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Seu intestino tem receptores de cannabis. A ciência finalmente explica o porquê

Com receptores espalhados pelo intestino, o sistema endocanabinoide participa de funções ligadas à imunidade, inflamação e motilidade do órgão. Medicamentos à base da planta são opções para aliviar sintomas de doenças como Crohn e Retocolite Ulcerativa

Créditos: magnific

O intestino humano abriga uma das redes mais complexas de comunicação do organismo. Além de participar da digestão e da absorção de nutrientes, ele mantém conexão direta com os sistemas imunológico, neurológico e hormonal. Um dos maiores aliados ao bom funcionamento intestinal é o sistema endocanabinoide, uma rede de sinalização biológica presente em diferentes órgãos e tecidos do corpo humano. Ele é formado por receptores, enzimas e substâncias produzidas naturalmente pelo organismo, os chamados endocanabinoides. Sua função é ajudar a manter o funcionamento interno do corpo, regulando processos como sono, humor, resposta imunológica, apetite, percepção da dor e inflamação. No intestino, os receptores CB1 e CB2 aparecem em grande quantidade, o que ajuda a explicar o interesse científico na relação entre cannabis medicinal e funcionamento gastrointestinal.

“Quando falamos em saúde intestinal, falamos também sobre imunidade, metabolismo, saúde mental e qualidade de vida. A cannabis medicinal pode contribuir para diferentes perfis de pacientes, desde pessoas com doenças inflamatórias intestinais até quadros de dor crônica, distúrbios funcionais e condições associadas ao estresse. O mais importante é compreender que existe individualidade em cada tratamento e que o acompanhamento médico é essencial para indicar a melhor abordagem para cada faixa etária e necessidade clínica”, afirma a Dra. Mariana Maciel, médica à frente da biotech canadense Thronus Medical, empresa com foco em desenvolvimento de nanofármacos à base de cannabis.

Segundo a médica, o intestino pode ser considerado um “órgão endocanabinoide” pela ampla presença desses receptores ao longo do trato gastrointestinal. “Em pacientes com Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa, essa via está comprovadamente disfuncional. Os canabinoides possuem evidências fisiológicas para modular a resposta inflamatória e auxiliar no controle de sintomas. Não falamos em substituição dos tratamentos convencionais, mas em uma estratégia adjuvante”, explica.

Uma revisão publicada em 2024 na revista Cannabis and Cannabinoid Research analisou 40 trabalhos sobre o uso de cannabis em pacientes com doenças inflamatórias intestinais. Os pesquisadores observaram melhora em sintomas como dor abdominal, frequência evacuatória, perda de apetite e desconforto emocional. Os dados também apontaram potencial modulação da atividade inflamatória intestinal, embora os autores ressaltem a necessidade de publicações mais amplas para definição de protocolos clínicos.

Outra pesquisa publicada em 2024 na revista Applied Sciences identificou alterações nos níveis de endocanabinoides e nos receptores intestinais ligados à resposta imune em pacientes com Doença de Crohn. O estudo reforça a hipótese de que a modulação dessa via pode contribuir para o controle da inflamação crônica.

Em modelos experimentais, cientistas da Pennsylvania State University demonstraram, em publicação de 2024, que extratos ricos em canabigerol (CBG) reduziram inflamações intestinais e promoveram alterações positivas na microbiota associadas à melhora da colite.

“Os estudos sobre cannabis medicinal e funcionamento intestinal ajudam a ampliar a compreensão sobre como o sistema endocanabinoide influencia processos fundamentais do organismo, como imunidade, inflamação e microbiota. Isso abre espaço para abordagens terapêuticas mais individualizadas e integrativas, especialmente para pacientes que convivem com doenças crônicas e sintomas persistentes. Quanto mais a ciência avança, mais entendemos que cuidar do intestino também significa olhar para a saúde de forma ampla e conectada”, finaliza a Dra. Mariana.