Questões sensoriais, dificuldades de comunicação e falta de profissionais capacitados fazem com que consultas odontológicas sejam adiadas, ampliando riscos à saúde e ao bem-estar de milhões de brasileiros com TEA

Pela primeira vez, o Brasil tem um retrato oficial da população com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Dados divulgados pelo IBGE em 2025, com base no Censo Demográfico de 2022, mostram que 2,4 milhões de brasileiros receberam diagnóstico de autismo, o equivalente a 1,2% da população nacional. O levantamento também revelou maior prevalência entre homens e concentração de casos na faixa de 5 a 9 anos.
Por trás desses números existe uma realidade pouco debatida fora do ambiente familiar, que a saúde bucal está entre os cuidados mais difíceis de serem mantidos por muitas pessoas com TEA. Para a cirurgiã-dentista Dra. Cristiane Vasconcellos, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora da Odontolar, clínica com atuação em PCDs, odontogeriatria, home care e odontologia hospitalar em Vitória, e especialista no atendimento de pacientes com necessidades específicas, o desafio vai muito além da escovação.
“Em muitos casos, a dificuldade começa com a rejeição ao toque, à textura da escova, ao sabor do creme dental ou até ao simples ato de abrir a boca. São questões sensoriais que podem transformar uma atividade cotidiana em uma experiência extremamente desconfortável.”
O crescimento dos diagnósticos também amplia a necessidade de serviços de saúde preparados para atender essa população. Embora o atendimento odontológico seja um direito garantido pelo SUS, muitas famílias ainda encontram dificuldades para acessar profissionais capacitados, ambientes adaptados e abordagens compatíveis com as necessidades de pacientes neurodivergentes.
Para a Dra. Cristiane, trata-se de uma questão de saúde pública. “Estamos falando de uma população que cresce em visibilidade e em acesso ao diagnóstico, mas que ainda encontra dificuldades para receber um atendimento odontológico adequado. A inclusão também precisa estar presente nos serviços de saúde e nos consultórios.”
Quando escovar os dentes se torna um desafio diário
A hipersensibilidade sensorial é uma característica comum em pessoas com TEA e pode afetar diretamente a rotina de higiene bucal. Sons, cheiros, luzes, texturas e sensações táteis podem provocar desconforto intenso, dificultando tanto a escovação quanto o uso do fio dental.
Segundo a odontologista, o problema se agrava quando o paciente associa experiências negativas anteriores ao atendimento odontológico. “Muitas famílias chegam ao consultório após anos evitando atendimento porque a criança ou o adulto passou por uma experiência traumática. Isso cria um ciclo difícil de romper. A consulta gera ansiedade, a ansiedade leva ao adiamento do tratamento e, com o tempo, os problemas bucais se agravam.”
A consequência costuma aparecer em forma de cáries extensas, gengivites, dor, infecções e necessidade de procedimentos mais complexos, que poderiam ser evitados com acompanhamento preventivo.
Impactos que vão além da boca
Problemas odontológicos podem comprometer alimentação, sono, comunicação e comportamento. Em pessoas com TEA que apresentam dificuldades de comunicação verbal, identificar dor ou desconforto costuma ser ainda mais difícil.
“Nem sempre a pessoa consegue dizer que está sentindo dor. O que os familiares observam são alterações no sono, na alimentação, crises de irritabilidade ou comportamentos repetitivos mais intensos. Em alguns casos, a origem do problema está na saúde bucal”, afirma.
Além dos impactos clínicos, existe uma carga emocional significativa para pais e cuidadores. A rotina de higiene frequentemente exige adaptações constantes, enquanto consultas odontológicas podem gerar ansiedade devido a experiências traumáticas anteriores.
“É comum encontrar famílias emocionalmente exaustas. Muitos pais carregam um sentimento de culpa por não conseguirem realizar a higiene ideal, quando na verdade enfrentam barreiras que exigem conhecimento técnico e abordagens específicas”, observa a especialista.
Quando a prevenção falha, o custo financeiro também aumenta. Tratamentos corretivos, procedimentos sob sedação e atendimentos hospitalares podem representar despesas muito superiores às de um acompanhamento preventivo regular. Quando não conseguimos um contato amoroso com o paciente e um tratamento convencional, é necessário fazermos a sedação ou atendimentos em hospitais.
Falta de profissionais preparados ainda é uma barreira
Outro desafio enfrentado pelas famílias é encontrar profissionais capacitados para atender pacientes neurodivergentes. Apesar dos avanços na discussão sobre inclusão, ainda há escassez de dentistas preparados para lidar com as particularidades sensoriais, comportamentais e comunicacionais associadas ao TEA.
Não é raro que famílias passem por diversos consultórios antes de encontrar atendimento adequado. Em muitos casos, consultas são interrompidas, tratamentos ficam incompletos e a experiência negativa reforça a resistência do paciente a novos atendimentos.
“Algumas famílias chegam depois de ouvir que o paciente era ‘difícil de atender’ ou que precisava simplesmente colaborar mais. Esse tipo de abordagem gera frustração e aumenta a insegurança dos responsáveis, que acabam adiando novas consultas por receio de repetir a experiência”, afirma Cristiane.
Segundo ela, o preparo necessário vai além do conhecimento odontológico. “O profissional precisa compreender o funcionamento daquele paciente, respeitar seus limites, adaptar a comunicação e construir confiança. O tratamento não pode ser padronizado porque cada pessoa dentro do espectro apresenta necessidades diferentes.”
Prevenção precoce pode evitar traumas e tratamentos complexos
Especialistas defendem que a prevenção precoce é um dos caminhos mais eficazes para reduzir dificuldades futuras. O acompanhamento odontológico desde a infância permite que a criança se familiarize gradualmente com o ambiente clínico, os profissionais e os procedimentos.
Ao contrário do que muitas famílias imaginam, as primeiras consultas nem sempre têm como objetivo realizar tratamentos. Muitas vezes, o foco está na adaptação e na construção de experiências positivas.
“Quando o contato acontece de forma gradual e respeitando os limites da criança, aumentam significativamente as chances de termos um adulto mais confortável com os cuidados odontológicos. A prevenção também reduz a necessidade de intervenções invasivas, que costumam ser mais difíceis para pacientes com sensibilidade sensorial elevada”, explica.
A especialista ressalta que a orientação precoce aos pais permite identificar alterações em estágios iniciais e evita que pequenos problemas evoluam para quadros mais complexos.
Cresce a demanda por odontologia inclusiva
O aumento dos diagnósticos e a maior conscientização sobre o autismo têm ampliado a procura por serviços especializados em todo o país. Na avaliação de Cristiane, o desafio dos próximos anos será ampliar a formação dos profissionais e tornar o atendimento odontológico inclusivo mais acessível.
“A odontologia tem um papel importante na autonomia e na qualidade de vida das pessoas com autismo. Quando conseguimos criar um ambiente seguro e previsível, o paciente desenvolve confiança, participa mais ativamente dos cuidados e passa a enxergar a saúde bucal como parte do seu bem-estar.”
Para ela, a prevenção continua sendo o principal caminho. “Quanto mais cedo a família recebe orientação adequada, maiores são as chances de construir uma rotina saudável, evitar traumas e reduzir a necessidade de tratamentos complexos no futuro.”
Sobre Cristiane Vasconcellos
Cristiane Vasconcellos é cirurgiã-dentista, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora clínica da Odontolar, em Vitória (ES). Atua há mais de duas décadas no atendimento odontológico voltado à idosos, pessoas com deficiência e pacientes com mobilidade reduzida, com foco em atendimentos hospitalares, em instituições geriátricas e atendimento domiciliares. Ao longo da carreira, consolidou sua atuação no Espírito Santo levando estrutura clínica e tecnologia até a casa de pacientes que não conseguem se deslocar até os consultórios odontológicos.
Especialista em Geriatria e Gerontologia, Odontogeriatria, Odontologia Hospitalar, Laserterapia, Prótese Dentária e Saúde Coletiva, dedica sua prática à integração entre saúde bucal, qualidade de vida e cuidado humanizado nesse tipo de pacientes.
Para mais informações acesse, instagram
Sobre a Odontolar
A Odontolar é uma clínica odontológica sediada em Vitória (ES) especializada no atendimento a idosos, pessoas com deficiência e pacientes com mobilidade reduzida. Com 25 anos de atuação, a clínica se consolidou como referência no Espírito Santo em odontogeriatria, odontologia hospitalar e atendimento domiciliar, levando estrutura clínica e tecnologia para pacientes que não conseguem se deslocar até consultórios tradicionais.
Sob direção da cirurgiã-dentista Cristiane Vasconcellos, a Odontolar desenvolve um modelo de cuidado que integra atendimento humanizado, tecnologia e visão interdisciplinar . A clínica realiza tratamentos odontológicos em domicílio e também na sede fixa. Atua com recursos como laserterapia e reabilitação protética, com foco na qualidade de vida e na saúde bucal de pacientes em situações de fragilidade ou dependência.
Para mais informações, acesse instagram
Fontes utilizadas:
IBGE – Censo Demográfico 2022 (divulgação em 2025): https://agenciadenoticias.
Ministério da Saúde – Transtorno do Espectro Autista: https://www.gov.br/saude/pt-
