Estudo encontrou associação entre maior consumo de produtos ultraprocessados e câncer de próstata, sem demonstrar relação de causa e efeito; já pesquisas anteriores sustentam evidências mais consistentes sobre esses alimentos e câncer colorretal

Homens dos Estados Unidos com maior consumo de ultraprocessados apresentaram risco 31% maior de desenvolver câncer de próstata em comparação àqueles com menor consumo, após ajustes para idade, raça e etnia, tabagismo e condição socioeconômica. O resultado vem de um estudo com 17.024 adultos, baseado em dados coletados entre 2003 e 2023 pelo National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), levantamento nacional conduzido pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Conduzido por pesquisadores da Florida Atlantic University, com participação da University of Oxford, o estudo foi aceito para publicação no The American Journal of Medicine.
Apesar da associação encontrada, o estudo não permite concluir que o consumo de ultraprocessados seja uma causa do câncer de próstata. Esse grau de evidência é diferente do já existente para o câncer colorretal, para o qual pesquisas anteriores sustentam de forma mais consistente a influência de fatores relacionados à alimentação no risco da doença, incluindo evidência de relação causal com o consumo de carnes processadas. discussão ganha relevância diante da frequência do câncer de próstata. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028, sendo o câncer mais incidente entre os homens, sem considerar os tumores de pele não melanoma.
Os pesquisadores analisaram 20 anos de dados do NHANES e dividiram os participantes em quatro grupos, de acordo com a proporção das calorias diárias provenientes de alimentos ultraprocessados. A classificação foi feita pelo sistema NOVA, que organiza os alimentos de acordo com o grau e a finalidade do processamento. Os ultraprocessados são formulações produzidas industrialmente, geralmente a partir da combinação de substâncias derivadas de alimentos com diferentes ingredientes e aditivos. Refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos, macarrão instantâneo, determinados embutidos e refeições prontas estão entre os produtos que podem integrar essa categoria.
No grupo de menor consumo, menos de 20,45% da energia diária vinha de ultraprocessados. No segundo grupo, a proporção variava de 20,45% a 31,68%; no terceiro, de 31,68% a 43,87%; e, no quarto, ultrapassava 43,87%. Entre os participantes deste último grupo, esses produtos correspondiam, em média, a 55,1% das calorias ingeridas, ante 12,6% no primeiro. A alimentação foi estimada a partir de dois registros de 24 horas, nos quais os participantes informaram o que haviam consumido. O diagnóstico de câncer de próstata também foi obtido pelo relato dos participantes.. Dos 17.024 homens incluídos, 599 (3,5%) informaram histórico da doença.
Na análise que levou em conta idade, raça e etnia, tabagismo e condição socioeconômica, os homens dos dois grupos de maior consumo de ultraprocessados apresentaram risco 31% maior de câncer de próstata em relação aos que menos consomem esses alimentos. Outras comparações realizadas pelos pesquisadores apontaram aumentos entre 27% e 34%, mas o resultado observado exclusivamente entre os grupos de maior e menor consumo não foi conclusivo. Os números, porém, precisam ser interpretados com cautela. O estudo identifica uma associação entre maior consumo de ultraprocessados e câncer de próstata, mas, pelas características da pesquisa, não permite afirmar que esses alimentos tenham contribuído para o desenvolvimento da doença.
Na avaliação de Gustavo Cardoso Guimarães, urologista e cirurgião oncológico, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e da Medicina Genômica da BP, o resultado é relevante para orientar novas investigações, mas precisa ser comunicado de acordo com o nível de evidência produzido pelo estudo.
“É um achado interessante, principalmente porque foi observado em uma amostra grande e representativa da população dos Estados Unidos, mas o peso da evidência precisa ser colocado no lugar correto. Estamos diante de uma análise que consegue mostrar uma associação, mas não estabelece que o maior consumo de ultraprocessados tenha ocorrido antes do desenvolvimento do câncer, nem que seja responsável por ele”, pondera Guimarães.
Essa cautela decorre das próprias características do estudo. Tanto a alimentação quanto o histórico de câncer foram informados pelos participantes, e o diagnóstico não foi confirmado por prontuários ou registros de câncer. Além disso, fatores como histórico familiar, realização de PSA e inatividade física não foram considerados nos ajustes.
“Por isso, não podemos concluir, a partir deste trabalho, que comer ultraprocessados cause câncer de próstata ou que reduzir seu consumo, isoladamente, diminua o risco da doença. O estudo levanta uma hipótese importante que precisa ser testada em pesquisas que acompanhem as pessoas ao longo do tempo”, acrescenta Guimarães.
Os próprios autores classificam os resultados como úteis para a formulação de hipóteses e defendem estudos maiores capazes de acompanhar os participantes ao longo do tempo. Entre os pontos fortes do trabalho estão o tamanho e a representatividade nacional da amostra e a utilização de duas décadas de dados do NHANES.
Além das limitações já mencionadas, excesso de peso e obesidade, alterações nos níveis de gordura no sangue, hipertensão e diabetes não foram incluídos nos ajustes. Os autores justificam que consideraram essas condições possíveis consequências do consumo de ultraprocessados.
Possíveis mecanismos para uma relação entre ultraprocessados e câncer ainda estão em investigação. O artigo menciona alterações metabólicas, inflamação, estresse oxidativo, mudanças no microbioma intestinal e exposições relacionadas ao processamento e às embalagens. Para o câncer de próstata especificamente, porém, os próprios pesquisadores reconhecem que os dados epidemiológicos disponíveis ainda são limitados. Isso não significa, segundo Guimarães, que alimentação e estilo de vida devam ser deixados de lado na prevenção e promoção da saúde. Há benefícios estabelecidos de uma alimentação equilibrada, atividade física, controle adequado do peso e redução do consumo de ultraprocessados. “O cuidado é não transformar uma associação observada neste estudo em uma recomendação específica para prevenção do câncer de próstata antes que essa relação esteja demonstrada. Na comunicação científica, é fundamental diferenciar uma hipótese que está sendo construída de um fator de risco para o qual já existe evidência mais consistente”, conclui.
Em câncer colorretal, evidência sobre alimentação é mais consistente
No câncer colorretal, diferentemente do achado ainda inicial sobre próstata, há evidências mais consistentes sobre a influência da alimentação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os fatores associados à doença estão dietas ricas em carnes processadas e vermelhas e pobres em frutas e vegetais, além de inatividade física, obesidade, tabagismo e consumo de álcool.
A evidência é particularmente sólida para as carnes processadas. A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, concluiu que seu consumo causa câncer colorretal. Estudos avaliados pela agência indicaram aumento de cerca de 18% no risco para o consumo diário de 50 gramas. Para a carne vermelha, por outro lado, a relação causal ainda não está estabelecida. No Brasil, o INCA estima mais de 53 mil novos casos de câncer colorretal por ano no triênio 2026-2028.Artigo científicoScott H, Willett Y, Dunn J, Dye TD, Hennekens CH. Consumption of Ultra-Processed Foods and Increased Risks of Prostate Cancer in a Random Sample of United States Adults. Am J Med. 2026 Aug 7:S0002-9343(26)00595-4.
Sobre o IUCR
O Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR, criado em 2013, é especializado na prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação do paciente com câncer. A equipe médica é formada por profissionais altamente especializados em uro-oncologia, cirurgia oncológica e oncologia clínica, sob a liderança do cirurgião oncológico Dr. Gustavo Guimarães, que possui mais de 20 anos de atuação e dedicação à assistência do paciente, ao ensino e à pesquisa científica nessa área. Guimarães desenvolveu ampla experiência em tecnologias e procedimentos minimamente invasivos como cirurgia laparoscópica, ultrassom focalizado de alta intensidade-HIFU e cirurgia robótica, tendo desenvolvido um consistente Programa de Consultoria e Capacitação sobre Cirurgia Robótica para Instituições de saúde em todo o país, que engloba a implantação, o desenvolvimento das diversas técnicas cirúrgicas e a capacitação das equipes.
