
Walter Cherfem, CIO da MagikDev
Por Walter Cherfem, CIO da MagikDev*
Eventos climáticos extremos, como tempestades e ventos intensos, têm sido frequentemente apontados como os principais responsáveis pelas interrupções no fornecimento de energia no Brasil. Embora esses fatores de fato exerçam pressão crescente sobre a infraestrutura, eles não explicam, por si só, a recorrência e a duração de muitos apagões. O problema é mais profundo e, em grande parte, estrutural.
Ao longo dos últimos anos, o setor elétrico brasileiro evoluiu em diversos aspectos, mas ainda enfrenta um desafio central: a falta de visibilidade completa e integrada sobre a rede. Em um sistema de distribuição de energia, saber exatamente onde estão os ativos, qual é o estado de cada componente e como a rede se comporta em tempo real não é apenas uma vantagem operacional — é uma necessidade crítica.
Quando essa visibilidade não existe, as concessionárias operam de forma reativa. Em vez de antecipar falhas e agir preventivamente, acabam respondendo a eventos já em curso, o que aumenta o tempo de interrupção e amplia os impactos para a população.
O gargalo invisível: sistemas que não conversam
Um dos principais entraves para essa visibilidade está na fragmentação tecnológica. Muitas concessionárias ainda operam com múltiplos sistemas, como plataformas geoespaciais, sistemas de gestão da distribuição, sistemas corporativos e ferramentas de monitoramento que não se comunicam de forma eficiente.
Esse cenário cria silos de informação que dificultam a tomada de decisão. Dados importantes ficam dispersos, inconsistentes ou inacessíveis no momento em que são mais necessários. O resultado é um processo mais lento para identificar a origem de falhas, mobilizar equipes e restabelecer o serviço.
Na prática, isso significa que o tempo de resposta a uma interrupção não depende apenas da complexidade do problema, mas também da capacidade da organização de acessar e interpretar informações críticas rapidamente.
Tecnologia como base da operação
Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser um suporte e passa a ocupar o centro da operação. Sistemas de Informação Geográfica (GIS) desempenham um papel fundamental ao oferecer uma representação precisa e estruturada da rede elétrica.
Esses sistemas permitem mapear cada elemento da infraestrutura (postes, transformadores, cabos) e entender como todos esses componentes se conectam. Quando bem implementados, tornam-se a base sobre a qual outras soluções operacionais se apoiam.
A integração do GIS com sistemas de monitoramento em tempo real e plataformas analíticas amplia ainda mais essa capacidade. Com dados atualizados e conectados, as concessionárias conseguem detectar anomalias antes que se transformem em falhas, priorizar atendimentos com base em critérios geográficos e operacionais e reduzir significativamente o tempo de resposta a incidentes.
O papel da inteligência artificial
A evolução recente da inteligência artificial adiciona uma nova camada de capacidade a esse ecossistema. No entanto, seu impacto está diretamente condicionado à qualidade dos dados disponíveis. Sem uma base consistente, precisa e integrada, o potencial da IA é limitado.
Quando essa base existe, a inteligência artificial passa a atuar como um multiplicador de eficiência. É possível identificar padrões que não seriam perceptíveis em análises tradicionais, prever falhas com base em histórico de operação e condições ambientais, e otimizar a alocação de recursos durante eventos críticos.
Aplicações práticas incluem a antecipação de falhas em equipamentos, a definição de rotas mais eficientes para equipes de manutenção e a análise simultânea de múltiplas variáveis para apoiar decisões em tempo real. Mais do que automatizar processos, a IA amplia a capacidade humana de interpretar dados complexos e agir com maior precisão.
Lições de mercados mais maduros
Experiências internacionais mostram que o uso consistente de tecnologia pode transformar significativamente a gestão de redes. Em mercados como Canadá e Estados Unidos, o GIS é tratado como o núcleo da operação, e não como uma ferramenta secundária.
As decisões de manutenção, expansão e resposta a emergências são baseadas em dados georreferenciados confiáveis, e a integração entre sistemas é uma prioridade. Plataformas diferentes operam de forma conectada, permitindo que informações circulem com fluidez entre áreas técnicas e operacionais.
Esse nível de maturidade tecnológica não elimina completamente as falhas, mas reduz sua frequência e, principalmente, o tempo necessário para resolvê-las.
O desafio brasileiro
No Brasil, o cenário é marcado por um contraste. De um lado, há profissionais altamente qualificados e uma matriz energética diversificada. De outro, persistem desafios relacionados à cultura organizacional, à integração tecnológica e ao investimento.
Ainda é comum que sistemas geoespaciais sejam tratados apenas como ferramentas de mapeamento e não como plataformas estratégicas de gestão de ativos e inteligência operacional. Além disso, a integração entre sistemas de diferentes fornecedores exige conhecimento especializado, o que nem sempre está disponível internamente.
A questão do investimento também é relevante, mas precisa ser analisada sob outra perspectiva. O custo das interrupções — em multas regulatórias, perda de receita e impacto na satisfação do consumidor — frequentemente supera o custo de adoção de tecnologias mais avançadas.
Nesse sentido, o maior desafio não é a inexistência de soluções, mas a capacidade de implementá-las de forma eficiente e integrada.
Um caminho possível
A tecnologia necessária para transformar a gestão das redes elétricas já existe e vem sendo utilizada com sucesso em diferentes partes do mundo. O avanço depende, sobretudo, de uma mudança de abordagem: enxergar dados, integração e inteligência operacional como elementos centrais da estratégia, e não como camadas adicionais.
Ao ampliar a visibilidade sobre a rede, integrar sistemas e utilizar inteligência artificial de forma estruturada, as concessionárias podem migrar de um modelo reativo para um modelo preditivo. Nesse cenário, os apagões deixam de ser eventos inevitáveis e passam a ser, cada vez mais, situações gerenciáveis com menor impacto e maior capacidade de resposta.
*Walter Cherfem é veterano em Smallworld com mais de dez anos de experiência. Especialista em Magik, VMDS e SWMFS, entregou atualizações críticas para concessionárias globais e é o visionário técnico por trás do portfólio de produtos da MagikDev
