Especialistas alertam para os impactos do uso excessivo de inteligência artificial e redes sociais na formação crítica de crianças e adolescentes.

A formação da consciência democrática e cidadã de crianças e adolescentes hoje vai além dos livros de história ou das conversas de mesa de jantar; ela se constrói, em tempo real, por telas, algoritmos e inteligências artificiais.
De acordo com a última Pesquisa TIC Kids Online Brasil, o uso da internet para atividades informacionais aumenta com a idade: 64% dos adolescentes de 15 a 17 anos leram ou assistiram notícias online, enquanto a taxa é substancialmente menor nas idades mais jovens, correspondendo a 50% entre 13 e 14 anos, 39% entre 11 e 12 anos e 31% entre 9 e 10 anos.
“Em um cenário em que a desinformação, a polarização e o isolamento desafiam as instituições em todo o mundo, a forma como crianças e adolescentes consomem tecnologia tornou-se um debate central para o futuro da própria educação democrática e cidadã. À medida que as mediações digitais assumem crescente relevância na formação e na construção da visão de mundo e de sociedade dos jovens, as instâncias de socialização e de debate público são reconfiguradas. Trata-se de um fator central que tensiona famílias e instituições educativas quanto à necessidade de promover o desenvolvimento do pensamento crítico, ético e responsável com as jovens gerações”, afirma Patrícia Espíndola De Lima Teixeira, psicopedagoga e coordenadora do Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista.
A pesquisa, lançada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e realizada pelo Cetic.br, demonstrou que 59% dos usuários de internet de 9 a 17 anos afirmaram ter usado ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares ou estudos, enquanto 42% utilizaram para buscar informações e 21% para criar conteúdos como textos, imagens, vídeos ou códigos de programação.
Além disso, 10% dos entrevistados relataram que utilizaram IA generativa para conversar sobre problemas pessoais ou emoções. No caso das redes sociais, 33% das crianças de 9 a 10 anos disseram ter utilizado essas plataformas no último ano. Entre usuários de 11 a 12 anos, o percentual foi de 63%, chegando a 89% entre adolescentes de 13 a 17 anos.
No total, foram entrevistados 2.370 crianças e adolescentes, além do mesmo número de pais ou responsáveis em todo o país.
A especialista do Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista ressalta que o uso de IA generativa para conversar sobre problemas pessoais, tomar decisões ou lidar com emoções acende um sinal de alerta, pois pode impactar diretamente o desenvolvimento pessoal e relacional.
“Além dos riscos à privacidade, há também o perigo de respostas imprecisas influenciadas pelo chamado viés de confirmação. Nesses casos, o algoritmo tende a oferecer ao jovem conteúdos alinhados às suas expectativas, o que pode limitar a capacidade de lidar com o contraditório. Algoritmos operam em escalas massificadas e isso fragiliza a autonomia de pensamento. Dito de outro modo, os atuais cenários digitais não favorecem as bases de consciência crítica e empática, fundamentais do debate democrático”, comenta Patrícia.
A especialista defende que a superação da dependência cognitiva gerada pelo excesso de consumo digital depende da presença saudável de referenciais no mundo físico, do diálogo aberto e da criação de ambientes que possibilitem troca de ideias e acolhimento, tanto nas escolas quanto no núcleo familiar.
Veracidade das informações
Graciele Silva de Matos, assessora de políticas sociais da Área de Solidariedade da Rede Marista, explica que o desenvolvimento da alfabetização digital é essencial para que os jovens aprendam a navegar com responsabilidade e avaliar criticamente as informações recebidas, evitando a disseminação automatizada de boatos.
“Para que esse processo seja efetivo, a primeira atitude deve ser sempre investigar a fonte e o autor, verificando se o texto foi publicado em veículos de comunicação confiáveis e pesquisando a credibilidade, formação e experiência do profissional responsável pelo assunto”, explica.
Segundo ela, também é importante analisar criticamente o canal e o contexto em que a informação foi recebida, especialmente em mensagens compartilhadas por amigos ou familiares em redes sociais.
Checar a data de publicação ajuda a evitar que conteúdos antigos sejam tirados de contexto para gerar pânico. Já a observação cuidadosa permite identificar se determinado material não passa de piada ou meme.
“Como suporte prático para essa checagem diária, existem ferramentas especializadas em fact-checking que atuam diretamente no desmonte de boatos na internet brasileira”, comenta Matos.
Sobre os Maristas no Brasil
Os Maristas no Brasil integram uma rede global presente em mais de 80 países. Há 129 anos no país, a instituição atua atualmente em mais de 94 cidades, distribuídas em 25 estados e no Distrito Federal.
São 97 unidades de educação básica, 34 unidades sociais, além de instituições de ensino superior como a PUCRS, PUCPR e Católica de Santa Catarina. A rede também atua na área da saúde com hospitais e editoras educacionais como a FTD Educação.
As frentes de atuação abrangem educação básica, ensino superior, editoras, saúde e centros de defesa, promovendo educação de qualidade, direitos humanos, engajamento solidário e preservação do patrimônio histórico, espiritual e socioambiental brasileiro.
Fonte: Rede Marista / Observatório Juventudes PUCRS
