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Cannabis medicinal ganha espaço como aliada no tratamento da insônia, condição que afeta milhões de pessoas

Distúrbio do sono atinge até metade dos brasileiros e impulsiona busca por alternativas mais integradas e com menos efeitos colaterais

Créditos: Freepik

Brasil, abril de 2026 – A dificuldade para dormir deixou de ser um problema pontual para se tornar uma questão de saúde pública. A insônia afeta cerca de 30% da população mundial, segundo a World Health Organization. No Brasil, entre 30% e 50% dos adultos relatam algum grau do distúrbio, de acordo com a Associação Brasileira do Sono. Caracterizada pela dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou ainda por um descanso não reparador, a insônia impacta diretamente a saúde física e mental, podendo causar fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda de produtividade. Em muitos casos, está associada a quadros de ansiedade, dor crônica e estresse persistente.

Nesse cenário, cresce o interesse por abordagens alternativas como a cannabis medicinal, movimento que começa a ser respaldado também por evidências clínicas. Estudos recentes apontam que os canabinoides podem contribuir para a melhora do sono, especialmente quando a insônia está ligada a outros fatores. Em um ensaio clínico randomizado publicado no Journal of Sleep Research, por exemplo, cerca de 80% dos participantes relataram melhora na qualidade do sono, enquanto 60% deixaram de apresentar critérios clínicos para insônia após o uso de formulações à base de cannabis.

Outras pesquisas com compostos combinados — como THC, CBD e CBN — indicam avanços em parâmetros como tempo para adormecer, manutenção do sono e sensação de descanso ao acordar, além de possíveis impactos em mecanismos fisiológicos relacionados ao ciclo do sono, como a regulação da melatonina. Apesar dos resultados, especialistas ponderam que os estudos ainda são recentes e exigem cautela na interpretação e reforçam a importância do acompanhamento médico.

Na prática clínica, o efeito da cannabis medicinal sobre o sono tende a ocorrer de forma indireta. “O paciente dorme melhor porque reduz ansiedade, dor ou estado de alerta elevado. O canabidiol atua como modulador do sistema nervoso, não como um sedativo direto”, explica o médico Adam Alborta, clínico-geral especializado em cannabis medicinal. Ele destaca que a diferença entre formulações também é relevante. “O CBD isolado costuma apresentar efeito mais leve, enquanto produtos que combinam outros canabinoides, especialmente o THC, tendem a ter impacto mais perceptível na indução e manutenção do sono”, complementa.

Indicação e limites do tratamento

“O uso da cannabis medicinal é mais indicado quando a insônia está associada a outras condições, como ansiedade, dor crônica ou estresse. Nesses casos, a melhora do sono ocorre como consequência do equilíbrio desses fatores”, detalha Adam. Por outro lado, recomenda o médico, o tratamento não é recomendado para quem busca um efeito imediato semelhante a medicamentos hipnóticos tradicionais, nem substitui a investigação das causas do distúrbio. “Também requer cautela em grupos específicos, como gestantes, idosos frágeis e pessoas com histórico de dependência ou transtornos psiquiátricos”, ressalta.

Crescimento da demanda e mudança de comportamento

A procura por cannabis medicinal para distúrbios do sono tem aumentado de forma consistente. Segundo Adam, a insônia já está entre as principais queixas nos consultórios. O perfil mais comum inclui adultos entre 40 e 60 anos, com rotina intensa e múltiplas queixas associadas. “O que vemos hoje são pacientes que já passaram por diversas tentativas de tratamento e buscam alternativas mais completas, que atuem não só no sono, mas também na ansiedade e na dor”, afirma.

Apesar do avanço, o consenso entre especialistas é claro: a cannabis medicinal não deve ser vista como solução isolada. “O principal equívoco é esperar um efeito imediato. Na prática, a melhora tende a ser gradual e mais consistente ao longo do tempo, como parte de uma abordagem mais ampla”, salienta o médico.

 Mercado acompanha o movimento

Na prática, esse crescimento já se reflete no comportamento dos pacientes. Michele Farran, sócia da Cannabis Company, primeira farmácia do Brasil exclusiva e com pronta-entrega de cannabis medicinal, conta que a insônia está entre as principais queixas relatadas pelos clientes do estabelecimento. “Hoje, cerca de 70% das pessoas que nos procuram relatam dificuldades relacionadas ao sono. Na maioria dos casos, a insônia vem acompanhada de ansiedade ou estresse, o que reforça a busca por soluções mais integradas”, completa.