Dados do Procel, do Inmetro e da Abrava mostram que erros populares (como baixar demais a temperatura, escolher o BTU errado ou deixar o filtro sujo) podem elevar o consumo do ar–condicionado em até 60%, justamente no período de maior demanda por climatização no país

Com a chegada do calor e o consumo de energia elétrica em alta nas residências brasileiras, o ar–condicionado volta a ocupar o topo da lista de vilões da conta de luz. Segundo o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), da Eletrobras, o equipamento pode representar entre 20% e 60% do consumo total de eletricidade de uma casa no verão, a depender do tempo de uso e da eficiência do modelo.
O peso do aparelho na conta tende a crescer nos próximos anos. Levantamentos do IBGE mostram que, entre 2002 e 2017, a posse de ar–condicionado nos domicílios brasileiros cresceu mais de 200 vezes, um ritmo muito acima do observado em bens já consolidados, como televisores (alta de 8,7%) e geladeiras (14,3%) no mesmo período, ainda concentrada majoritariamente nas famílias de maior renda. Esse avanço ajuda a explicar por que o país tem registrado recordes sucessivos de consumo elétrico em períodos de calor extremo: em janeiro de 2026, o consumo residencial cresceu 8,6% na comparação anual, batendo novo recorde para o segmento, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), resultado diretamente associado às ondas de calor e à maior demanda por climatização.
Diante de sua experiência de duas décadas no mercado de climatização, a Webcontinental mapeou os hábitos mais comuns dos consumidores brasileiros na hora de usar o aparelho e cruzou-os com dados técnicos do Procel, do Inmetro e da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar–Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava). O resultado desmonta uma série de crenças populares que, na prática, custam caro ao consumidor.
O hábito de ligar e desligar pesa menos do que a temperatura escolhida
Um dos mitos mais resistentes é o de que manter o ar–condicionado ligado o dia inteiro sempre gasta mais do que ligá-lo e desligá-lo várias vezes. Não existe uma regra única: tudo depende do isolamento do ambiente. Em cômodos bem vedados, manter o aparelho ligado em temperatura estável tende a ser mais eficiente, já que o compressor consome mais energia justamente nos momentos de partida em potência máxima. Em ambientes com portas e janelas abertas, por outro lado, o motor é forçado a trabalhar no limite, e o consumo dispara independentemente do hábito de uso.
Já a temperatura programada no controle tem impacto direto e mensurável. Ao contrário do que muita gente pensa, ajustar o aparelho para 16°C não faz o ambiente esfriar mais rápido, apenas prolonga o tempo em que o compressor opera em potência máxima. Segundo dados do Inmetro e da Abrava, cada grau abaixo de 23°C pode elevar o consumo de energia em até 8%. Programar o ar–condicionado para 23°C ou 24°C entrega o mesmo conforto térmico com uma fatura mais baixa.
Nem todo aparelho consome igual: a etiqueta importa mais do que parece
A eficiência varia significativamente entre modelos e fabricantes, e ignorar essa diferença é um dos erros mais caros na hora da compra. Aparelhos com Selo Procel A, certificados pelo Inmetro, consomem até 40% a 60% menos energia do que equipamentos de categorias inferiores para entregar a mesma capacidade de refrigeração. Essa diferença se paga em poucas temporadas de uso intenso.
A tecnologia inverter reforça essa lógica, mas com uma ressalva pouco divulgada: ela não economiza energia de forma automática, em qualquer cenário. O sistema ajusta a velocidade do compressor conforme a necessidade real do ambiente, reduzindo picos de consumo e podendo gerar economia de 30% a 60% frente aos modelos convencionais. Esse ganho, porém, só se confirma na prática com uso prolongado, dimensionamento correto do equipamento e boa vedação do ambiente. Sem essas condições, parte da vantagem energética do inverter se perde.
O erro de cálculo mais caro está no dimensionamento, não no uso
Outra crença comum é a de que, quanto maior o BTU do aparelho, maior a economia. Afinal, ele esfriaria mais rápido. Na prática, capacidade em excesso não é sinônimo de eficiência: um equipamento superdimensionado resfria rápido, mas desliga antes de completar o ciclo de desumidificação, deixando o ambiente frio e úmido, e consumindo mais energia sem necessidade.
A diferença aparece na conta. Dois aparelhos de mesma marca e eficiência, com 7 mil e 12 mil BTUs, ligados nove horas por dia durante 30 dias, resultam em consumos de aproximadamente R$ 35 e R$ 62, respectivamente. O dimensionamento correto deveria levar em conta a metragem do ambiente, a exposição solar, o número de pessoas e a quantidade de equipamentos eletrônicos no local, nunca pela lógica de “quanto maior, melhor”.
A regra prática adotada pelo setor de climatização e recomendada pela Webcontinental parte de 600 BTUs por metro quadrado, valor que sobe para 800 BTUs por m² em ambientes com incidência direta de sol. A esse número somam-se 600 BTUs para cada pessoa além da primeira que ocupar o espaço com frequência e mais 600 BTUs para cada equipamento eletrônico de uso constante, como televisores ou computadores. Um quarto de 12 m² com uma pessoa, por exemplo, pede cerca de 7.200 BTUs, não os 9 mil ou 12 mil BTUs que costumam ser vendidos como “mais seguros”. Ferramentas gratuitas, como a calculadora de BTUs, automatizam essa conta e reduzem o risco de erro no dimensionamento.
A manutenção que ninguém vê, mas que aparece na fatura
Por fim, um mito recorrente é o de que o filtro sujo prejudica apenas a qualidade do ar respirado, sem relação com o consumo de energia. O acúmulo de poeira bloqueia a passagem do ar e obriga o motor a trabalhar mais para atingir a temperatura programada: estudos do setor apontam que um aparelho com filtro sujo pode consumir entre 20% e 50% a mais de energia para entregar a mesma capacidade de refrigeração de um equipamento limpo. A recomendação técnica é limpar o filtro a cada 15 dias em uso intenso e fazer manutenção completa a cada seis meses.
Some esses fatores e fica claro por que o ar–condicionado nem sempre é o maior vilão da conta de luz, como sugere o senso comum, embora costume ser, de fato, o maior item isolado quando presente. Um split de 10.001 a 15.000 BTU/h, usado 8 horas por dia, consome em média 194 kWh por mês, mais do que o consumo isolado do chuveiro elétrico (na faixa de 54 kWh a 165 kWh, a depender do número de pessoas na casa e do tempo de banho) ou da geladeira (entre 25 kWh e 57 kWh, conforme o modelo). O impacto real, porém, depende do tempo de uso, da quantidade de aparelhos na residência e da eficiência de cada modelo, por isso a variação de 20% a 60% identificada pelo Procel. Uma casa com um único aparelho eficiente, bem dimensionado e com manutenção em dia pode ter um impacto bem menor na conta do que se imagina.
Esses hábitos pesam ainda mais em meses de bandeira tarifária mais cara: na bandeira vermelha patamar 2, a mais onerosa do sistema, o consumidor paga R$ 7,87 a mais a cada 100 kWh consumidos, valor que se soma diretamente a qualquer desperdício gerado por um filtro sujo ou por um aparelho subdimensionado.
Para a responsável por esse levantamento, a tendência para os próximos verões é a substituição gradual dos modelos convencionais por equipamentos inverter com Selo Procel A, à medida que o preço de entrada dessa tecnologia continua caindo no varejo brasileiro. “A decisão que mais pesa na conta de luz não é o hábito de ligar e desligar o aparelho, mas a escolha do equipamento certo e a manutenção em dia”, resume a companhia. Mais informações sobre escolha, instalação e manutenção de aparelhos estão disponíveis no guia completo sobre ar–condicionado.
