“Esse tipo de acidente é previsível e evitável”

A morte de Juliana Faustino Bassetto, 27 anos, após uma aula de natação na piscina da academia C4 Gym, no Parque São Lucas (Zona Leste), colocou em evidência suspeitas de intoxicação por gases liberados a partir da mistura indevida de produtos químicos no próprio ambiente da piscina, fechado e com pouca ventilação, segundo a investigação em andamento no 42º DP.
A Prefeitura de São Paulo interditou o local e iniciou processo de cassação da licença por irregularidades: alvará desatualizado e não vinculado ao CNPJ atual, além de situação precária de segurança. A Subprefeitura de Vila Prudente apontou que a unidade operava sem as devidas licenças e determinou a interdição preventiva.
Na mesma aula, outras vítimas foram atendidas – entre elas o marido de Juliana, em estado grave, um adolescente de 14 anos e uma mulher de 29 anos que precisou ser internada em uma UTI; duas pessoas receberam alta. Relatos indicam odor e gosto anormais na água, irritação ocular e respiratória, náuseas e vômitos, compatíveis com exposição a cloro em alta concentração e/ou reação química que libera gases tóxicos.
Segundo a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, casos como o da academia na Zona Leste ocorrem quando produtos químicos são manipulados de forma inadequada, gerando reação química e liberação de gás tóxico em ambiente fechado. “Isso provoca inalação imediata, levando a edema pulmonar, inflamação grave das vias respiratórias e possível colapso cardiorrespiratório.”
Ela explica que erros comuns incluem misturar substâncias incompatíveis, usar concentração incorreta ou manipular produtos sem treinamento e sem equipamentos de segurança. Situações semelhantes já ocorreram em academias e também em ambientes domésticos, quando pessoas fazem “misturinhas” de limpeza.
Quanto ao trabalho realizado pela perícia, Daitx diz que são coletadas amostras da água, produtos utilizados, além de sangue, urina e tecidos da vítima para identificar compostos químicos tóxicos. “Os pulmões geralmente apresentam sinais de edema e queimaduras internas, confirmando intoxicação e não doença natural”, afirma.
A perita reforça que esse tipo de acidente é previsível e evitável: “basta seguir protocolos, rotular produtos corretamente e impedir que pessoas sem qualificação manipulem substâncias químicas. Qualquer mistura indevida pode gerar gases tóxicos, causar intoxicação grave, internação e até morte.” Por isso, recomenda que ninguém misture produtos de limpeza — em casa ou em ambientes profissionais — e que estabelecimentos sigam rigorosamente as normas de segurança química.
Fonte:
Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.
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