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Treinar com dor é sempre errado? Entenda quando o desconforto pode indicar uma lesão

Por Dr. Raphael Ferreira Jorge

mulher ajoelhada na academia segurando o joelho com expressão de dor

Muitas pessoas se questionam: sentir dor durante a atividade física significa que o treino está funcionando ou que existe uma lesão? A resposta depende do tipo de dor, da sua intensidade e de como ela se comporta durante e depois dos exercícios. Nem todo desconforto exige interromper a atividade, mas dores agudas, que pioram progressivamente ou alteram a execução dos movimentos, não devem ser ignoradas.

Na musculação, por exemplo, a queimação muscular durante uma série, que desaparece após alguns minutos, e o cansaço difuso, são desconfortos esperados. Também é comum a dor muscular tardia, que costuma surgir entre 12 e 24 horas após o treino, atinge o pico entre 24 e 72 horas e melhora espontaneamente em até cinco a sete dias. Já a dor de alerta geralmente aparece em um ponto específico, principalmente nas articulações ou tendões, e pode ser descrita como pontada, choque ou fisgada. Quando aumenta a cada série, ocorre apenas de um lado ou obriga a modificar o movimento, é importante interromper ou ajustar a atividade.

Uma referência utilizada na reabilitação é a escala de dor de zero a dez. Em geral, níveis de zero a três podem ser toleráveis; entre quatro e cinco, recomenda-se reduzir a carga ou a amplitude do exercício. Acima de cinco, ou quando há piora progressiva, a orientação é parar. Dores agudas, repentinas ou acompanhadas de estalos também exigem atenção, independentemente da pontuação. Outro parâmetro é observar as 24 horas seguintes ao treino. Se a dor retorna ao nível habitual até o dia seguinte, provavelmente a carga foi tolerável. Caso a pessoa amanheça pior, o esforço pode ter ultrapassado seu limite. Também é importante que a dor não venha aumentando de uma semana para outra.

Apesar desses sinais, muitos continuam treinando por medo de perder resultados ou pela cultura do “sem dor, sem ganho”. Entretanto, o desenvolvimento muscular depende de estímulos progressivos e recuperação adequada, não de lesões. Insistir diante de uma dor de alerta pode resultar em afastamentos muito mais prolongados.

Ombros e cotovelos estão entre as regiões que sofrem com excesso de volume de treinamento e técnica inadequada. No ombro, tendinopatias e alterações degenerativas do manguito rotador podem evoluir para rupturas. Também podem ocorrer bursites, lesões do tendão do bíceps e instabilidade articular. No cotovelo, são frequentes as epicondilites, conhecidas como cotovelo de tenista e de golfista, além de tendinopatias e, em situações de esforço intenso, rupturas do tendão distal do bíceps, que podem exigir cirurgia.

Quando identificados precocemente, muitos problemas podem ser tratados com ajustes no treinamento e fisioterapia. Ignorar os sintomas, por outro lado, pode agravar lesões, prolongar o tratamento e aumentar a necessidade de procedimentos cirúrgicos. A demora também pode favorecer atrofia muscular, perda de movimento e persistência da dor, que pode se tornar crônica.

É preciso abandonar os exercícios?

Na maioria dos casos, não. Adaptar o treino costuma ser mais benéfico do que o repouso absoluto. Reduzir cargas, diminuir a amplitude, substituir exercícios ou treinar outras regiões do corpo são alternativas possíveis. Os tendões, por exemplo, precisam de cargas controladas para se recuperar. O repouso total geralmente fica reservado às lesões agudas e mais graves.

O que não é recomendado é utilizar analgésicos ou anti-inflamatórios para conseguir treinar apesar da dor. Esses medicamentos podem mascarar sinais de alerta e favorecer o agravamento de uma lesão. O uso crônico de anti-inflamatórios também oferece riscos ao estômago, aos rins e ao coração, enquanto infiltrações com corticoides podem aliviar no curto prazo, mas tendem a piorar os resultados no longo prazo e a aumentar a chance de a dor voltar. Qualquer tratamento medicamentoso deve ter orientação médica.

Quando procurar atendimento médico?

Alguns sinais exigem avaliação imediata em pronto-socorro, como estalos acompanhados de dor intensa; deformidade ou inchaço rápido; ombro deslocado; perda súbita de força; e dormência ou formigamento persistentes. Urina muito escura acompanhada de dor muscular intensa após um treino pesado também exige atendimento urgente, pois pode indicar rabdomiólise, uma condição potencialmente grave. Da mesma forma, dor no braço esquerdo ou no ombro associada a falta de ar, aperto no peito ou suor frio pode ter origem cardíaca.

Dores que despertam durante a noite, surgem em repouso, provocam fraqueza para levantar o braço ou pioram a cada treino merecem avaliação nos próximos dias. Se persistirem por duas a três semanas, mesmo após ajustes na atividade, também é importante investigar a causa.

A minha principal orientação como médico especialista é compreender que a dor funciona como uma informação do corpo, e não como uma obrigação para conquistar resultados. Aquecimento, progressão gradual de cargas, técnica correta e descanso adequado são fundamentais para prevenir lesões. Procurar ajuda precocemente não significa necessariamente deixar de treinar, mas encontrar uma maneira mais segura de continuar evoluindo.

Dr. Raphael Ferreira Jorge é médico ortopedista e traumatologista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo, com pós-graduação em Medicina do Esporte e Medicina Regenerativa. É membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC).

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