
Por Juliana Tângari*
Todo ano o Conselho de Segurança Alimentar Mundial (CSA) reúne-se em assembleia no mês de outubro para aprovar recomendações de políticas públicas aos países membros da ONU, a partir de estudos do seu painel de especialistas produzido no ano anterior. Em 2026, teremos a plenária CSA-54, numa contagem que vem desde 1975.
O CSA, inicialmente um Conselho da FAO, é desde 2009 um Conselho da ONU, mas segue sendo formado por representantes dos 126 países-membros da FAO. Conta com mecanismos de participação da sociedade civil, povos indígenas, setores filantrópico, privado e científico, e é auxiliado por um painel independente de alto nível (HLPE).
Nos últimos anos, o CSA publicou recomendações importantes sobre juventude, gênero, crises alimentares, coleta de dados, e desigualdades. Para o meu trabalho, são especialmente valiosas as recomendações de 2025, que corroboram os achados do relatório do HLPE de 2024, e orientam o fortalecimento dos sistemas alimentares urbanos e periurbanos — tema que se relaciona com o relatório SOFI (Estado da Insegurança Alimentar no Mundo) de 2023, o qual cunhou a noção de “continuum urbano-rural” como a forma mais adequada de compreender a transformação demográfica deste milênio e seu impacto nos sistemas alimentares. Naquele ano, a FAO e agências parceiras anunciaram que mais de 75% das pessoas em situação de insegurança alimentar grave ou moderada vivem em áreas urbanas e periurbanas, chamando atenção para a necessidade de melhor integração no planejamento alimentar, e mais inovação e investimento para garantir acesso a dietas saudáveis nesse continuum. Esses relatórios seguem um movimento que se iniciou com a Nova Agenda Urbana de 2016 e a configuração do Pacto de Milão no mesmo ano de 2016, e continuou com a Agenda Alimentar Urbana da FAO de 2019.
Em 2024, o HLPE reportou sobre a teoria de mudança necessária nesses contextos: aumentar a resiliência dos sistemas alimentares, fortalecer uma governança multinível, enfrentar desigualdades extremas e promover uma regulação eficiente do ambiente alimentar. Em 2025, o CSA declarou que garantir segurança alimentar e nutricional em todo o continuum urbano-rural exige políticas que abordem a desigualdade em todas as suas formas e concretizem o direito à alimentação adequada. Destacou o papel fundamental dos governos locais como agentes de mudança, e daí a necessidade de uma governança participativa nos vários níveis para maximizar o potencial das soluções alimentares locais. A recomendação foi expressa: governos nacionais devem incluir governos locais no desenvolvimento de políticas e estratégias nacionais de segurança alimentar e nutricional. É preciso avaliar também a coerência e o impacto nos sistemas alimentares urbanos e periurbanos das políticas alimentares.
Isso me faz lembrar também que essa coerência e interconexão desejadas entre políticas e ações dependem de aplicarmos, de fato, uma perspectiva sistêmica a toda a governança, ao pensamento, à execução, ao aprendizado, ao conhecimento e ao investimento em sistemas alimentares, conforme orientou a FAO em 2025, em “Transformando a Alimentação e a Agricultura por meio de uma abordagem sistêmica“, publicação com a qual tive a oportunidade de colaborar.
Sem reconhecer que os problemas são interligados e têm múltiplas causas, é improvável que instituições busquem soluções integradas além de seus mandatos setoriais. E sem estabelecer visões compartilhadas para os sistemas agroalimentares, fica difícil identificar pontos de entrada estratégicos.
Faço coro com a vice-prefeita de Milão, Sra. Anna Scavuzzo, que na plenária do CSA — da qual pude participar presencialmente — convocou todos os países a apoiar a implementação local de políticas alimentares com abordagem sistêmica e promover a integração dos governos locais na formulação de estratégias nacionais.
Essa tem sido uma das missões do Instituto Comida do Amanhã há pelo menos 5 anos, desde que lançou o Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares (LUPPA), em correalização com o ICLEI América do Sul, cujo modelo metodológico tem sido recomendado em todos os relatórios internacionais acima citados para a aceleração da transformação que se faz necessária nas políticas locais para alimentação e agricultura. E a partir do qual estabeleceu sua agenda de advocacy para o governo federal em 2023 lançar a Estratégia Alimenta Cidades.
O Comida do Amanhã, também em parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional desde 2024, vem atuando para apoiar governos municipais brasileiros a avançarem nessas estratégias locais, e estuda como apoiar a implementação ou internalização das recomendações do CSA no Brasil. Nesse sentido, o próximo encontro anual do LUPPA, o LUPPA LAB 5, que se realizará em Caxias do Sul no mês de maio convergindo mais de 100 autoridades locais, busca também trazer ao conhecimento das gestões municipais brasileiras as recomendações do CSA.
*Diretora no Instituto Comida do Amanhã
Ex-membro da Rede de Champions da Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU
Membro suplente do Board of Champions da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza
