Estudo internacional identifica tendência e reforça que causas ainda não são totalmente compreendidas; no Brasil, avanço da obesidade e mudanças no estilo de vida aproximam o país desse cenário

O aumento de casos de câncer em adultos jovens, fenômeno que vem sendo observado de forma consistente em diferentes países, acaba de ganhar novas pistas, mas ainda está longe de ter uma explicação definitiva. Trata-se de uma tendência que vem intrigando a comunidade científica nos últimos anos e levantando questionamentos sobre possíveis mudanças no perfil de risco dessa população.
Uma análise ampla conduzida por pesquisadores do Institute of Cancer Research e do Imperial College London, com dados populacionais da Inglaterra entre 2001 e 2019, identificou crescimento na incidência de 11 tipos de câncer em pessoas entre 20 e 49 anos. Entre eles estão tumores de mama, intestino, pâncreas, rim e tireoide, além de outros menos frequentes nessa faixa etária, como mieloma múltiplo, fígado, vesícula biliar, endométrio, boca e ovário. O dado reforça a percepção de que o câncer, tradicionalmente associado ao envelhecimento, tem apresentado mudanças importantes em sua distribuição etária.
Apesar do avanço, o principal achado do estudo não é uma resposta conclusiva, mas um alerta relevante: os fatores clássicos de risco, considerados até então centrais para explicar a doença, não são suficientes para dar conta desse aumento.
O que muda na forma de entender o câncer em jovens
Até aqui, a hipótese mais intuitiva era que o crescimento desses tumores estivesse diretamente ligado a comportamentos conhecidos, como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e alimentação inadequada. Esses fatores seguem sendo importantes, mas os dados indicam que a equação é mais complexa do que se imaginava.
“Esse é um estudo muito relevante porque traduz, com dados robustos de base populacional, uma percepção que já vinha sendo observada na prática clínica: o aumento da incidência de câncer em pacientes mais jovens”, explica Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co. “Ao mesmo tempo, ele reforça que estamos diante de um fenômeno multifatorial, que não pode ser explicado por uma única causa.”
Ao analisar tendências populacionais ao longo de quase duas décadas, os pesquisadores observaram um cenário que contraria expectativas. Indicadores como tabagismo e consumo de álcool apresentaram queda consistente, enquanto a prática de atividade física aumentou em alguns grupos. O consumo de carne vermelha e processada também diminuiu no período analisado.
Em outras palavras, muitos dos fatores tradicionalmente associados ao câncer melhoraram ao longo do tempo e, ainda assim, a incidência da doença cresceu entre os mais jovens, sugerindo a atuação de outros elementos ainda não completamente compreendidos.
“O estudo muda a lógica da discussão. Ele mostra que não dá mais para explicar esse aumento apenas com os fatores clássicos que sempre usamos. Existe algo além, e isso ainda precisa ser melhor compreendido”, afirma o especialista.
Entre todos os fatores analisados, apenas um seguiu a mesma trajetória de crescimento observada no câncer: o aumento do sobrepeso e da obesidade na população. Esse achado chama atenção porque o excesso de gordura corporal já é reconhecido como um fator de risco relevante para diversos tipos de tumor.
O índice de massa corporal elevado está associado à maioria dos cânceres avaliados no estudo e pode, de fato, explicar parte do aumento dos casos. Ainda assim, essa relação está longe de ser suficiente para justificar a magnitude do fenômeno observado.
No caso do câncer colorretal, por exemplo, a estimativa é que cerca de 20% dos novos diagnósticos em jovens possam ser atribuídos ao excesso de peso. A grande maioria, aproximadamente 80%, permanece sem explicação definida, o que reforça a hipótese de múltiplos fatores atuando de forma combinada.
“É importante fazer uma distinção: o estudo não diz que a obesidade, isoladamente, causa esse aumento. Ela é um fator associado relevante, mas não explica todo o fenômeno”, pondera Carlos Gil. “Provavelmente estamos lidando com uma combinação de exposições, algumas ainda pouco compreendidas.”
E no Brasil? Tendência acende alerta
Embora o estudo tenha sido conduzido na Inglaterra, especialistas apontam que o cenário brasileiro pode seguir uma tendência semelhante, especialmente por compartilhar mudanças recentes no estilo de vida da população. O país vem registrando aumento expressivo nas taxas de sobrepeso e obesidade, além de transformações nos padrões alimentares e de atividade física.
Dados apresentados no Congresso Internacional sobre Obesidade (ICO) indicam que cerca de 48% dos brasileiros adultos vivem com obesidade, e outros 27% podem estar com sobrepeso até 2044.
“No Brasil, a gente vive uma epidemia silenciosa de obesidade, especialmente entre adultos jovens, e isso raramente vem isolado”, afirma o oncologista. “Obesidade, sedentarismo e alimentação baseada em ultraprocessados costumam caminhar juntos e potencializar seus efeitos.”
Segundo ele, há mecanismos biológicos que ajudam a explicar essa associação. “O excesso de peso está ligado a alterações hormonais, como aumento da insulina, e a estados inflamatórios crônicos, que são reconhecidamente relacionados ao desenvolvimento de vários tipos de câncer.”
Esse contexto aproxima o Brasil de outras nações onde o fenômeno já foi identificado, levantando a preocupação de que padrões semelhantes de aumento do câncer em jovens possam emergir ou já estejam em curso, ainda que os dados nacionais sejam mais limitados.
“O Brasil vive uma transição epidemiológica semelhante à de outros países, e isso acende um alerta importante para o futuro, especialmente em tumores associados a fatores metabólicos”, completa.
Um quebra-cabeça ainda em aberto
Os próprios autores destacam que o aumento do câncer em jovens provavelmente resulta da combinação de diferentes fatores, muitos deles ainda em investigação e de difícil mensuração em estudos populacionais. A complexidade do fenômeno sugere que não há uma única causa, mas sim uma interação entre exposições ao longo da vida.
Entre as hipóteses levantadas estão o consumo crescente de alimentos ultraprocessados, alterações na microbiota intestinal, exposição a poluentes ambientais, uso de antibióticos na infância e processos inflamatórios crônicos. Também se discute se o avanço dos métodos diagnósticos e maior acesso a exames podem estar contribuindo para detectar mais casos em fases precoces.
“Existem fatores emergentes que ainda não conseguimos medir bem em estudos populacionais, como exposições ambientais ou mesmo alterações na microbiota. Isso exige outros desenhos de pesquisa para avançar nessa compreensão”, diz Carlos Gil.
Até o momento, no entanto, nenhum desses fatores, isoladamente, consegue explicar o crescimento observado, o que mantém o tema em aberto para novas pesquisas.
Apesar da preocupação, os pesquisadores reforçam que o câncer em jovens continua sendo relativamente raro quando comparado às faixas etárias mais avançadas. Esse ponto é fundamental para contextualizar o debate e evitar interpretações distorcidas dos dados.
A incidência anual gira em torno de um caso a cada 1.000 pessoas entre 20 e 49 anos, enquanto nas faixas etárias mais velhas esse número é cerca de dez vezes maior, chegando a um caso a cada 100 indivíduos.
Isso significa que, embora o aumento mereça atenção e investigação, o risco absoluto ainda é significativamente mais elevado com o envelhecimento.
“Se há uma mensagem prática para a população, ela continua sendo a mesma: prevenção, atenção a sintomas e busca por avaliação médica adequada. Isso é o que realmente pode fazer diferença no diagnóstico mais precoce”, conclui Carlos Gil Ferreira.
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co, um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil, oferece um modelo hiperespecializado e inovador voltado para toda a jornada oncológica do paciente. Presente em mais de 140 unidades em 49 cidades, a companhia reúne um corpo clínico formado por mais de 1.700 médicos especializados na linha de cuidado do paciente oncológico. Com a missão de democratizar o acesso à oncologia de excelência, realizou cerca de 593 mil tratamentos nos últimos 12 meses. Com foco em pesquisa, tecnologia e inovação, a Oncoclínicas segue padrões internacionais de alta qualidade, integrando clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, potencializando o tratamento com medicina de precisão e genômica. É parceira exclusiva no Brasil do Dana-Farber Cancer Institute, afiliado à Harvard Medical School, e mantém iniciativas globais como a Boston Lighthouse Innovation (EUA) e a participação na MedSir (Espanha). Integra ainda o índice IDIVERSA da B3, reforçando seu compromisso com a diversidade. A Oncoclínicas também mantém uma joint venture com o Grupo Al Faisaliah, da Arábia Saudita levando sua expertise oncológica para um novo continente. Saiba mais em: www.oncoclinicas.com.
