INCA estima 13,2 mil novos casos da doença por ano no Brasil; especialista explica sinais de alerta, investigação e novas estratégias terapêuticas

O câncer de pâncreas está entre os tumores que mais desafiam a oncologia, principalmente pela dificuldade de identificação em fases iniciais. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 13.240 novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028, sendo 6.330 entre homens e 6.910 entre mulheres. Em 2023, foram registrados 13.507 óbitos pela doença no país. A ausência de sintomas específicos no início contribui para que muitos casos sejam identificados em fases avançadas.
“O tumor costuma ser diagnosticado tardiamente porque seus sintomas iniciais são inespecíficos ou ausentes. Isso dificulta o tratamento e impacta negativamente as taxas de sobrevida”, explica Mauro Donadio, oncologista especialista em tumores do aparelho digestivo da Oncoclínicas.
Fatores de risco, sintomas e diagnóstico
Entre os fatores associados ao câncer de pâncreas estão tabagismo, excesso de peso, pancreatite crônica, diabetes, histórico familiar e alterações genéticas hereditárias. Segundo a American Cancer Society (ACS), fumantes têm aproximadamente o dobro do risco de desenvolver a doença, enquanto pessoas com obesidade apresentam risco cerca de 20% maior.
Nas fases iniciais, o tumor pode não provocar sinais perceptíveis. Conforme a doença evolui, podem surgir icterícia, perda de peso e de apetite, dor abdominal ou nas costas, náuseas, vômitos e cansaço. Como esses sintomas também podem estar relacionados a outras condições, alterações persistentes ou a combinação de diferentes sinais devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
Não há, atualmente, recomendação para rastreamento de rotina na população de risco habitual. Para pessoas com maior risco, como aquelas com determinadas síndromes hereditárias ou histórico familiar importante, pode ser indicado acompanhamento especializado. A investigação de uma suspeita pode envolver exames de imagem, laboratoriais e, dependendo do caso, biópsia.
“Quando conseguimos detectar o tumor em fase inicial e restrita ao pâncreas, a chance de sucesso no tratamento aumenta significativamente”, afirma o especialista.
Segundo dados da base norte-americana SEER compilados pela ACS, a sobrevida relativa em cinco anos é de 44% para pacientes com doença localizada, 17% quando o tumor atinge estruturas ou linfonodos próximos e 3% nos casos de doença à distância.
Tratamento e novas perspectivas
As opções terapêuticas dependem da extensão da doença e da possibilidade de remoção cirúrgica. Nos tumores ressecáveis, a cirurgia pode ser realizada com intenção curativa, associada ou não à quimioterapia. Em determinados casos, a quimioterapia é administrada antes da cirurgia para reduzir o tumor e tratar possíveis células tumorais ainda não identificadas nos exames.
Pesquisas recentes também buscam ampliar as possibilidades de diagnóstico. Em janeiro de 2026, pesquisadores apoiados pelo National Cancer Institute (NCI) divulgaram resultados de um painel de quatro biomarcadores sanguíneos que, em análise retrospectiva, identificou casos de câncer em estágios I e II em 87,5% das vezes. Os resultados ainda precisam ser validados em estudos maiores e prospectivos antes que a estratégia possa ser considerada uma ferramenta de rastreamento.
Na área terapêutica, os resultados do estudo de fase 3 RASolute 302, apresentados na ASCO 2026, também trouxeram uma nova perspectiva para pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado. O ensaio avaliou 500 pacientes e comparou o daraxonrasib, medicamento oral direcionado à via da proteína RAS, com quimioterapia. A sobrevida global média foi de 13,2 meses entre os pacientes que receberam o medicamento, contra 6,7 meses no grupo de quimioterapia. O estudo também registrou redução de aproximadamente 60% no risco de morte e de progressão da doença, além de taxa de resposta objetiva de 31,6% contra 11,2%.
“De forma prática, o estudo avaliou pacientes com câncer de pâncreas que já haviam progredido após a primeira linha de tratamento paliativo. Esses pacientes foram randomizados para receber daraxonrasib, um comprimido de 300mg por dia, ou quimioterapia padrão. Aqueles que receberam a medicação oral dobrou a sobrevida livre de progressão – de 3,5 para 7 meses – e dobrou a sobrevida global – de 6 para 13 meses -, com redução do risco de morte e de progressão em torno de 60% e taxa de resposta três vezes maior, subindo de 11% para 33%. Isso o torna o novo padrão de tratamento de segunda linha para o câncer de pâncreas metastático”, explica Donadio.
O medicamento atua sobre a via da proteína KRAS, uma das principais responsáveis pelos sinais de crescimento das células tumorais. Alterações nessa via estão presentes em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático, tornando o alvo um dos focos mais importantes da pesquisa sobre a doença.
“O KRAS sempre foi considerado um alvo praticamente intratável. A chegada de um medicamento oral que bloqueia essa via de sinalização, com resultados dessa magnitude, muda completamente o horizonte de tratamento para esses pacientes.”
Apesar dos avanços, os resultados se referem a pacientes com doença metastática que já haviam recebido tratamento anterior e não significam que o medicamento seja uma cura ou que possa substituir as estratégias utilizadas em outros estágios da doença. Para o câncer de pâncreas, a combinação entre atenção aos fatores de risco, investigação adequada diante de sintomas persistentes e desenvolvimento de métodos de detecção e tratamentos mais precisos continua sendo fundamental para melhorar o prognóstico dos pacientes.
“A oncologia tem evoluído rapidamente. Com a identificação de subtipos moleculares do câncer de pâncreas, conseguimos desenvolver terapias mais específicas e direcionadas. O futuro da oncologia pancreática é promissor”, finaliza o oncologista da Oncoclínicas.
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co, um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil, oferece um modelo hiperespecializado e inovador voltado para toda a jornada oncológica do paciente. Presente em 136 unidades em 47 cidades, a companhia reúne um corpo clínico formado por mais de 1.750 médicos especializados na linha de cuidado do paciente oncológico. Com a missão de democratizar o acesso à oncologia de excelência, realizou cerca de 537 mil tratamentos nos últimos 12 meses. Com foco em pesquisa, tecnologia e inovação, a Oncoclínicas segue padrões internacionais de alta qualidade, integrando clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, potencializando o tratamento com medicina de precisão e genômica. A companhia mantém iniciativas globais como a Boston Lighthouse Innovation (EUA) e a participação na MedSir (Espanha). Integra ainda o índice IDIVERSA da B3, reforçando seu compromisso com a diversidade. Saiba mais em: www.oncoclinicas.com.
