento, modelagem, conectividade e análise de dados conectam os mundos digital e físico para melhorar a produtividade, a qualidade, a segurança, a transparência e a sustentabilidade. De produtos específicos a soluções empresariais de ciclo de vida, a Trimble transforma indústrias como agricultura, construção, geoespacial e transporte. Para mais informações sobre a Trimble (NASDAQ:TRMB), acesse trimble.com.