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Argentina na final: por que as polêmicas de 1978 e 1990 ainda incomodam os brasileiros

Às vésperas da decisão contra a Espanha, episódios envolvendo o 6 a 0 sobre o Peru e a controversa água oferecida a Branco ajudam a explicar a torcida brasileira contra os argentinos.

Jogador argentino comemora diante de brasileiros em imagem ilustrativa sobre as polêmicas das Copas de 1978 e 1990
Imagem ilustrativa relembra episódios controversos que marcaram a rivalidade entre Brasil e Argentina nas Copas do Mundo.

A presença da Argentina em mais uma final de Copa do Mundo reacendeu uma discussão bastante conhecida entre os torcedores brasileiros: afinal, por que tanta gente no Brasil prefere ver qualquer seleção campeã, desde que não seja a Argentina?

A resposta não está apenas nas provocações recentes, na disputa para saber quem joga o melhor futebol ou na comparação entre os títulos conquistados pelos dois países. Para uma geração de brasileiros, essa rivalidade foi marcada por dois episódios que atravessaram décadas: a goleada da Argentina sobre o Peru na Copa do Mundo de 1978 e a chamada “água batizada” oferecida ao lateral Branco em 1990.

Agora, com a Argentina enfrentando a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026, marcada para domingo, 19 de julho, às 16h, no horário de Brasília, essas histórias voltaram a circular nas conversas, nas redes sociais e nos grupos de torcedores.

Mas o que realmente aconteceu? O que foi confirmado? E o que permanece como acusação, suspeita ou parte do folclore das Copas?

Uma rivalidade que vai muito além do futebol

Brasil e Argentina são os dois maiores campeões mundiais da América do Sul e construíram uma rivalidade alimentada por proximidade geográfica, comparações entre seus craques e confrontos decisivos.

Pelé ou Maradona? Messi ou Neymar? Futebol brasileiro ou futebol argentino? As discussões atravessam gerações e quase nunca chegam a um consenso.

A rivalidade, porém, é esportiva. Não representa uma hostilidade contra os argentinos como povo. Brasileiros e argentinos mantêm relações culturais, comerciais e turísticas próximas, apesar das provocações que acompanham qualquer encontro entre as duas seleções.

O problema é que, para muitos torcedores brasileiros, as Copas de 1978 e 1990 deixaram a sensação de que a Argentina teria ultrapassado os limites da disputa dentro de campo.

1978: o Brasil venceu e depois precisou esperar

A Copa do Mundo de 1978 foi realizada na Argentina, que vivia sob a ditadura militar comandada pelo general Jorge Rafael Videla. O torneio foi utilizado pelo regime como uma grande vitrine internacional, em meio às denúncias de perseguição política e violações de direitos humanos no país.

O formato da competição era diferente do atual. Depois da primeira fase, oito seleções foram divididas em dois novos grupos. Apenas a primeira colocada de cada chave avançaria para a final.

Brasil e Argentina ficaram no mesmo grupo, ao lado de Peru e Polônia.

A seleção brasileira venceu o Peru por 3 a 0, empatou com a Argentina por 0 a 0 e derrotou a Polônia por 3 a 1. Com o resultado, o Brasil encerrou sua participação na fase com cinco pontos e saldo positivo de cinco gols.

A Argentina ainda enfrentaria o Peru algumas horas depois. Como as partidas não foram realizadas simultaneamente, os anfitriões entraram em campo sabendo exatamente do que precisavam: uma vitória por pelo menos quatro gols de diferença.

A Argentina venceu por 6 a 0.

O placar colocou os argentinos na final e deixou o Brasil na disputa pelo terceiro lugar, apesar de a seleção brasileira ter terminado toda a Copa sem perder uma única partida.

O resultado que nunca deixou de levantar suspeitas

A goleada foi surpreendente não apenas pelo tamanho do placar. Na primeira fase, o Peru havia terminado à frente da Holanda, que posteriormente seria vice-campeã mundial. A seleção peruana também contava com jogadores reconhecidos internacionalmente, como Teófilo Cubillas.

Com o passar dos anos, jogadores que participaram daquela partida deram declarações levantando suspeitas sobre o comportamento de integrantes da própria seleção peruana.

Em entrevista concedida ao jornal peruano Trome em 2018, o ex-volante José Velásquez afirmou que seis jogadores do Peru teriam se vendido antes da partida. Ele chegou a citar quatro nomes: Rodulfo Manzo, Raúl Gorriti, Juan José Muñante e o goleiro Ramón Quiroga.

Velásquez repetiu a acusação em um documentário sobre a Copa de 1978, afirmando que seis integrantes do elenco teriam recebido compensações financeiras para facilitar um resultado favorável aos argentinos.

O ex-jogador também declarou que integrantes da seleção teriam pedido ao técnico Marcos Calderón que não escalasse Quiroga, argentino de nascimento e posteriormente naturalizado peruano. O pedido não teria sido atendido.

As declarações foram negadas pelos acusados.

O próprio goleiro também levantou suspeitas

A história ganhou um capítulo ainda mais confuso porque o próprio Ramón Quiroga, durante muitos anos apontado como um dos principais suspeitos, também acusou companheiros.

Em entrevista publicada em 1998, o ex-goleiro afirmou estar convencido de que alguém havia recebido dinheiro naquela partida. Quiroga disse ter observado situações estranhas, como jogadores que não vinham sendo utilizados e foram escalados justamente contra a Argentina.

Ele negou, contudo, qualquer participação pessoal em uma possível combinação.

Anos mais tarde, ao responder diretamente às acusações de José Velásquez, Quiroga voltou a negar que tivesse recebido dinheiro e afirmou que não poderia ser responsabilizado pelos gols sofridos.

Ou seja: alguns jogadores peruanos acusaram companheiros, os acusados negaram, e até hoje nenhuma prova documental ou financeira foi apresentada publicamente para demonstrar quem teria recebido dinheiro ou de onde teria partido o suposto pagamento.

Houve também uma suposta oferta brasileira

Outro personagem daquela seleção peruana, Germán Leguía, afirmou ter sido procurado por representantes brasileiros antes da partida.

Segundo ele, teria sido oferecida uma recompensa para que o Peru vencesse a Argentina ou, ao menos, não perdesse por mais de três gols de diferença. Essa prática, conhecida como “mala branca”, buscaria incentivar o Peru a competir pelo resultado que classificaria o Brasil.

A suposta oferta brasileira não seria para que os peruanos perdessem ou entregassem a partida, mas mostra a enorme pressão e os interesses existentes ao redor daquele jogo.

Videla no vestiário peruano

José Velásquez e outros jogadores peruanos também relataram que o ditador argentino Jorge Rafael Videla teria entrado no vestiário do Peru antes do confronto.

Algumas versões afirmam que Videla estava acompanhado do ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger e teria falado sobre a amizade e a cooperação entre Argentina e Peru.

Para alguns jogadores, a visita foi interpretada como uma forma de intimidação. Outros envolvidos minimizaram o encontro ou negaram que ele tivesse interferido no desempenho da seleção.

Também surgiram acusações de um possível acordo entre as ditaduras argentina e peruana, envolvendo ajuda econômica, envio de alimentos e libertação de presos políticos. Essas versões foram apresentadas por antigos políticos e integrantes das seleções, mas nunca resultaram em uma comprovação judicial definitiva de que o jogo foi manipulado.

O que é fato e o que permanece sem comprovação em 1978

O que está documentado:

  • A Argentina precisava vencer o Peru por pelo menos quatro gols de diferença.
  • Os argentinos jogaram depois do Brasil e já sabiam o placar necessário.
  • A partida terminou com vitória argentina por 6 a 0.
  • O Brasil terminou a Copa do Mundo invicto, mas ficou fora da final.
  • Jogadores peruanos fizeram acusações públicas sobre pagamentos e comportamentos suspeitos.
  • A competição foi realizada durante a ditadura militar argentina e utilizada politicamente pelo regime.

O que nunca foi comprovado definitivamente:

  • Que o governo argentino pagou jogadores peruanos.
  • Que os seis atletas acusados receberam dinheiro para perder.
  • Que houve um acordo formal entre as ditaduras dos dois países para alterar o resultado.
  • Que a goleada foi oficialmente combinada.

A suspeita, portanto, não surgiu apenas da imaginação de torcedores brasileiros. Ela foi alimentada por declarações de pessoas que estavam dentro do campo e do vestiário. Mas essas declarações nunca foram acompanhadas por provas suficientes para uma conclusão oficial.

1990: o dia em que o Brasil perdeu para Maradona e Caniggia

Doze anos depois, Brasil e Argentina voltaram a protagonizar uma das partidas mais lembradas da história da rivalidade.

O confronto aconteceu em 24 de junho de 1990, no Estádio Delle Alpi, em Turim, pelas oitavas de final da Copa do Mundo da Itália.

O Brasil criou as principais oportunidades e acertou a trave argentina, mas não conseguiu marcar. Na reta final, Diego Maradona arrancou pelo meio, atraiu a defesa brasileira e encontrou Claudio Caniggia livre.

Caniggia driblou o goleiro Taffarel e marcou o gol da vitória argentina por 1 a 0.

A jogada genial de Maradona e a frieza de Caniggia seriam suficientes para colocar a partida na história. No entanto, um episódio ocorrido ainda no primeiro tempo transformaria o jogo em uma polêmica que permanece viva mais de três décadas depois.

A garrafa oferecida a Branco

Durante uma paralisação para atendimento a um jogador argentino, integrantes da comissão técnica entraram no campo levando garrafas de água.

Por causa do forte calor, o lateral-esquerdo Branco se aproximou e pediu para beber. As imagens mostram o brasileiro utilizando uma garrafa diferente das consumidas pelos jogadores argentinos.

Branco afirmou que, depois de beber a água, começou a sentir tontura, sonolência e dificuldade para se concentrar. Mesmo assim, permaneceu em campo até o fim.

Durante muitos anos, a história foi tratada como uma acusação impossível de ser comprovada. Isso mudou quando o próprio Maradona passou a comentar o episódio em programas da televisão argentina.

Maradona contou a história entre gargalhadas

Em uma entrevista concedida em 2004, Maradona afirmou que havia uma garrafa preparada para os brasileiros e disse que alguém teria colocado um tranquilizante na água.

O ex-camisa 10 contou, rindo, que tentou alertar alguns companheiros argentinos para que não bebessem daquela garrafa. Segundo sua versão, Branco acabou tomando justamente a água que não deveria ser consumida pelos argentinos.

No ano seguinte, Pelé participou do programa La Noche del 10, apresentado por Maradona na televisão argentina, e perguntou diretamente quem havia colocado a substância na água.

“Eu não fui. Conta-se o pecado, não o pecador”, respondeu Maradona.

A resposta foi dada em tom de brincadeira e provocou risadas no estúdio. Maradona negava ter preparado a garrafa, mas sua fala reforçava a versão de que a adulteração realmente teria ocorrido.

Caniggia e outros envolvidos negaram

Nem todos os integrantes daquela seleção argentina confirmaram a história.

Caniggia, autor do gol que eliminou o Brasil, negou que os argentinos tivessem envenenado ou prejudicado qualquer jogador. Em uma entrevista, ele pediu que as pessoas não acreditassem nas histórias contadas por Maradona.

O massagista Miguel di Lorenzo, conhecido como Galíndez e apontado em algumas versões como responsável por levar a garrafa ao gramado, também negou ter colocado qualquer substância na água.

O técnico Carlos Bilardo nunca assumiu responsabilidade. Quando questionado sobre o episódio, chegou a afirmar que não sabia quem havia preparado a garrafa, sem negar completamente que algo pudesse ter acontecido.

O caso não resultou em punição esportiva, investigação conclusiva ou alteração do resultado da partida.

A água decidiu o jogo?

Mesmo aceitando a versão de Branco e as declarações de Maradona, não é possível afirmar que a água tenha decidido sozinha a classificação.

O Brasil desperdiçou oportunidades, a Argentina resistiu defensivamente e Maradona produziu a jogada que Caniggia transformou em gol.

O próprio Branco afirmou posteriormente que não usaria o episódio como justificativa exclusiva para a derrota brasileira.

A possível adulteração, entretanto, representaria uma violação grave da ética esportiva e colocou uma sombra sobre uma das vitórias mais importantes da história argentina contra o Brasil.

Por que essas histórias continuam incomodando?

As Copas de 1978 e 1990 atingem dois pontos especialmente sensíveis para o torcedor brasileiro.

Em 1978, o Brasil terminou invicto e viu a Argentina avançar graças a uma goleada cercada por acusações de jogadores que participaram do confronto.

Em 1990, uma seleção brasileira que criou as melhores oportunidades acabou eliminada por uma jogada genial de Maradona, em uma partida marcada pela possível adulteração da água oferecida a Branco.

Esses episódios ajudaram a construir, no imaginário brasileiro, a ideia de que a Argentina seria uma seleção disposta a utilizar qualquer recurso para vencer. Trata-se, naturalmente, de uma generalização esportiva que não deve ser transformada em preconceito contra jogadores, torcedores ou cidadãos argentinos.

A rivalidade também possui o outro lado. Muitos brasileiros admiram Maradona, Messi e a tradição futebolística argentina. Outros preferem apoiar uma seleção sul-americana contra os europeus.

Mas, para quem viveu ou cresceu ouvindo as histórias de 1978 e 1990, torcer pela Argentina em uma final de Copa do Mundo ainda pode parecer quase impossível.

A final que reabre antigas feridas

A decisão entre Espanha e Argentina não será apenas um confronto entre duas das melhores seleções da atualidade. Para parte dos brasileiros, também será mais um capítulo de uma relação construída por admiração, provocação, rivalidade e desconfiança.

Os argentinos entrarão em campo buscando mais um título mundial. Enquanto isso, muitos brasileiros estarão diante da televisão apoiando a Espanha — não necessariamente por uma paixão repentina pelo futebol espanhol, mas por lembranças de duas Copas que o tempo ainda não conseguiu apagar.

Fontes consultadas: Fifa, Placar, Folha de S.Paulo, ESPN Brasil, ge, UOL Esporte e Clarín.

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