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Saúde bucal ruim pode dobrar chance de doença renal crônica, aponta estudo da Unesp

Pesquisa analisou dados de mais de 279 mil brasileiros e encontrou associação entre problemas bucais, perda de dentes e maior ocorrência da doença renal crônica

Por que saúde bucal ainda é um dos maiores desafios para famílias de pessoas com autismo – Créditos: Divulgação

Problemas de saúde bucal podem estar relacionados a um risco significativamente maior de doença renal crônica (DRC). É o que aponta uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Fisiopatologia em Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

O estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, que reuniu informações sobre condições de saúde, hábitos de vida e acesso aos serviços de saúde de 279.382 brasileiros.

A pesquisa integra o doutorado de Lilian de Oliveira Silva Macêdo e foi orientada pelo nefrologista Luis Gustavo Modelli de Andrade, docente da pós-graduação e chefe do setor de transplante renal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu.

Saúde bucal ruim foi associada ao dobro de chances

Os pesquisadores compararam os participantes que haviam recebido diagnóstico médico de doença renal crônica com as informações que eles próprios forneceram sobre sua condição de saúde bucal.

Entre aqueles que classificaram a saúde bucal como regular, a chance de apresentar doença renal crônica foi 1,63 vez maior em comparação com pessoas que avaliaram a própria saúde bucal como boa.

Já entre os brasileiros que relataram saúde bucal ruim, a chance foi 2,02 vezes maior, mesmo após ajustes estatísticos considerando fatores como idade, sexo, raça, hipertensão e diabetes.

Os resultados foram publicados na revista científica BMC Public Health.

Perda de dentes também apareceu associada à doença

A análise avaliou ainda outros aspectos da saúde bucal, como perda de dentes, dificuldade para se alimentar em razão de problemas na boca e frequência de escovação.

Segundo o estudo, pessoas que relataram perda de dentes superiores e inferiores apresentaram 30% mais chance de ter doença renal crônica.

Já quem relatou dificuldade intensa ou muito intensa para se alimentar apresentou aproximadamente o dobro de chance de ter a doença quando comparado aos participantes que não enfrentavam esse problema.

Escovar os dentes três vezes ao dia apareceu como fator de proteção

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: pessoas que declararam escovar os dentes três vezes ao dia apresentaram redução de até 66% na chance de ter doença renal crônica.

Os dados reforçam a importância dos cuidados com a saúde bucal não apenas para dentes e gengivas, mas também dentro de uma abordagem mais ampla de prevenção e acompanhamento de doenças crônicas.

Qual é a relação entre a boca e os rins?

A literatura médica já relaciona a periodontite — inflamação crônica que afeta as estruturas de sustentação dos dentes — à doença renal crônica devido ao processo de inflamação sistêmica provocado pela condição.

A relação também pode ocorrer no sentido contrário. Pacientes com doença renal crônica frequentemente apresentam redução do fluxo salivar e alterações nos tecidos da boca em razão do acúmulo de ureia e de outras substâncias que deixam de ser adequadamente filtradas pelos rins.

Pesquisadores alertam que novos estudos ainda são necessários

Apesar da forte associação observada, os pesquisadores ressaltam que os resultados ainda não permitem afirmar uma relação direta de causa e efeito entre problemas bucais e doença renal crônica.

“Os resultados do estudo são bastante significativos em razão dessa base de dados bastante robusta que a PNS oferece. Ele levanta a possibilidade de haver uma relação de causa e efeito entre saúde oral e Doença Renal Crônica, mas ainda é preciso fazer novos estudos para confirmá-la”, afirma Luis Gustavo Modelli de Andrade.

O pesquisador destaca ainda que a saúde oral passará a ser considerada como uma variável nas avaliações de pacientes com doença renal crônica realizadas pelo serviço.

Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de aproximar os cuidados odontológicos do acompanhamento de pacientes com doenças crônicas.

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