Especialista em desenvolvimento humano, Melissa Artioli relata como o compromisso levado ao extremo virou autocobrança e cobrou um preço da própria saúde, um alerta que os números recentes sobre esgotamento e sobrecarga ajudam a dimensionar

Assumir compromissos, dar conta de tudo e não decepcionar ninguém costumam ser lidos como sinais de competência e dedicação. Mas há uma linha, nem sempre visível, em que esse mesmo traço deixa de ser cuidado e passa a ser autocobrança, a ponto de adoecer. É sobre essa fronteira que fala Melissa Artioli, especialista em desenvolvimento humano e autora do livro “Solte, entregue, confie”, publicado pela DVS Editora.
Segundo ela, quem tem a responsabilidade como talento tende a querer garantir que tudo aconteça da melhor forma possível. Melissa fala por experiência própria. “Existe quase uma posse psicológica sobre aquilo que assumi”, descreve, ao explicar o compromisso emocional de acompanhar cada projeto, grande ou pequeno, até o fim. O risco, observa, aparece quando esse compromisso não encontra limite: quanto mais responsabilidades a pessoa absorve, mais é procurada, e maior a tentação de “querer abraçar o mundo e fazer muito mais do que realmente deveria”.
Ela associa esse comportamento a traços de personalidade construídos ao longo da vida, como a necessidade de agradar, o medo da rejeição, o desejo de ser amada. “Pelo medo de decepcionar, pelo medo de falhar, pelo medo de parecer insuficiente, você acaba colocando tudo debaixo do seu guarda-chuva”, diz. Em alguns casos, acrescenta, sustenta-se até uma máscara que “uma hora ou outra cai”, por não refletir o jeito natural de ser.
Quando manter a palavra adoece
No caso de Melissa, isso ficou evidente no relacionamento. No início, o casal havia combinado dividir todos os custos meio a meio, com base na informação de que ganhavam salários iguais. Ao ser vítima de uma traição financeira, Melissa descobriu que o companheiro ganhava cinco vezes mais do que ela.
Para manter a palavra que dera, havia contraído dívidas e abrido mão de coisas para si mesma. “Se tivesse existido verdade naquela relação, talvez eu não tivesse carregado tanto”, afirma.
O medo de não ser aceita a impediu, por muito tempo, de admitir que não estava dando conta. “Eu estava muito mais preocupada com o que ele pensaria de mim do que com a situação que estava acontecendo”, relata. O esforço de sustentar sozinha o combinado começou a cobrar seu preço: cansaço, vulnerabilidade e a sensação de não ter a quem pedir ajuda.
Um esgotamento que o país já contabiliza
O relato individual de Melissa ecoa um fenômeno que o Brasil vem medindo em escala. Em 2025, mais de meio milhão de trabalhadores brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, o maior número da série histórica do Ministério da Previdência Social.
Só os afastamentos por burnout, o esgotamento profissional que a Organização Mundial da Saúde classifica como síndrome ocupacional desde 2022, cresceram 823% entre 2021 e 2025, com impacto econômico estimado em cerca de R$ 400 bilhões por ano em perda de produtividade, ausências e rotatividade.
Levantamento da consultoria WTW, divulgado no início de 2025, apontou que quase um quarto dos trabalhadores relata níveis elevados de estresse relacionado ao trabalho, e pesquisas da consultoria Mercer Marsh Benefícios identificam o excesso de trabalho como principal causa do problema.
A responsabilidade pesa mais para elas
Essa conta, no entanto, não é dividida de maneira igual. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam, em média, quase dez horas semanais a mais do que os homens a afazeres domésticos e ao cuidado de outras pessoas, e que mais de 92% delas realizam esse tipo de trabalho, contra 80,8% dos homens.
Mais do que a execução das tarefas, pesa o que especialistas chamam de carga mental: o esforço constante de planejar, organizar e antecipar tudo.
Mesmo quando outras pessoas ajudam a executar, o controle mental costuma permanecer com as mulheres, um trabalho invisível que a literatura recente associa à exaustão crônica e ao sofrimento psíquico. É justamente essa “posse psicológica” e a dificuldade de delegar que Melissa descreve ao falar de si.
Dizer não também é responsabilidade
Para ela, o aprendizado veio de reconhecer até onde vai, de fato, o próprio papel. “Às vezes, é melhor dizer não do que continuar agindo pelo medo de não agradar alguém ou de não ser aceita”, afirma.
Hoje, diz, responsabilidade também significa conhecer os próprios limites, respeitar a própria história e entender como se funciona emocionalmente, saber quando insistir e quando recuar, quando assumir e quando dividir.
No fim, resume, trata-se de “aprender a cuidar do que é nosso sem nos abandonar no caminho”. “Devemos assumir, com consciência, aquilo que nos pertence, e devolver, com maturidade, os pesos que nunca deveriam ter sido nossos”, acredita.
