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Alerta sobre ‘chips da beleza’ e hormônios sem comprovação ganha força após manifesto de 12 entidades médicas

Após 12 sociedades médicas se posicionarem contra o uso indiscriminado de implantes hormonais manipulados, médica alerta para a diferença entre tratamento individualizado e promessa comercial

Profissional de saúde com jaleco mostrando um pequeno implante a uma paciente em consultório

A busca por soluções rápidas para emagrecer, ganhar massa muscular, melhorar a libido, aumentar a disposição ou “frear” o envelhecimento colocou os chamados “chips da beleza” no centro de uma discussão que ganhou força durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro.

Em 1º de outubro, 12 sociedades médicas e científicas divulgaram a chamada Carta do Rio de Janeiro, manifestando preocupação com o uso de implantes hormonais manipulados, especialmente em mulheres no climatério e na menopausa.

O documento questiona a utilização desses produtos para finalidades como emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora de energia, desempenho físico e antienvelhecimento, destacando a ausência de evidências clínicas de qualidade que sustentem esses benefícios e a falta de dados suficientes sobre segurança em longo prazo.

Para a médica Patrícia Menegusso, com atuação em saúde da mulher, climatério e menopausa, o debate é importante justamente porque existe uma diferença fundamental entre tratamento médico e promessa de mercado.

“Uma mulher pode, sim, ter indicação para uma terapia hormonal. O problema começa quando uma solução é apresentada como se pudesse resolver diversos aspectos da vida de todas as mulheres. Tratamento médico não pode ser baseado em promessa. Ele precisa partir de uma avaliação individual, de uma indicação adequada e de acompanhamento”, afirma.

O problema não é falar sobre hormônios

A discussão sobre os implantes manipulados não significa que a terapia hormonal da menopausa deva ser abandonada.

A própria Carta do Rio de Janeiro faz essa distinção ao afirmar que a terapia hormonal, quando corretamente indicada e respeitando suas indicações e contraindicações, é um tratamento respaldado por evidências. A preocupação das entidades está relacionada especificamente a formulações manipuladas e implantáveis que não passaram pelo mesmo processo de demonstração de eficácia, segurança, qualidade e controle exigido dos medicamentos registrados.

“Precisamos evitar dois extremos. Um é dizer que todo hormônio é perigoso. O outro é acreditar que todo hormônio fará bem e que quanto mais hormônio, melhor. Nenhuma dessas afirmações representa uma medicina baseada em evidências”, explica Patrícia.

Quando a menopausa vira um produto

A discussão acontece em um momento de crescimento acelerado do mercado voltado à menopausa.

Suplementos, aplicativos, produtos de bem estar, terapias hormonais e diferentes soluções comerciais passaram a disputar a atenção de mulheres que procuram respostas para sintomas como cansaço, alteração do sono, ganho de peso, mudanças na libido e dificuldade de concentração.

Durante o Congresso Mundial de Menopausa, a própria comercialização da menopausa foi tema de discussão. A endocrinologista Jen Gunter chamou atenção para o risco de o mercado passar a determinar quais sintomas seriam considerados parte da menopausa e quais tratamentos seriam apresentados como necessários.

Para Patrícia, essa mudança pode ser positiva quando amplia o acesso à informação, mas perigosa quando transforma inseguranças femininas em oportunidade comercial.

“É muito importante que a mulher tenha mais informação sobre a menopausa. Mas informação não pode ser confundida com propaganda. Quando alguém promete emagrecimento, rejuvenescimento, aumento de energia e melhora da libido por meio de uma única intervenção, é preciso perguntar: qual é a evidência para cada uma dessas promessas?”, questiona.

Testosterona não é sinônimo de juventude

Um dos pontos mais relevantes desse debate envolve a testosterona. A Anvisa já havia alertado, em agosto deste ano, que a reposição de testosterona não é uma necessidade universal para mulheres e que sua utilização deve depender de indicação clínica, considerando sintomas, exames, histórico de saúde e evidências científicas.

A Carta do Rio de Janeiro reforçou esse entendimento ao destacar que a única indicação para testosterona em mulheres respaldada por consensos internacionais é o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres pós menopáusicas cuidadosamente avaliadas, utilizando doses que mantenham concentrações na faixa fisiológica feminina. O documento não recomenda implantes, injeções ou preparações que produzam níveis supr fisiológicos.

“Libido não é simplesmente uma questão de quantidade de testosterona. Desejo sexual envolve aspectos hormonais, físicos, emocionais, relacionais e contextuais. Por isso, uma avaliação adequada é muito mais importante do que procurar uma solução padronizada”, afirma Patrícia.

O que a mulher deve perguntar antes de iniciar qualquer tratamento?

Para a médica, algumas perguntas podem ajudar a mulher a tomar decisões mais conscientes:

  • Qual é a indicação desse tratamento?
  • Existem estudos de qualidade que comprovem esse benefício?
  • Quais são os riscos?
  • É um medicamento registrado?
  • A dose pode ser ajustada?
  • O tratamento pode ser interrompido facilmente caso apareça algum efeito adverso?
  • Quais alternativas existem?

“Uma paciente bem informada não é aquela que aceita ou recusa um tratamento automaticamente. É aquela que entende por que determinada conduta está sendo proposta, quais são seus benefícios, seus riscos e quais alternativas existem”, destaca.

Medicina personalizada não significa tratamento sem evidência

A expressão “tratamento personalizado” ganhou espaço na comunicação sobre menopausa, mas personalização não significa criar protocolos sem comprovação científica.

Para Patrícia, individualizar significa justamente considerar que cada mulher possui uma história diferente.

“Personalizar é olhar para a mulher que está diante de você. É considerar seus sintomas, sua história, seus fatores de risco, seus exames quando indicados, seu momento de vida e seus objetivos. Isso é muito diferente de oferecer a mesma solução para todas”, afirma.

O novo posicionamento das entidades médicas reforça uma discussão que tende a ganhar ainda mais espaço: à medida que a menopausa deixa de ser um assunto invisível, cresce também a responsabilidade de garantir que as mulheres tenham acesso a informação confiável e tratamentos seguros.

A questão não é ser contra ou a favor de hormônios.

É colocar a paciente, a ciência e a segurança no centro da decisão.

Sobre Patrícia Menegusso

Patrícia Menegusso é médica com atuação em saúde da mulher, climatério e menopausa, com pós graduação em Saúde da Mulher. Seu trabalho é voltado à avaliação individualizada e ao cuidado integral da mulher durante a transição menopausal e menopausa.

Mulher adulta loira olhando para a câmera, com queixo apoiado na mão, usando blusa preta e joias discretas, fundo cinza

Dra. Patrícia Menegusso – Médica | CRM SP 244436
Atuação em saúde da mulher, climatério e menopausa

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica.

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