
Por dr. Francisco Leite dos Santos, médico otorrinolaringologista
Durante muito tempo, a perda auditiva foi associada principalmente ao envelhecimento ou à exposição ocupacional a ambientes extremamente ruidosos, como fábricas e máquinas industriais. Nos últimos anos, porém, especialistas têm observado uma mudança importante nesse cenário: jovens adultos e até adolescentes vêm apresentando sinais precoces de desgaste auditivo relacionados à exposição sonora recreativa, especialmente pelo uso frequente e prolongado de fones de ouvido.
O aumento do tempo de exposição ao som faz parte da transformação da rotina moderna. Hoje, muitas pessoas passam horas por dia utilizando fones para trabalhar, estudar, jogar, assistir vídeos, ouvir música ou participar de chamadas online. O problema não está no uso do fone em si, mas na intensidade do volume e no tempo contínuo de exposição.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um bilhão de jovens em todo o mundo podem estar em risco de perda auditiva relacionada a hábitos inseguros de escuta. Isso ocorre porque níveis elevados de som, quando mantidos por tempo prolongado, podem provocar lesões progressivas nas estruturas responsáveis pela audição.
O ouvido interno possui células sensoriais altamente especializadas, chamadas células ciliadas, responsáveis por transformar vibrações sonoras em sinais elétricos que serão interpretados pelo cérebro. Essas células são delicadas e não possuem capacidade significativa de regeneração. Quando expostas repetidamente a sons intensos, podem sofrer dano progressivo.
Os efeitos nem sempre aparecem imediatamente. Em muitos casos, os sinais iniciais são sutis e acabam ignorados, especialmente entre os mais jovens. Entre os sintomas mais comuns estão zumbido, sensação de ouvido abafado, dificuldade para compreender conversas em ambientes com ruído e necessidade frequente de aumentar o volume dos aparelhos.
Também pode ocorrer fadiga auditiva, situação em que o cérebro passa a fazer mais esforço para compreender sons e falas ao longo do dia. Com o tempo, isso pode gerar impacto na concentração, na comunicação e na qualidade de vida.
O aspecto mais preocupante é justamente o caráter silencioso do problema. A perda auditiva induzida por exposição sonora costuma se desenvolver de forma gradual. Muitas vezes, o paciente só percebe alterações quando parte da audição já foi comprometida.
A preocupação da comunidade médica aumentou, porque cada vez mais pacientes jovens apresentam sinais iniciais de sofrimento auditivo em exames especializados. Embora nem todo usuário de fones desenvolva perda auditiva, a exposição frequente a volumes elevados aumenta o risco de lesão auditiva ao longo do tempo.Além da redução da audição, a exposição sonora excessiva também está associada ao aumento da ocorrência de zumbido e desconforto auditivo em alguns indivíduos mais suscetíveis.

Isso não significa que os fones de ouvido sejam vilões ou precisem ser evitados, o ponto central é o uso seguro. Entre as principais recomendações, está manter o volume em níveis moderados, evitar longos períodos contínuos de exposição e realizar pausas regulares ao longo do dia. Uma orientação frequentemente utilizada é a chamada “regra 60/60”: utilizar os aparelhos em até cerca de 60% do volume máximo por, no máximo, 60 minutos contínuos antes de fazer pausas. Embora essa regra não substitua avaliações individuais, ela ajuda a reduzir o risco de exposição sonora excessiva.
Modelos com cancelamento de ruído também podem contribuir em alguns contextos, especialmente em ambientes barulhentos, porque reduzem a necessidade de aumentar excessivamente o volume para competir com o ruído externo.
Outro ponto importante é estar atento aos sinais do próprio corpo: episódios frequentes de zumbido, sensação de ouvido tampado ou dificuldade auditiva após uso prolongado de fones não devem ser considerados normais.
A audição é um processo complexo e muito sensível à exposição sonora ao longo da vida. Pequenas mudanças de hábito adotadas precocemente podem ter impacto importante na preservação auditiva no futuro.
